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Bruno Coutinho: “O futebol polonês equilibra com o russo e o ucraniano”

 

Revelado pelo Grêmio, o volante Bruno Coutinho, de 24 anos, é hoje um dos destaques do futebol polonês. Após se destacar no Jagiellonia Bialystok, foi contratado pelo Polonia Varsóvia nesta temporada e manteve o bom rendimento. E atuando mais à frente, quase como um segundo atacante. “Os sul-americanos, pela técnica, acabam atuando mais à frente aqui”, explica.

E para ele, o nível do futebol polonês é o mesmo do praticado na Rússia e na Ucrânia. “A diferença é que eles contratam mais estrangeiros lá”, comenta.

Em entrevista à Trivela, o jogador falou sobre a dificuldade de se adaptar ao país e os preparativos para a Eurocopa de 2012, que acontecerá na Polônia, e possibilidade de se naturalizar. “Seria prazeroso jogar uma Eurocopa. Vamos ver o que acontece, ainda tem um ano para estar entre os 22”.

Você sentiu muita diferença no futebol polonês em relação ao brasileiro?
É quase completamente diferente. A gente tem o costume de dizer que o futebol brasileiro é pura técnica, um pouco mais lento que na Europa. Bom, se começasse a falar de todas as diferenças, a gente ia precisar de uma entrevista de duas horas. Porque começa pelo clima até a qualidade técnica, tática. São muitos fatores que diferenciam os dois futebois [sic]. Foi bem difícil a adaptação.

Quais as diferenças táticas em relação ao futebol brasileiro?
Aqui eles carecem um pouco de qualidade técnica e acabam superando com muita força, com o jogo aéreo. Quando você chega aqui, acaba se tornando um jogador mais ofensivo porque acaba sobressaindo a qualidade técnica. Eu joguei de volante a vida inteira e estou jogando muito mais próximo do gol, como se fosse um segundo atacante. Às vezes, um pouco mais recuado. Os brasileiros e os sul-americanos se sobressaem com a qualidade técnica e acabam participando mais das jogadas ofensivas.

Você prefere jogar como volante ou segundo atacante?
Prefiro a minha posição de origem como segundo homem de meio de campo. Eu me sinto mais à vontade, sempre participando ativamente do jogo e tocando bastante na bola. Essa é a minha preferência, mas como estou aqui há três anos, não tenho mais dificuldade em jogar nessa posição.

Foi difícil se adaptar ao país, à língua, ao clima?
Aqui é muito frio. Nem vou entrar nos detalhes de alimentação, esses tipos de coisa, porque quanto a isso a gente se adapta bem rápido. Passamos mais dificuldade com o clima. Em dezembro, para a liga. Em janeiro e fevereiro, a gente se apresenta, mas passamos esses meses na Turquia, na Espanha, no Chipre… Porque aqui é muito frio e não há condições de ficar treinando. Ficamos dois meses fora e depois recomeça a liga em março. Ainda não está quente, mas há condições para jogar.

Para onde vocês foram neste ano?
Fomos para a Turquia em janeiro e, depois, para a Espanha. Disputamos a Marbella Cup, até nos saímos bem. Jogamos a final, mas perdemos para o Dnipro, da Ucrânia. Na Marbella Cup ganhamos do campeão da Rússia [Zenit] na semifinal. O futebol polonês acaba se equilibrando com o russo e o ucraniano, que também são de muita força. Só que na Rússia e Ucrânia, eles contratam muito mais estrangeiros. Não que aqui não tenha. Mas eles estão investindo muito no futebol e acabam contratando mais sul-americanos, brasileiros e jogadores de alto nível. Aqui na Polônia vai começar a mudar também porque a próxima Eurocopa é aqui e o futebol estará em bastante evidência.

Então você considera o futebol polonês parecido com o russo e o ucraniano?
Sem dúvida. Aqui, eles tentam implementar todos os anos uma mentalidade alemã, porque eles gostam muito do futebol alemão. Como aqui é muito perto da Alemanha e como após a última Copa da Mundo houve a progressão da liga, eles tentam se espelhar nisso. Até trazem alguns treinadores alemães para cá. Quase todos os treinadores que estão aqui, já jogaram na Alemanha. Mas como aqui o futebol é de muita força e velocidade, os jogadores são muito dedicados a parte tática e cumprem exatamente o que o treinador pede. Às vezes, até se esquecem um pouco da qualidade técnica, nesse afrontamento que o brasieleiro tem de gostar de ir para cima com a bola. Aqui sempre procuram o passe e o jogo coletivo.

Você foi considerado melhor da posição na temporada passada, quando atuava pelo Jagiellonia Bia?ystok. Considera que foi o melhor momento na carreira?
É difícil de falar o melhor momento. Tive bons momentos no Brasil quando jogava pelo Grêmio e até recebi proposta para sair. Mas acabei me lesionando e não me transferi. Cheguei aqui, tive um momento difícil na adaptação e o time não estava muito bem. No futebol, é difícil achar um bom momento. Com certeza, a temporada passada foi bom na minha carreira, porque em um ano eu fiz oito gols e fui campeão da Copa da Polônia, classificamos o time para a Liga Europa. Foi um momento bacana. Depois fui vendido para um time da capital. Então dá para considerar que foi um dos melhores. Eu e a minha esposa nos sentimos muito cômodos aqui. Dá para aproveitar o futebol da Polônia sim. Mas, vamos ver o que acontecerá na próxima janela de transferência.

