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Brandão: “Ainda sonho em atuar na Seleção”

Quando chegou ao Shakhtar Donetsk, no meio de 2002, vindo do São Caetano, o atacante brasileiro Brandão poderia ser considerado um jogador que sofria com o perigo de não dar certo num mercado que ainda era pouco visado por atletas vindos do Brasil. Até porque Brandão era o primeiro brasileiro a vestir a camisa laranja do Shakhtar na história.

Hoje, Brandão pode considerar que teve êxito na condução de sua carreira. Abriu caminho para os brasileiros no Shakhtar, fez 60 gols em 129 jogos oficiais, conseguiu superar as dificuldades de adaptação e ficar por quase sete anos na Ucrânia. E, de quebra, garantiu interesse de várias equipes brasileiras, que, agora, costumam mencionar o brasileiro, vez por outra, como um possível reforço para o ataque.

No entanto, o brasileiro chegou bem ao Olympique de Marselha, onde está desde janeiro. Com 4 gols marcados em dez jogos, em entrevista concedida à Trivela, ele afirma que a adaptação à França tem sido muito mais fácil, e que uma volta ao Brasil só seria mais plausível daqui a alguns anos.

Após muitos anos na Ucrânia, quais são suas primeiras impressões sobre o futebol francês?

Por enquanto, parece ser um estilo de jogo mais técnico, além das torcidas, em geral, serem mais fanáticas que as da Ucrânia.

Tem sentido alguma dificuldade na adaptação?

Poucas, quase nenhuma. Está tranqüilo. Ao contrário da Ucrânia, onde cheguei sem saber a língua e sofri com o frio, agora estou em uma cidade praiana, Marselha, e já sei inglês. Além disso, as pessoas saem mais às ruas, e faz mais sol. Tudo isso diminui muito as dificuldades. Ainda não tive problemas na França.

Já dá para fazer uma comparação entre a estrutura do Shakhtar Donetsk e a do Olympique?

Acho que a estrutura do Shakhtar é um pouco mais luxuosa que a do Olympique, aqui é um pouco mais modesto. Mas as instalações também são muito boas.

O Olympique é conhecido por sua enorme tradição e torcida. Os torcedores são fanáticos?

Ah, sim, bastante. A torcida incentiva a equipe o tempo todo, nunca para de cantar. Eles até brincam, dizendo que “primeiro vem a igreja, e depois, o time”.

O Kléber, hoje no Cruzeiro, nos deu uma entrevista, dizendo que não considera a Ucrânia uma vitrine para despontar no futebol mundial. Você concorda com isso?

Cada um tem a sua opinião. Ele tem a opinião dele, e eu respeito. Fiquei seis anos e meio na Ucrânia, fui muito feliz, e foi jogando lá que eu ganhei visibilidade, atuando nas competições internacionais, pelo Shakhtar, e fui para o Olympique de Marselha. São situações diferentes.

Você passou quase sete anos no Shakhtar, ganhando 3 Campeonatos Ucranianos, 2 Copas da Ucrânia, 2 Supercopas da Ucrânia, além de ter sido o artilheiro do Ucraniano na temporada 2005/06, com 15 gols. Ficou algum sentimento especial pelo clube?

Ficou, sim, por todo o carinho que tiveram por mim lá, por toda a paciência que tiveram durante meu período de adaptação, por eu ter sido o primeiro brasileiro a atuar pela equipe. Tenho boas recordações lá. Fiquei feliz com minha passagem pelo Shakhtar, de ter ganho a experiência para chegar até aqui [no Olympique]. E minha saída do clube também foi na hora certa, todos entenderam. Sinto saudades, até, e pretendo continuar visitando o clube mesmo depois que eu encerrar a carreira de jogador. Até nestas partidas entre Shakhtar e Olympique, pela Copa Uefa, visitei o presidente e os amigos que ficaram lá.

Como você disse, na sua chegada, em 2002, você era o primeiro brasileiro a atuar pelo Shakhtar. Quando você saiu, já haviam outros brasileiros na equipe, como Ilsinho, Jádson, Fernandinho e William. No Shakhtar, diretoria, torcida e comissão técnica gostam dos brasileiros?

Gostam. O presidente e a torcida apreciam muito os jogadores brasileiros. Mesmo não sendo tão fanáticos como a torcida francesa, que empurra o time durante os 90 minutos, o que torna a atmosfera diferente, os ucranianos apóiam e têm carinho pelo futebol.

Como foi trabalhar com Mircea Lucescu, técnico que trabalhou com você durante toda a sua passagem pelo Shakhtar?

Aprendi muito com ele. Lucescu me deu várias oportunidades de atuar. Compreendi seu esquema de jogo, e, nos quase cinco anos em que fui treinado por ele, recebi vários conselhos para chegar a uma grande equipe. Agradeço a ele, que é um bom treinador e tem experiência no futebol internacional, por ter treinado a Internazionale e conquistado a Supercopa da Europa pelo Galatasaray.

