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Brasil no Magreb

No extremo norte da África, na pequena La Goulette, Tunísia, o meia Hércules, de 27 anos, defendeu o Etoile Olympique La Goulette (EOG) Kram, que não conseguiu se manter na divisão principal da Liga nacional e caiu para segundona. Nesta entrevista, o jogador capixaba relata as dificuldades de se trabalhar num clube pequeno na Tunísia, a dura relação com os dirigentes, e a emoção de se jogar num estádio lotado contra os gigantes do país, como Esperance e Club Africain. Ele também fala sobre o título conquistado pelo Etoile du Sahel, que venceu o campeonato depois de um jejum de 10 anos. Confira outras declarações e saiba como foi a aventura deste habilidoso meio-campista na região Magrebe.

Como você avalia sua primeira temporada na Liga tunisiana, defendendo o EOG Kram?

Foi minha primeira experiência internacional. Cheguei na Tunísia sem saber nada sobre o país, muito menos o futebol deles. Como conclusão, digo que eles (dirigentes tunisianos) não têm cabeça boa para lidar com futebol. Exigem que você entre em campo, jogue, e resolva a situação independente se estão cumprindo o que combinaram com você. Atrasam salários, não cumprem o que prometem. Tenho mais um ano de contrato, mas vou rescindir. Não quero ficar.

O EOG Kram foi rebaixado, mas observa-se que as derrotas da equipe ao longo do campeonato foram por placares apertados, com exceção dos 3 à 0 diante do campeão Etoile du Sahel, e os 4 à 0 para o Sfaxien. Isso sem falar da seqüência de empates na reta final da liga. Faltou concentração e experiência?
Faltou concentração e os problemas extra-campo prejudicaram o rendimento da equipe. Você não tem motivação para jogar, não se concentra bem nas partidas. Nós jogadores temos nossas necessidades, e não dá para trabalhar tranqüilo se não recebe. Isso influenciou nos resultados em campo. O time empatou muito no returno, precisávamos de duas vitórias nas últimas sete partidas e não conseguimos. Para matar nosso time, de vez, o Bizertin, que também estava ameaçado de rebaixamento, venceu seu último jogo, fora-de-casa (contra o campeão Etoile du Sahel!), e acabou com nossa equipe.

O EOG Kram teve um dos piores ataques desta temporada na Tunísia. O que houve?
Criamos inúmeras situações de gol, mas não fomos felizes nas conclusões. Para dizer a verdade, tinha partida que a bola definitivamente não entrava. Não tinha jeito! Outra coisa, fora de casa, jogávamos no 4-5-1, um esquema bastante fechado. Eu atuei como meia-ofensivo, outras vezes como atacante.

Voltando a falar sobre cartolas. Como era a relação entre os dirigentes do clube com a comissão técnica e os jogadores? O que você ouvia sobre eles, dos jogadores que estavam a mais tempo no plantel, como o atacante senegalês Papa Georges?
Eles só apareciam na véspera dos jogos, quando estávamos no hotel. Eles não dão bola para jogador não. O contato deles era só com a comissão técnica. Todos, sem exceção, reclamavam dos atrasos salariais. O clima era pesado. Nos treinos, os jogadores sempre estavam de mau-humor. Foi um ano muito difícil.

Vocês bateram o Stade Tunisien, do seu amigo Estevão, nos dois turnos do campeonato (3 x 1 e 1 x 0). Tirou sarro dele?
(risos) Não. Nós nos conhecemos há muito tempo. O Estevão sabe falar francês (um pouco de árabe também) e me ajudou a se adaptar. No jogo do 1º turno eu entrei no 2º tempo e sofri dois pênaltis, mas não foi ele que cometeu. Um foi o goleiro e outro foi o zagueiro. Houve um jogo contra eles (Stade Tunisien) também, pela Copa da Tunísia, em que empatamos em 3×3, e eu marquei dois gols.

Quais as principais diferenças que você percebeu, em relação ao Brasil, nos métodos de trabalho do seu treinador, Lotfi Jbara?
Foram dois treinadores ao longo do campeonato. O Jbara saiu e depois retornou nos últimos meses. Eu me dava muito bem com ele. No inicio, eu cheguei arrasando nos treinos e nos amistosos, marcando gols, jogando bem, e ele sempre me dando força e pedindo para a equipe me ter como referência, mandando os jogadores passarem a bola para eu criar as jogadas. A diferença é que os treinos são mais puxados. O campeonato lá é muito longo, chega a ser estressante. Em período integral, são dois treinos por semana. Na verdade o clube não tinha estrutura para oferecer melhores condições de trabalho.

Há um ano, Estevão nos contou sobre os ciúmes dos jogadores tunisianos em relação aos estrangeiros que brilhavam no Stade Tunisien. Você sofreu algum problema parecido?
Muito pelo contrário. Eu cheguei para fazer experiência, nos amistosos marquei o gol da vitória contra um time da Arábia Saudita. Fiz dois gols contra uma outra equipe africana, e isso fez com que eu ganhasse o respeito deles e ai eles me quiseram no clube. Eles admiravam muito meu futebol, daí começou os problemas de atrasos salariais. Você perde a motivação, não se concentra. Os outros jogadores da equipe ficavam mais putos ainda!

