Sem categoria

Brasil nas eliminatórias da Copa

No último domingo, com o empate sem gols contra a Colômbia em Bogotá, começou a luta da seleção brasileira para chegar à sua 19ª Copa do Mundo, para manter-se como único país a participar de todas as Copas até hoje disputadas. Esta é a terceira fase de eliminatórias seguida que o Brasil enfrenta para conseguir chegar ao mundial, e em nenhuma dessas três oportunidades a seleção canarinho iniciou a caminhada com o mesmo ambiente. Muito menos com os mesmos personagens. Assim, o que 2007 tem de igual e diferente em relação aos outros dois inícios de eliminatórias recentes disputadas pela canarinho, em 1999 e 2003?

Abaixo, um panorama desses períodos, que não tem a intenção de ser definitivo, nem de formular comparações preferenciais. Apenas para acrescentar um pouco mais ao já efervescente debate que o futebol – e principalmente a seleção brasileira – desperta nos torcedores.

Eliminatórias para a Copa de 2002

Mudanças ocorreram para as eliminatórias sulamericanas para a Copa de 2002. Pela primeira vez, o sistema adotado para a disputa reuniria jogos de todos contra todos, em turno e returno, abolindo a tradicional separação das dez nações em dois grupos de cinco, como ocorreu até a Copa de 1998, na França. Pela fórmula antiga, sempre se evitava a inserção, na mesma chave, as duas potências do continente: Brasil e Argentina.

Com esta nova configuração, o tempo de disputa pelas quatro vagas reservadas à América do Sul também seria maior: um ano e oito meses.

Internamente, a seleção era bastante questionada. Após o fracasso na Copa da França, dois anos antes, e pela acachapante derrota diante dos donos da casa na final, por 3 a 0, além do caso da convulsão de Ronaldinho, o time brasileiro não era, definitivamente, uma unanimidade. E de única seleção até então tetracampeã mundial, e atual vice, o clima era de total dúvida sobre a capacidade de superação da canarinho. Incertezas que refletiram no desempenho da equipe em todos os jogos das eliminatórias.

A estréia foi contra a mesma Colômbia, em Barranquilha, em 28 de março de 2000. No comando, Vanderlei Luxemburgo, quase preferência nacional na época, ainda mais depois da conquista da Copa América de 1999, disputada no Paraguai. Como trunfo, o Brasil gozava do status de, até aquele momento, só ter sofrido uma derrota em eliminatórias em toda a sua história, ocorrida em 1993, na Bolívia, com um 2 a 0 em favor dos mandantes.

No elenco, Luxemburgo preferiu uma mescla de atletas que participaram do mundial na França e de outros que surgiram entre a final da Copa e a partida contra Colômbia. Assim, Cafu, Roberto Carlos e Zé Roberto, praticamente incontestáveis, permaneceram, assim como César Sampaio, Rivaldo e Aldair. No gol, com a aposentadoria de Taffarel, titular em três Copas, Dida, que vinha em grande fase no Corinthians, passou a ser o número um embaixo das traves. E começava a despontar também a estrela de Ronaldinho Gaúcho, após a brilhante participação na seleção principal na Copa América vencida um ano antes, quando ele vestiu pela primeira vez a amarelinha em sua vida, contra a Venezuela, e marcou um gol de placa numa goleada de 7 a 0 sobre o eterno saco de pancadas da América do Sul. Ele foi reserva durante a Copa América, e assim permaneceu na fase inicial do torneio classificatório, mas após a arrebatadora performance de um ano antes, muitas das esperanças do torcedor numa volta por cima de sua seleção estavam sobre os ombros do jovem jogador gaúcho.

Na estréia de 2000, num jogo fraco tecnicamente, o Brasil ficou num empate sem gols com os colombianos. A equipe não repetiu as boas atuações que fez no ano anterior, quando da conquista da Copa América. Como justificativa, a freqüente desculpa do pouco tempo que a seleção tinha para concentrar-se e treinar para os jogos.

Veio o mês seguinte, e o Brasil faria a sua primeira partida em casa pelas eliminatórias. O adversário era o pouco expressivo Equador, comandado por Aguinaga, que abocanharia uma das vagas para a Copa ao final das eliminatórias. Novamente em atuação irregular, com direito a susto, pois a seleção brasileira saiu perdendo com um gol do astro equatoriano, os tetracampeões mundiais conseguiram a virada no Morumbi, e venceram pelo apertado e pouco convincente placar de 3 a 2.