Em sua opinião, por que o Shakhtar não conseguiu chegar longe nas Ligas dos Campeões em que participou? O grupo desse ano, por exemplo, não era tão difícil. O Sporting Lisboa se classificou à frente do Shakhtar e foi duramente derrotado nas oitavas-de-final.

Ganhamos as duas partidas contra o Basel, e conseguimos nove pontos. Mas cometemos erros que não podíamos cometer, como no jogo contra o Barcelona, em que ganhávamos de 1 a 0, em casa, e em duas falhas da zaga, eles viraram o jogo. Mas futebol é isso. Creio que houve um pouco de falta de sorte no fato do Shakhtar nunca ter ido longe na Liga dos Campeões.

Você afirmou que a estrutura do Shakhtar é luxuosa. A dimensão dos investimentos feitos no clube chega a assustar?

Acho que justifica-se. Ele [o presidente Rinat Akhmetov] é multimilionário, um dos homens mais importantes na Ucrânia, gosta da equipe e quer vê-la reconhecida mundialmente. Então, os investimentos no time são excepcionais. O centro de treinamento é de primeira qualidade, e há o estádio que está sendo construído [Donbass Arena], com um investimento de 250 milhões de dólares, que deve ficar pronto nos próximos meses.

Por falar em construção de estádios, como a Ucrânia está se preparando para sediar a Eurocopa de 2012, em parceria com a Polônia?

A preparação está sendo a todo vapor. Ouvi falar que a construção dos estádios está sendo concluída, e a estrutura de todos eles promete ser muito boa. Acho que será uma Eurocopa muito boa, o investimento da Ucrânia é na qualidade.

Você acha que, em algum momento, mereceu uma chance na Seleção Brasileira?

Bem, eu tenho o sonho de jogar pela Seleção. Desde garoto. Acho que todo brasileiro tem esse sonho, e eu não sou diferente. Estou trabalhando muito forte no Olympique, fazendo meus gols. Se Deus quiser, com as coisas acontecendo naturalmente, espero ter uma oportunidade, sim.

Durante o período no Shakhtar, chegaram a cogitar a sua naturalização, para que você atuasse na seleção da Ucrânia?

Já tive propostas, sim, para atuar pela Ucrânia. Mas não houve acordo. Preferi não me naturalizar, até pela proximidade da Copa do Mundo. E ainda tenho, como afirmei, o sonho de atuar pelo Brasil.

Você se referiu, no começo, aos problemas de adaptação enfrentados na Ucrânia. Quais foram?

Primeiramente, o frio. Depois, o fato de eu ter chegado sozinho ao país, exatamente no dia 22 de julho de 2002, sem nenhum brasileiro. Havia ainda a língua, a cultura, o povo… tudo muito diferente. Nos seis primeiros meses – e até no primeiro ano -, foi muito difícil para mim. Chorei muito, pensava até em voltar. Mas meus pais e meus irmãos sempre me deram força para continuar, e o presidente do Shakhtar teve muita paciência comigo.

Falando sobre sua passagem pelo futebol brasileiro: você saiu cedo daqui, não teve tanto sucesso como na Europa. Como foram suas passagens por Grêmio Maringá, União Bandeirante e São Caetano?

Comecei a carreira com 18 para 19 anos. Fiz um teste, tive a felicidade de passar e fui direto para os juniores. Fui campeão da categoria, em 1999, e já subi para os profissionais do Grêmio Maringá, que estava na Segunda Divisão. Marquei o gol do título que levou o Grêmio Maringá à Primeira Divisão paranaense. De lá, fui para o União Bandeirante, em 2001. E, logo, fui comprado pelo Iraty. Lá também fui bem: marquei oito gols no Brasileiro da Série C, em 2001. Depois, fui emprestado para o São Caetano, e lá mostrei um pouco mais de minhas qualidades.

Recentemente, você teve seu nome ligado a diversos clubes brasileiros, como Corinthians e Palmeiras, sendo mencionado como possível reforço. O que houve de concreto nessas sondagens e o que deu errado?

Todas essas propostas que recebi, e que foram divulgadas no Brasil, foram concretas. Mas entrei em acordo com minha mãe e meu pai, e eles preferiram que eu ficasse na Europa, além do fato de minha mãe ter vontade de morar na França, conhecer a cultura daqui. E tive essa oportunidade que surgiu com o Olympique de Marselha, que tinha interesse em meu passe. Por isso, optei em permanecer na Europa.

E você sonha, ainda, em retornar a um clube brasileiro?

Sonho, sim. Quando meu contrato aqui, que é de três anos e meio, terminar, pensarei bem, e devo voltar ao Brasil, para jogar em um grande clube.

* Colaborou Gustavo Hofman

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Equipe Trivela

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