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Betão: “Racismo não existe só na Ucrânia, no Brasil também há”

 Aos 27 anos, Betão já não é mais o garoto que surgiu como promessa no Corinthians e deixou o clube após o traumático rebaixamento. Bem mais experiente, o jogador defende desde 2008 o Dynamo Kiev, da Ucrânia. Nesse período, amadureceu, virou pai e se mostra uma pessoa muito mais consciente sobre o mundo do futebol.

Nesta entrevista concedida à Trivela, Betão falou abertamente sobre o racismo no Leste Europeu. Levantou dúvidas também sobre sua frustrada negociação com o Sochaux – “Alguém ficou sem sua parte e acabou melando a negociação” – além da saída do Parque São Jorge e a ida para o Santos. Além, é claro, do maior rival do Dynamo, o Shakhtar Donetsk.

Até quando vai seu contrato com o Dynamo Kiev? O que pensa sobre o futuro?
Meu contrato com o Dynamo vai até junho de 2013, mais dois anos. Já tive muitos planos nos três anos em que estive aqui. Tive planos de voltar ao Brasil, recebi propostas, que foram recusadas pelo Dynamo… agora estou esperando, não estou com ansiedade de nada agora. Meu contrato está correndo, e se aparecer propostas do Brasil ou de fora vou analisar com muito carinho.

Pode revelar quais foram essas propostas que você recebeu?
Botafogo e do Flamengo. Em janeiro do ano passado do Botafogo e no meio do ano o Flamengo.

E o Dynamo alegou o que para recusar? Falou com você se o valor era baixo?
Não pra mim, mas foi praticamente isso.

Acha que o Dynamo tem condições de acabar com a supremacia do Shakhtar Donetsk na próxima temporada?
O Shakhtar não teve essa supremacia só na última temporada, é um trabalho de dois, três anos que eles vêm muito bem. Dou crédito à presença de vários atletas de qualidade. Vai ser difícil, claro que vai ser muito difícil igualá-los nesse momento, mas estamos trabalhando pra isso. Inclusive, em casa, na última temporada vencemos por 3 a 0, adiamos um pouquinho a festa deles.

E o que o Dynamo precisa fazer para brigar de igual para igual com o Shakhtar? Muitos reforços?
Não sei, não tem uma chave, um segredo. Acho que é continuar trabalhando, ter mais atenção, não perder tantos pontos fora, contra equipes menores e não deixar o Shakhtar abrir tantos pontos para poder decidir o título com eles.

Como é o trabalho do técnico Yuri Semin no dia a dia?
Pessoa muito tranquila, foi o treinador que me trouxe para cá dois anos atrás. Ele teve uma saída para o Lokomotiv Moscou, mas é uma pessoa tranquila, bem calma.

Nesse período que o Semin esteve fora vocês foram comandados pelo Valery Gazzaev, que foi muito bem no CSKA Moscou, onde conquistou diversos títulos. Por que a passagem dele pelo Dynamo não deu certo?
Muito pelo jeito do trabalho dele, acho que não combinou com o clube. O que é falado aqui é isso. Ele é uma pessoa bem enérgica, passa até dos limites na energia às vezes, e isso acabou travando muitos jogadores. Alguns acabaram ficando um pouco… não sei a palavra certa, mas ficaram travados e o rendimento caiu.

O presidente Ihor Surkis costuma conversar bastante com o elenco? Como é o contato com ele?
Conosoco ele é bem tranquilo. Não aparece em todos os treinos, mas comparece em alguns. Ele só não gosta muito de ter acesso a empresários, procuradores, essas coisas assim, só o contato direto com os jogadores.

Metalist Kharkiv e Dnipro Dnipropetrovsk têm investido bastante e chegaram a ameaçar o vice-campeonato do Dynamo. Essas equipes terão condições de brigar pelo título na próxima temporada?
Vou até incluir mais uma equipe, o Karpaty Lviv. Sempre é muito complicado jogar lá. Até comento com o pessoal, que quando cheguei na Ucrânia eu achava que íamos vencer todos os jogos. Somente contra o Shakhtar e talvez com o Metalist que era mais complicado. Quando cheguei todo jogo era quatro, cinco, seis, era sempre assim. Hoje em dia você já não vê jogos sempre assim na Ucrânia, o futebol ucraniano está crescendo. Claro que não se compara aos grandes campeonatos da Europa, mas é um torneio que internamente está crescendo, os clubes estão investindo mais. Como você disse, Metalist, Dynamo, Shakhtar tem a condição financeira de comprar jogadores de fora e com isso faz com que seus jogadores sejam emprestados para equipes menores. O próximo campeonato vai ser bem forte, no meu ponto de vista o Dnipro ainda está abaixo do Metalist, mas são duas equipes que estão lutando bastante por esse terceiro posto do futebol ucraniano.