Você pensa em se transferir para um outro país?
Eu penso, a gente sempre quer algo a mais. Mas tem que ser uma oferta que me agrade financeiramente e tem que ser um país em que eu possa visar algum futuro e uma progressão dentro da liga. Hoje em dia não é fácil você falar para o clube que quer sair. Estou bem adaptado e sou bem respeitado aqui. Bom, vamos ver. Na última janela, tive duas propostas boas, mas fiquei porque o presidente do clube não me liberou. O futebol é assim. Não me liberaram, sendo que oferta tinha e era só assinar. Quem sabe, não aperece uma proposta e ele me libere… Estou feliz aqui, tenho dois anos de contrato.

De onde eram as propostas que você recebeu na última janela?
Uma era de Portugal e outra da própria Polônia. Mas, para eu mudar de clube aqui, teria que pensar bastante. Estou em um time bom e na capital. Quando é uma proposta de fora, tem que pensar se vale a pena trocar de liga.

Você queria ter se transferido para esse time português?
Não. Portugal tem os três clubes, mais o Sporting, que hoje também é considerado um clube grande. Fora esses quatro, sinceramente, o mercado português não me enxem os olhos. Lá talvez possa ser um mercado de visibilidade um pouco maior maior. Mas hoje a troca de informações é muito grande. Algumas pessoas até falam: `Você tem que trocar de liga, porque ninguém vai ver você jogar na Polônia`. Pelo contrário. Hoje em dia, o que tem de empresário olhando aqui. Todo mundo tem acesso a todos os países e cada vez mais estrangeiros como polonês, eslovacos, sérvio, bósnios nas ligas de ponta. Com certeza, sempre tem alguém vendo o que você está fazendo.

Você recomenda que um jogador jovem saia do Brasil para a Europa mesmo que a transferência não seja para uma das ligas tops?
Sim. Até porque antes de sair do Brasil, a gente não tem noção do que é liga polonesa. Tinha 21 anos, é complicado sair cedo, ainda mais para ir para um país do Leste Europeu, que tem uma diferença de clima, língua, cultura, hábitos. Só que eu corri os riscos e acho que acertei na opção. Lógico que é difícil colher, logo depois da primeira temporada, e alcançar todos os seus objetivos nos seis primeiros meses. O início foi difícil. Agora eu falo a língua e me sinto em casa aqui. Não sei se eu posso indicar para alguém se é a opção mais certa, tem sempre que analisar a situação do momento e ver se vale a pena.

O Polonia Varsóvia é um time que não tem tradição no país. Sendo um dos destaques do Campeonato Polonês da temporada passada jogando pelo Jagiellonia Bia?ystok, por que se transferiu o clube?
Porque eles fizeram um elenco de ponta para ganhar a liga, contrataram os melhores jogadores, sendo quatro da seleção. O treinador espanhol [José María Bakero Escudero] que pediu a minha contração não é mais o nosso treinador hoje, mas segue na liga. Tinha um projeto muito bom. Nos mantivemos como líderes do campeonato quase todo o primeiro turno. Hoje a gente não está bem na tabela, mas o projeto que eles tinham era muito bom e eu aceitei. A oferta que eles tinham feito para o meu clube era muito boa. A gente pode se considerar o time mais rico da Polônia pelo presidente, que é um investidor. O que é mais questionado no clube é o fato dos jogadores virem para esse clube, até os de seleção que estavam em outros países querem vir para o Polonia Varsóvia, mesmo sendo um clube sem tradição. Acontece que o time cumpre com tudo o que fala e financeiramente tem um proposta melhor que os outros times. Isso chama atenção e os jogadores acabam aceitando a proposta.

Se no primeiro turno o Polonia Varsóvia liderou o campeonato por várias rodadas, o que aconteceu para o time cair de rendimento?
A gente teve alguns problemas de direção com o treinador. O espanhol [José María Bakero Escudero] que estava no comando foi demitido mesmo conosco estando em primeiro lugar na tabela. Ninguém entendeu o porquê. Foi completamente pessoal a situação dele com o presidente. O treinador substituído não conseguiu bons resultados. Todo mundo sentiu essa troca de técnico. Todo mundo gostava do espanhol. Agora estamos com outro… Ganhamos duas partidas seguidas e já estamos bem na tabela. Estamos a quatro pontos do vice-líder. Basta ganhar mais uma e estaremos entre os cinco primeiros. Então ainda é possível almejar uma vaga nas copas europeias.