Em 4 de junho, o Brasil foi à Lima para enfrentar o Peru. Outro jogo difícil para a torcida assistir, no qual os dois times maltrataram a bola em campo. Para o Brasil, o importante foram os três pontos conquistados com a magra vitória por 1 a 0 sobre os peruanos. O time continuava invicto, tinha 7 pontos conquistados, estava dentre os virtuais classificados para a Copa até então, mas nos três jogos, não havia demonstrado o futebol que se espera de uma seleção brasileira.

No final daquele mesmo junho de 2000, o Brasil recebia o tradicional Uruguai, adversário que sempre gostou de pregar algumas peças conta a seleção canarinho, historicamente falando. E no Maracanã, a celeste olímpica produziu mais uma de suas zebras contra o time tupiniquim: 1 a 1, com os visitantes saindo na frente e um empate arrancado com muita dramaticidade. Se com vitória o Brasil já não agradava, um empate em casa contra um retrancado Uruguai caiu ainda pior.

Veio o dia 18 de julho de 2007, e a partida contra um bem armado Paraguai em Assunção. Veio também a segunda derrota brasileira em eliminatórias em toda a sua história: 2 a 1 para os donos da casa, em atuação pífia da seleção que ostentava quatro títulos mundiais.

Este início de campanha deu o tom do que seria toda a performance brasileira no torneio classificatório para o mundial do Japão e da Coréia do Sul. Ao todo, a seleção teve quatro técnicos neste período: Vanderlei Luxemburgo, envolvido em denúncias de fraude contra a Receita Federal, e comandante do fiasco nas Olimpíadas de Sidney, quando a equipe olímpica brasileira foi eliminada por Camarões nas quartas-de-final, não resistiu ao cargo, e caiu. Candinho assumiu, provisoriamente, por ser auxiliar técnico de Luxemburgo. Dirigiu o Brasil por apenas um jogo nas eliminatórias, contra a fraca Venezuela. Depois, Emerson Leão, que naufragou com a seleção na Copa das Confederações de 2001, após derrota para a França por 2 a 1 e apenas um 4º lugar. E finalmente, Luiz Felipe Scolari, que aos trancos, apostando no que foi chamado depois de “Família Scolari”, classificou a seleção na última rodada das eliminatórias com um 3 a 0 sobre a Venezuela. Foi o torneio eliminatório mais confuso e negativo já disputado pela seleção até então, que totalizou seis derrotas em 18 jogos, um terceiro lugar (atrás do Equador na classificação), que só não se tornou quarto porque o Paraguai, que terminou com o mesmo número de pontos em relação ao Brasil, perdia nos critérios de desempate.

Eliminatórias para a Copa de 2006

A família Scolari foi um grande sucesso no Oriente, e o Brasil, com sete vitórias nos sete jogos da Copa do Mundo de 2002, sagrou-se pentacampeão mundial, contrariando todas as previsões e o descrédito de torcida e jornalistas antes da competição. Scolari, em alta, deixou o comando canarinho, mesmo contra a vontade de todos, e conseguiu o que tanto queria: ser treinador de um grande time europeu. No caso, uma seleção: a de Portugal, cujo cargo mantém até hoje.

Um nome surgiu, de volta, como unanimidade nacional. O bom trabalho de Carlos Alberto Parreira no Corinthians, alguns anos antes, reconduziram o contestado técnico do tetra, tido como retranqueiro e teimoso, de volta ao cargo mais almejado do futebol brasileiro.

O clima de euforia em torno dos jogadores tomou conta da seleção. E isto desde o início das eliminatórias. Eliminatórias? Sim, por determinação da FIFA, o Brasil, atual campeão mundial, teria que disputar o certame para assegurar o seu lugar no mundial da Alemanha. A justificativa da entidade máxima do futebol era melhorar a preparação dessas seleções, pois segundo a FIFA, a classificação automática dos últimos campeões acomodava esses times, que chegavam à Copa sem o devido preparo quando comparados às outras seleções que asseguraram vaga por eliminatórias. Decisão polêmica (ainda mais porque nos últimos mundiais, somente a França decepcionou, em 2002). Na época, dizia-se que a presença do Brasil nas eliminatórias valorizaria o torneio – e aumentaria o faturamento com publicidade. Esta seria a verdadeira intenção da entidade presidida por Joseph Blatter ao obrigar os pentacampeões mundiais a digladiarem-se em mais um classificatório.