O Shakhtar aposta em brasileiros para o ataque e ucranianos para a defesa, até para se manter dentro da cota de estrangeiros. O que seus companheiros de Dynamo falam sobre isso? Gera um certo incômodo para os ucranianos?
Não. Eles têm uma mentalidade muito interessante, não sei se é do presidente ou do técnico, não sei quem teve essa ideia. A técnica do jogador brasileiro sempre faz a diferença, o futebol moleque, a ousadia, isso faz a diferença porque aqui não tem. Se você coloca atacantes brasileiros para jogar contra qualquer defesa europeia, não só ucraniana, tem 90{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} de chances de levar a melhor. Se você coloca defensor ucraniano, pelo estilo de jogo deles, mais firme, bem diferente do defensor brasileiro, ele chega firme, com um jeito diferente de jogar. Agora coloco só uma questão: de repente o jogador ucraniano que tem a cintura dura, digamos assim, acaba prejudicado. Mas o Shakhtar conseguiu esse equilíbrio, porque vem dando certo. Mas não gera incômodo não, até porque quando você vai no estádio, por exemplo do Shakhtar, os brasileiros são idolatrados. Tem fotos no estádio, são respeitados por aquilo que fazem. Isso dá mais liberdade para eles jogarem.

Mas os ucranianos não reclamam da grande presença de estrangeiros no campeonato?
Aí sim, claro, sempre tem. É natural, sempre vai ter. Eles ficam assim… quando chega uma estrangeiro ficam meio enciumados. Até porque eles sabem que, quando a pessoa está sendo comprada pelo valor que ele vem, vem para, não que vá jogar, mas o treinador já tem a mentalidade de colocar aquele jogador no time. Um pouco de ciúmes, preocupação tem sim por parte deles.

Você já está há um bom tempo na Ucrânia, como vê a situação da seleção ucraniana na atualidade? Falta renovação? O que esperar deles na Euro 2012?
Acredito que a seleção da Ucrânia tem uma boa equipe. Na última Copa eles ficaram fora por acharem que já estavam classificados quando saiu o sorteio do mata-mata. Estávamos inclusive viajando para uma partida, não lembro qual, e os ucranianos de certa maneira comemoraram o sorteio, por enfrentarem a Grécia. E no final eles acabaram morrendo pela língua. [empate em 0 a 0 na ida, na Grécia, e derrota por 1 a 0, na Ucrânia] Mas eles têm uma seleção boa, está havendo uma renovação sim. O Shevchenko começou a jogar muito novo, tem o Voronin também, o Tymoschuk, mas estão vindo novos jogadores, outros bons jogadores. Acredito que nessa Euro eles ainda não levem, mas é uma equipe que tem uma geração muito boa chegando.

Quem você destaca dessa nova geração?
Tem o Konoplianka, do Dnipro, na minha opinião um jogador que ainda vai ser muito falado. Tem o Yarmolenko também, que é nosso jogador, é um atacante, que joga aberto. Tem o Rakitskiy, zagueiro do Shakhtar Donetsk, se não for o melhor zagueiro… ele e o Chygrinskiy, a dupla de zaga do Shakhtar. São os melhores zagueiros da Ucrânia. O Chygrinskiy é um jogador jovem também, que pode entrar nessa lista.

Recentemente houve mais um episódio de racismo com o lateral brasileiro Roberto Carlos, no Anzhi. A Ucrânia é um país muito parecido com a Rússia. Como você vê essa questão na Ucrânia?
A questão do racismo na Ucrânia não é de hoje. Quem conhece a história do Leste Europeu sabe que isso vem de muitos anos atrás. Mas eu vejo da seguinte maneira: faz com que o país não cresça. Eles ficam da mesma maneira sempre, mesma mentalidade. Hoje posso dizer que há uma juventude nova chegando, que não veio da época do comunismo, tem uma mentalidade mais aberta. Daqui um tempo isso vai mudar, mas hoje ainda o preconceito é grande. Muitas vezes eles admiram, mas ainda têm preconceito. Ainda têm muito a evoluir.