No ano passado, o Jagiellonia Bia?ystok terminou em 11º lugar no Campeonato Polonês. Nesta temporada, o clube ocupa a vice-liderança. Quais fatores foram determinantes para a melhora do desempenho do Jagiellonia?
Terminamos em 11º porque começamos com dez pontos a menos. O clube foi envolvido em corrupção há dez anos. Isso na mesma temporada em que ganhamos a Copa da Polônia. Fui o único a sair na janela de verão e contrataram dois. O treinador é muito bom e eles mantiveram o trabalho que vinha fazendo. Terminaram o primeiro turno como líder, mas depois só conseguiram ganhar uma. Por sorte, conseguiram se manter em vice-líder. Eu achei que o clube iria sentir a minha saída, só que eles contratam as pessoas certas.

Você cogita se naturalizar polonês?
Já houve rumores de jogar pela seleção. Hoje já até deu uma esfriada. É difícil falar que eu cogito. Se eu tivesse oportunidade e direito pelo tempo em que eu estou aqui, falaria com a minha família se realmente vale a pena. Não vou dizer que não quero ou que eu quero. Tem que esperar para ver se terei a oportunidade de me naturalizar e jogar por uma seleção. O que eu posso dizer é que jogar por uma seleção seja brasileira, seja polonesa, seria um prazer.

Mas pelo fato de a Polônia ser sede da Eurocopa de 2012 não te anima a possibilidade de jogar pelo país?
Anima, mas este tema esfriou um pouco. Me anima. Imagina como vai ser a atmosfera aqui no país… Todo mundo vai estar acompanhando a Eurocopa. A seleção polonesa está pressionada por jogar a Euro em casa. Seria prazeroso jogar uma Eurocopa, vamos ver o que acontece, ainda tem um ano para estar entre os 22.

Como estão os preparativos para a Eurocopa de 2012?
O país já está em obras, seja em estradas, estádios. Tudo está sendo modernizado. Todos os clubes da primeira divisão estão construindo estádios novos. Acho que só um time, se eu não me engano o Lech Poznan, terá o seu estádio usado na Eurocopa. Os demais estão construindo novos estádios, mesmo não sendo usados na Euro. Com os prepativos para a Euro, a liga vai sofrer uma baita revolução. O país será muito mais divulgado e estará em muito mais evidência. Depois da Eurocopa, a liga polonesa vai ficar comparada a uma liga alemã, em termos de imagem e estrutura.

Qual é sua expectativa em relação à seleção polonesa na Euro?
Não gosto muito de palpitar no futebol. A gente até brinca nos vestiários, os jogadores gostam de apostar em resultados. Eu não gosto. Em futebol é muito difícil apostar. Acho que hoje no futebol só podemos apostar no Barcelona.

Como foi a sua passagem no Grêmio, clube em que você jogou desde os juvenis?
Subi do juniores para o profissional do Grêmio. Participei da má fase do Grêmio no segundo semestre de 2004, quando o time foi rebaixado. No início de 2005, segui no grupo principal até o Grêmio contratar o Hugo de León [técnico]. Com o Hugo de León, voltei para o juniores. Até que o Mano Menezes assumiu o time na segunda divisão e voltei para o profissional. Fiquei no Grêmio até o fim de 2006. Foi o meu melhor ano, porque em 2006 eu comecei jogando no Gauchão. Mas, tive uma lesão no púbis e tive que operar. Fiquei seis meses parado. Enquanto estava jogando tive ofertas para sair, o clube não me liberou e eu renovei o contrato. Perdi o ano em 2006 e em 2007 fui emprestado para o América de Natal, que estava na primeira divisão do Brasileiro. Mas tive problemas com salário e voltei para o clube. O Grêmio me emprestou para o Nacional de Montevidéu até o fim da Libertadores de 2008. Quando eu vim passar as férias no Brasil em 2008, tive a oferta para sair em definitivo. Optei conhecer o clube e me transferir. Saí porque estava muito ansioso para jogar. Vinha de uma operação e seis meses sem jogar é muito tempo.

Na base do Grêmio você jogou com o Anderson. Como era sua relação com ele e como é hoje?
Ele é um dos meus melhores amigos. Nos falamos toda a semana. Como nos conhecemos antes do profissional, é uma amizade de anos. Ele passa todos os natais em casa em Porto Alegre. O meu pai considera ele como filho. O Anderson tem o meu como um amigo e o chama de 'paizão'. A gente tem muito carinho por ele. Todas as férias ele visita a nossa casa. Vamos ver se essas férias a gente passa junto. Quando ele operou o joelho em Portugal, estive com ele junto com a minha esposa e com os meus pais.

Como foi a sua passagem pelo Nacional do Uruguai?
Foi complicado. O Nacional não estava bem financeiramente naquele ano, tive problema de salário. E eu não costumo ficar quieto quando isso acontece. Não recebia, não recebia… Falei para eles: “Não vou ficar aqui, fora do meus país, para passar por esse tipo de situação”. Em seis meses lá, recebi metade ou quatro meses, tive dois treinadores e não tive bom relacionamento com nenhum dos dois. Isso me atrapalhou bastante. Comecei jogando. Depois não joguei mais.

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Equipe Trivela

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