A base do penta foi praticamente mantida por Parreira para o início da competição. Dida assumiu o gol como titular, e Marcos, arqueiro da conquista no Japão e Coréia do Sul, ficou no banco. Lúcio, Roque Junior, Roberto Carlos, Cafu, Ronaldo e Rivaldo, integrantes da família Felipão, continuaram como titulares absolutos na equipe de Parreira. Ronaldinho Gaúcho já era uma realidade, mas só jogou uma partida das iniciais nas eliminatórias. Algumas caras novas começaram a aparecer nas convocações de Parreira, mas poucos destes se firmaram. Adriano foi um destes, que apareceu pouco no início, e foi ganhando espaço com o decorrer dos jogos.

O destaque vinha do banco. Em 2002, Kaká era reserva absoluto. Jovem, a revelação do São Paulo que vinha encantando o mundo era tido como a grande promessa da continuidade do Brasil como maior potência do futebol. Em 2003, quando as eliminatórias começaram, ele continuava como reserva, entrando em campo algumas vezes. A partir de 2004, o meia ganhou o posto de titular e deixou-o por muito poucas vezes. Viria a ser integrante do chamado quadrado mágico, que encantaria o planeta da bola no final do classificatório, e que aumentaria o coro de favoritismo em torno da seleção brasileira em relação à conquista do hexa na Alemanha.

A tabela das eliminatórias para a Copa de 2006 foi um repeteco da edição anterior. A ordem dos jogos foi mantida, ao contrário do que a FIFA havia declarado, por meio do seu presidente, quando da oficialização do fim da classificação automática do último vencedor da Copa. A fórmula seria, inclusive, diferente: os 10 sulamericanos não se enfrentariam em turno e returno, de acordo com o próprio Joseph Blatter. Mas não foi o que aconteceu. Em 7 de setembro de 2003, o Brasil estava em campo para estrear, novamente diante da Colômbia na cidade de Baranquilla. Vale lembrar que a Colômbia era a atual campeã da Copa América, disputada no país dois anos antes, quando o Brasil foi eliminado melancolicamente nas quartas de final por Honduras. E os colombianos, confiantes na boa equipe que montaram na época, partiram para cima da seleção canarinho. Tática errada: mostrando bom conjunto e variações ofensivas, e contando com o fato do adversário não ter adotado a retranca, o que historicamente sempre complicou o Brasil, o time de Parreira venceu por 2 a 1 jogando em território inimigo, e deu esperanças ao torcedor de que, desta vez, seria diferente. Inclusive na qualidade do futebol apresentado.

Três dias depois, veio a partida contra o Equador, em Manaus. Após o bom desempenho no jogo de abertura, a torcida esperava ainda mais em casa, contra um adversário de nível equivalente ao da Colômbia. Mas isso não aconteceu: um tanto displicente, a seleção comandada por Parreira jogou ao melhor estilo do treinador, tocando excessivamente a bola, e conquistou uma magra vitória por 1 a 0, jogando “pro gasto”.

Em 16 de novembro, o adversário era o bem treinado, porém limitado, Peru, em Lima. O brasileiro Paulo Autuori era o treinador da seleção peruana na época, e conferiu à equipe um padrão de jogo que causava dificuldades aos adversários, mesmo aos superiores tecnicamente. E ao contrário das eliminatórias anteriores, quando a seleção saiu com vitória sobre o Peru, em 2003 o 1 a 1 foi o resultado da partida, igualando os 7 pontos em três jogos que o Brasil tinha também nas três primeiras partidas do classificatório de 2000 e 2001.

Mais três dias e veio o duelo contra os uruguaios, em Curitiba. E no começo, tudo parecia ir bem: dois gols no primeiro tempo, e a vitória parcial dava a impressão de uma vitória tranqüila sobre a celeste olímpica. Mas, num dos primeiros sinais do chamado “salto alto” que tomaria conta da seleção até o mundial da Alemanha, os jogadores relaxaram em campo no segundo tempo, e permitiram a virada uruguaia em pleno solo brasileiro. A catástrofe só não foi maior porque Ronaldo, no final, conseguiu um gol e empatou em 3 a 3 uma partida que se desenhava como vitória, talvez até por goleada, sobre um acuado, porém sempre resistente, Uruguai.