E você ou seus companheiros já sofreram atos racistas?
É bom lembrar que o racismo não existe só na Ucrânia, no Brasil também há muito. Claro que em um patamar muito menor, mas também existe. Os mesmos problemas que têm aqui existem aí também, é que aqui é mais, digamos, claro. Não há um combate da sociedade. De repente se é no Brasil as pessoas se preocupam em combater, aqui não há essa preocupação. O preconceito que existe aqui não é de xingar, dizer alguma palavra. Você percebe o preconceito no olhar, no gesto, em uma atitude da pessoa. Não é um preconceito direcionado como no caso do Roberto Carlos. Até tuitei um dia desses, que de repente estou na rua, andando com um carro bom, e as pessoas olham com certa admiração… tipo, “nossa, como ele negro tem um carro desses”.

Como combater isso? As autoridades do futebol deveriam tomar alguma atitude mais drástica nesses casos com clubes?
Na minha opinião não tem que punir o clube, e sim a pessoa. De repente você pune o clube e a pessoa nunca vai parar. Se pegar o rapaz que lançou a banana, procurar pelas câmeras do estádio, puni-la, ela tem que sentir na pele. A partir do momento que você começa a punir a pessoa as coisas começam a andar um pouco mais. E é triste ver porque é um país que vai receber a Copa do Mundo. Imagina como vai ser isso aqui com islâmicos, o pessoal da Ásia. Vai ser uma guerra.

Falando sobre a sua carreira, por que não deu certo sua ida para o Sochaux?
Então… não vou poder te falar o que exatamente não deu certo, mas eu defini que foi por causa de dinheiro que alguém não recebeu. Internamente no meio da transferência. Não por parte do Corinthians, mas lá. Agente, algum olheiro, sei lá. Alguém ficou sem sua parte e acabou melando a negociação.

Faltou a famosa comissão de alguém.
É o que eu acho. Porque eu conversei com o treinador no hotel, fiz os exames, tudo antes de acontecer. O roupeiro me perguntou como eu queria a camisa no clube, o nome na camisa, enfim, essa questão de repente de dinheiro que travou. Física não era, técnica não era porque conversei com o treinador…

E não te deram satisfação?
Falei com o presidente e ele me disse que o treinador não me queria mais. Aí ficou aquele jogo de empurra-empurra, porque eu tinha falado com o treinador, que também era novo no clube. Eu estava no mesmo hotel que ele, nós conversamos, ele perguntou sobre meu estilo de jogo. Inclusive eu estava na sala esperando para falar com o presidente, e o treinador entrou antes. Depois saiu batendo o pé… então, analisando a situação, de repente o presidente disse que não ia poder continuar com a negociação e o treinador saiu batendo o pé. Ficou uma coisa meio estranha.

Na sequência você voltou para o Corinthians. Acha que deixou o clube no momento certo? Afinal, até hoje boa parte da torcida ainda lhe tem como ídolo.
Eu queria ter saído em um momento melhor. Não gostaria de ter saído após um rebaixamento. Só que o clima que estava sendo preparado em torno de mim, minha imagem estava um pouco desgastada. Então se eu permanecesse após o rebaixamento não ia ser legal. Houve uma proposta para a minha renovação, mais três anos de contrato. Até conversaram que, se não desse certo, eu poderia romper o contrato. Mas achei uma situação muito cômoda, muito fácil. Quis novos desafios e acabei saindo. Nunca me considerei um ídolo. Ídolos são Sócrates, Neto, Marcelinho, eu estou longe deles. Mas ficou feliz porque realmente muita gente tem bastante consideração por mim.

E sua passagem pelo Santos? Acha que poderia ter ficado mais tempo no clube?
Foi uma passagem que me surpreendeu muito. Não tenho como dimensionar isso. Do pessoal que foi rebaixado, acho que fui o único a sair do Corinthians e ir para um clube grande. Fui muito bem recebido por todos, minhas esposa adorou a cidade. Foi uma passagem que me deixou com muitas saudades. Sobre ter saído, não sei. Aconteceu, e foi bem legal.

Pra fechar: quando você recebeu a proposta do Dynamo Kiev, o que foi a primeira coisa que você pensou?
Quando você recebe uma proposta muito coisa vem à sua cabeça. Pensei que ia poder dar uma condição de vida melhor à minha família, ter a oportunidade de jogar uma Champions League… poxa, mas e o frio, vou ficar longe de casa, enfim, é um bombardeio de informações. Mas depois coloquei os pés no chão, fiz minha programação e fui para a Europa para dar o meu melhor, buscar uma transferência maior. Mas ao longo desses três anos as coisas vão mudando, o filho nasceu, então as coisas vão acontecendo de uma maneira muito rápida.

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Equipe Trivela

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