Como é o trabalho no mês do Ramadã?
É de tardezinha. Um treino mais ‘light’. Em dia de partida, os jogadores comem muito. Eles respeitam muito isso daí, e ficam em jejum mesmo. Quando eu estava na rua, por exemplo, comendo alguma coisa, todo mundo me olhava. Eu, como estrangeiro, posso, mas nas ruas ninguém sabia que eu era de fora e ficavam me olhando, daí eu pensava “Todo mundo me olhando, porque será?” Daí me informaram sobre o Ramadã, e como eu pareço árabe me confundiam como se eu fosse de lá (risos).

Sobre o nível do futebol praticado em campo, o que você tem a dizer da liga tunisiana?
O nível é bem fraquinho. Bons jogadores só nas grandes equipes como o Esperance, o Etoile (du Sahel), e o Club Africain. Nos clubes menores é um ou dois jogadores que se destacam. Eles até trabalham bem na parte tática, mas tecnicamente o nível não é bom. Exceção as grandes equipes. No meu clube, por exemplo, eu destacaria só o nosso atacante, o Hammouda, de 20 anos, que tem muito futuro e vinha sendo sondado para jogar em um dos grandes do país. Além do Papa Georges, senegalês, que era referência no nosso time, mas o contrato dele acaba agora e ele vai sair (já acertou com o El Gaouefel S. Gafsa para 2007/8).

No EOG Kram, como é o trabalho de base?
Na minha equipe não dá para falar que aquilo é base. Campo careca, a molecada sem bons equipamentos. Sem comentários…

Os principais clubes do país, como Esperance, Etoile du Sahel, Club Africain, e Sfaxien são conhecidos por terem torcedores fanáticos. Descreva para nós qual a sensação de enfrentar essas equipes nos seus estádios?
Jogador gosta de atuar com casa cheia mesmo! Aquilo era uma motivação para mim. Foi muito legal, uma experiência muito boa. Eles fazem uma festa incrível, cantam e vibram o tempo todo. Nosso time praticamente não tinha torcida, por isso era legal jogar contra os grandes nesses estádios cheios.

O Etoile du Sahel ganhou o título nacional esta temporada depois de 10 anos. Eles mereceram?
O Etoile tem uma equipe boa, muito técnica e entrosada. Eles mostraram que vieram para ganhar o campeonato. É um clube que oferece uma condição de trabalho melhor, tem vários estrangeiros de muito bom nível. Eles tem um atacante de 20 anos, o Chermiti, que está sendo cogitado para jogar na Europa.

Como foi a repercussão no país da final da Liga dos Campeões da África, onde o Sfaxien, campeão tunisiano de 2004/5, perdeu para o Al Ahly, do Egito?
Ninguém acreditava, a cidade de Sfax parou. Eles tem uma torcida bem fanática e não é só na cidade deles não, até na capital (Tunis) o Sfaxien tem muito torcedor. Embora, não dê para comparar com a torcida do Esperance e do Club Africain, que são maioria lá. Até aquela final, eles vinham arrebentando, muitos achavam que seriam campeões nacionais novamente, mas depois que perderam essa final para o Al Ahly, eles caíram muito de produção. É uma equipe que tem um atacante muito bom, o Tarak Ziadi. Contra nós ele marcou os quatro gols da vitória deles!

O que tem a dizer sobre o temperamento dos jogadores naquela região?
Rapaz, tem jogador lá que é complicado…durante os jogos é soco, agarrão, e pancada o tempo todo. É muito comum nos jogos do campeonato tunisiano três jogadores serem expulsos numa partida. Não é só no futebol não, nos programas esportivos na TV sempre tem quebra-quebra, câmera flagrando agressões entre atletas fora do lance em vários esportes. É do caráter deles mesmo.

Então Hércules, jogar na Tunísia só vale a pena nos grandes?
Só! O resto não vale a pena. Só se for um contrato bom e já pegando no dinheiro logo.

A cidade de La Goulette, onde fica a sede do EOG Kram, próximo ao porto da capital Tunis é conhecida pelos bons restaurantes com variedades de mariscos. Você gostou da culinária local? Como foi sua vida na cidade?
É um lugar pequeno, próximo ao porto, e tem muito restaurante mesmo. Todos com boa comida. São muitas opções, assim como no resto da capital. Tem vários bares com muitos turistas, é bem legal. Na Tunísia é tudo muito perto, as cidades são muito próximas.

Pretende continuar no exterior?
Vamos ver as propostas que vamos receber. Se pintar outra eu saio novamente, pois sobreviver com futebol no Brasil também sabemos que não é fácil.

FICHA

Nome: Hércules Cardoso
Data de Nascimento: 23/01/1980
Local de Nascimento: Viana, Espírito Santo.
Clubes:
2000: Vitória
2001: Vitória
2002: Vitória
2003: Vitória
2003: Estrela
2004: Vitória
2004: Rio Branco
2005: Vitória
2005: Serra
2006: Vitória
2006/7: EOG Kram

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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