A campanha das eliminatórias anteriores repetia-se naquele momento, com os 8 pontos em quatro partidas disputadas. O ano terminou para a seleção, e o time só voltou em campo pela competição classificatória em 31 de março de 2004, contra o Paraguai em Assunção. O time de Gamarra e companhia havia imposto ao Brasil sua segunda derrota em eliminatórias na história três anos antes. Mas desta vez, em confronto com pouca qualidade técnica, o 0 a 0 premiou as duas equipes pelo pouco futebol apresentado.

O início da caminhada brasileira ao mundial de 2006 foi, novamente, problemático, com altos e baixos e futebol pouco convincente. Mas, aos poucos, a seleção foi assentando-se, e no final, veio a apoteose com o quadro mágico, formado por Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano, e com Robinho no banco. As atuações finais empolgaram, e os tropeços nos últimos jogos da Argentina garantiram ao Brasil o primeiro lugar nas eliminatórias. Desta vez, classificação antecipada, sem sofrimento, com apenas duas derrotas e com favoritismo em alta para o mundial da Alemanha.

2007

A palavra de ordem após o fracasso na Alemanha era renovação. E isso começou pelo técnico: o desgastado e supercriticado Parreira deixou o Brasil, e a Confederação Brasileira de Futebol anunciou Dunga, que nunca havia sido técnico de futebol desde que encerraram a sua carreira, em 1998. Com um discurso duro, adequado à insatisfação da torcida naquele momento, cobrou brios dos jogadores, e em suas palavras, aboliu a titularidade absoluta de alguns atletas. Baniu alguns medalhões que participaram da ridícula performance no mundial de 2006: Ronaldo, Gilberto Silva, Dida e Adriano, que, com exceção do ex-atleticano, até hoje, nunca mais foram convocados. Kaká e Ronaldinho Gaúcho, também vetados nas primeiras convocações de Dunga, já voltaram ao time e firmaram-se novamente como titulares.

Apostando em desconhecidos e pouco badalados na Europa, e esquecendo-se de jogadores de nível equivalente e até superior dentro do próprio Brasil, Dunga montou uma seleção bastante renovada, e talvez ainda mais contestada por críticos e profissionais ligados ao mundo da bola. Atletas como Afonso, Dudu Cearense, Vágner Love e Daniel Carvalho passaram a figurar nas listas do treinador brasileiro.

O primeiro desafio real em competição veio ainda neste ano, na Copa América jogada na Venezuela. Com um time ainda mais carente – sem Ronaldinho Gaúcho e Kaká, que pediram dispensa para conseguirem as férias que não tinham há dois anos – Dunga partiu com uma equipe desacreditada para o torneio de seleções mais antigo do mundo. E, mesmo assim, o Brasil voltou para casa com mais uma conquista, e sobre a Argentina com bela exibição na final, amenizando um pouco as cobranças sobre Dunga e a voracidade das críticas sobre os jogadores que o ex-meio campo tinha como preferência.

O Brasil estreou no domingo passado, com um empate sem gols na Colômbia, demonstrando pouco futebol e levando sufoco do adversário. Tanto que o maior destaque brasileiro da partida foi o goleiro Julio César, que impediu a derrota da seleção canarinho (que jogou de azul). Prenúncio de que, mais uma vez, as eliminatórias reservarão alguns momentos de irritação da torcida e, talvez, até alguns toques de dramaticidade. Porém, com quatro vagas para dez times, e com a possibilidade da quinta na repescagem, é tida como certa a passagem do Brasil para mais uma Copa do Mundo. Os rivais que deram trabalho nas duas edições passadas, como Paraguai e Equador, não contam com uma boa safra, e os demais também não possuem grandes seleções. A seleção já mostrou que, no continente, é competitivo, e apesar das críticas, Dunga acumula apenas três derrotas desde que assumiu o barco da seleção brasileira. Resta saber se a qualidade do espetáculo proporcionado pelos jogadores de confiança do atual comandante vai ser à altura do que o brasileiro espera e cobra.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo