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Autuori: “Situação no Peru é antiga”

Com discurso embasado e princípios estipulados desde o início da carreira, Paulo Autuori é um técnico diferente dos convencionais. Mesmo sem falar o “futebolês”, tão tradicional nos vestiários, o carioca de 52 anos faz sucesso. Já ganhou títulos na maioria dos times por onde passou e é um dos treinadores mais respeitados do Brasil.

Hoje, no Al Rayyan, do Catar, Autuori comemora a estruturação que conseguiu realizar no clube do Oriente Médio. “O clube tinha um departamento de futebol bastante longe daquilo que gostaria de ver. Agora, temos condições de trabalho, os jogadores que chegaram estão rendendo, a equipe está jogando um bom futebol e está na liderança”.
Em entrevista à Trivela, ele também fala da situação política que vive o futebol do Peru, onde trabalhou por quatro anos. “Essa situação não é nova. Eu saí de lá justamente por isso. Eles pararam no tempo e foram ultrapassados até por Venezuela e Bolívia”.

O hexacampeonato do São Paulo também foi exaltado pelo técnico, que, em 2005, dirigiu o time nas conquistas da Libertadores e do Mundial. Para ele, a receita do terceiro título brasileiro seguido do tricolor paulista é muito simples. “É um grupo vitorioso somado a muita competência administrativa”.

O sonho de comandar a seleção brasileira foi o único assunto que Paulo Autuori não quis comentar. “Lá já existe um técnico, um profissional de altíssimo nível, que superou uma fase difícil quando era jogador e isso só consegue quem é forte e tem o perfil vencedor”.

Que avaliação você faz do seu trabalho no Catar até o momento?

Estou satisfeito com o trabalho que estou realizando aqui. Cheguei há um ano e pouco e o clube tinha um departamento de futebol bastante longe daquilo que gostaria de ver e eles me deram a oportunidade de reestruturar. No ano passado, com uma equipe fraca, os resultados não apareceram e, mesmo assim, me convidaram para renovar o contrato. Foi aí que eu comecei um trabalho de renovação, contratando jogadores mais jovens. Agora estou satisfeito, porque temos condições de trabalho, os jogadores que chegaram estão rendendo, a equipe está jogando um bom futebol e está na liderança.

Como é a participação da federação do Catar na contratação de jogadores para os clubes? Você é consultado sobre os reforços?

Todos os profissionais, técnicos, jogadores, comissão técnica, são contratados por conta do comitê olímpico. Lá no clube, eu indico alguns jogadores, dependendo do que está precisando, e eles aprovam ou não. Eles vão muito pelo currículo do atleta, porque querem jogadores de nome para dar uma visibilidade maior para o campeonato. Pelo menos até agora, não tive problemas. Os jogadores que eu escolhi vieram.

Uma crítica constante dos brasileiros que jogam no Catar é a falta de pressão por parte da torcida e de rivalidade entre os clubes. Você também sente isso?

Realmente falta. O ambiente é o que mexe com o futebol. Agora, é importante o profissional entender que ele tem que ser o próprio a pressionar-se. Não precisa de um ambiente como o do Brasil ou da Europa para o jogador jogar. Existe uma grande diferença entre motivação e incentivo. Motivação é uma coisa sua, que está dentro de você. E existem as situações que incentivam, como público, estrutura de trabalho, prêmio. Isso tudo ajuda a estar motivado, mas o atleta tem que ter compromisso com ele mesmo.

Você consegue visualizar um “estilo brasileiro” no futebol que se pratica por aí, em função da presença de muitos treinadores do Brasil (além de Autuori, Abel Braga, Sebastião Lazaroni e Toninho Cerezo)?

Dá para perceber sim. Nossa equipe tem, a equipe do Qatar FC tem, a do Al-Gharafa também. É aquele futebol com trabalho de bola e volume de jogo, posse de bola. Mas tem outros treinadores aqui que são sérvios, franceses, entre outros, que jogam um futebol diferente.

Você recomenda para um jogador de primeira linha do futebol brasileiro se transferir para o Oriente Médio?

Eu, particularmente, acho que cada um sabe as prioridades que tem na vida, sabendo que o ideal é muito difícil de alcançar. Então você tem que abrir mão de algumas coisas para pegar outras. Assim é a vida. Aqui, paga-se bem, tem boa estrutura de campos, boa condição de treinos, não precisa viajar, as concentrações são poucas e dá pra passar bastante tempo com a família, coisa que não se pode no Brasil e na Europa. Isso tudo dá uma boa qualidade de vida, mas, é aquele negócio, não te dá visibilidade.

O futebol peruano atravessa uma grave crise, com a seleção muito mal nas eliminatórias e a federação suspensa pela Fifa. Você trabalhou por um bom tempo no país. Como eram essas questões na sua época?

Essa situação não é nova. Eu saí de lá justamente por isso. Nós estávamos disputando as eliminatórias, com resultados normais. O objetivo inicial era chegar em quinto para disputar a repescagem. Nós estávamos em sexto lugar, a um ponto do quinto e a dois do quarto. Eu o considero um dos melhores trabalhos que eu fiz. Por causa dos problemas do governo com a federação, começaram a surgir rumores de que eu seria convocado a depor sobre a situação. Eu falei para eles que tinha ido para lá trabalhar com futebol e não para me envolver com política. Se eu fosse chamado, eu iria embora. E isso realmente aconteceu. Eu fui chamado para ir ao congresso para falar sobre a federação. Saí de lá, fiz uma reunião com o presidente Manuel Burga e pedi demissão. E isso [a divergência entre federação e governo nacional] se arrastou até agora.

O Peru tem jogadores de destaque na parte ofensiva, mas, defensivamente, é muito fraco. Por que isso acontece?

A primeira coisa é porque o campeonato interno precisa elevar muito o nível competitivo, já que é muito fraco. Outra coisa, é que eles ainda vivem naquele tempo do Cubillas, do Leon, da Copa de 70 com o Didi e da Copa de 82 com o Tim. Só que, depois, não conseguiram mais nada. É um futebol que tem qualidade de jogo, plasticidade, mas, defensivamente, é fraco. Eles precisam ter a humildade de entender que tem de começar um projeto do zero, que não adianta voltar a 1970 ou 1982. Eles pararam no tempo e foram ultrapassados até por Venezuela e Bolívia.

Aqui no Brasil, seu nome é sempre lembrado quando algum time busca um novo técnico. De fato, houve algum convite mais recentemente?

Existiram várias propostas. Não só de clubes do Brasil, mas também de seleções aqui do mundo árabe e da Ásia. Eu encaro com naturalidade, mas trabalho com prioridades e não acho que agora seja o momento.

Você também é bastante lembrado quando o assunto é Seleção Brasileira. Gostaria de dirigir a Seleção?

Eu me recuso a falar de Seleção, porque lá já existe um técnico, um profissional de altíssimo nível, que superou uma fase difícil quando era jogador e isso só consegue quem é forte e tem o perfil vencedor. Eu quero hoje que o Dunga reverta essa situação e que faça uma ótima Copa do Mundo. Desejo toda a felicidade para ele.

Sua última passagem pelo futebol brasileiro acabou quando você dirigia o Cruzeiro e foi goleado na final do campeonato estadual pelo Atlético Mineiro. Na sua saída, você disse que nunca mais trabalharia com aquele grupo. O que realmente aconteceu?

Foi um problema interno. Hoje, estou onde me sinto bem e sei que as coisas, independente de resultados, estão sendo feitas como tem que ser feitas em termos profissionais. Naquela altura, ocorreram situações que, depois daquele jogo, eu tinha que tomar uma posição, porque minha maneira de ser não me deixava continuar. Há um limite invisível entre a persistência e a teimosia. Meu problema ali foi conceitual. Eu não discuto com pessoas, discuto conceitos. É um clube espetacular, que dá todas as condições possíveis de trabalho, por isso, os profissionais que lá estão, têm de se dedicar

Mesmo estando no Catar, você acompanha diretamente o campeonato brasileiro?

Eu acompanho futebol de todos os países. Eu sou um homem do futebol e tenho que estar minimamente antenado sobre o que está acontecendo. Senão acontece de eu sair daqui e ir para outro lugar e, como técnico, não se pode perder tempo. Mesmo em uma realidade que você nunca viveu, você tem que estar pronto.

O técnico não pode parar no tempo.

Não só o técnico, mas os clubes também. Um exemplo é o Internacional, que ficou muito tempo sem ganhar títulos e nem por isso se descuidou da infraestrutura. Faz um trabalho espetacular nas categorias de base e mantém uma estrutura maravilhosa. Quando ganhou títulos, já tinha tudo preparado para dar continuidade. Quantos times conseguiram ganhar títulos, mas o passo seguinte foi difícil por que não se estruturaram? Os clubes do Rio de Janeiro só começaram a entender isso agora. Por muito tempo, eles viveram da vitrine que eram os times de lá. Hoje, vemos Botafogo e Vasco com grandes dificuldades financeiras.

Sua passagem pelo São Paulo marcou, de certa forma, o início de uma fase vitoriosa no clube. Você acredita que tenha deixado um legado para esse clube?

Não. Não tem nada a ver. Foi um orgulho muito grande trabalhar em um clube do porte do São Paulo. Eu acho que fiz o meu trabalho de acordo com aquilo que me ofereceram. Entra de novo naquela história da estrutura. O São Paulo dá tudo que um profissional precisa para pensar exclusivamente em trabalhar. Acho que é um grupo formidável, com o Muricy fazendo um excelente trabalho. Nada acontece por acaso. Tudo isso que está acontecendo com o São Paulo tem a ver com a maneira que ele é administrado.

Você acha que pode acontecer no campeonato brasileiro o mesmo que acontece na França e na Alemanha, por exemplo, onde poucos times monopolizam o campeonato nacional?

De jeito nenhum. Não há a menor chance. É só ver o campeonato deste ano como foi. A disputa pelo título foi até última rodada. Desde que começou a ser disputado em pontos corridos, em 2003, ele só vem crescendo. Fala-se muito que ele está nivelado por baixo, mas eu não acho. Não vamos esquecer que o futebol brasileiro sempre exporta muitos jogadores quando abre a janela de transferências da Europa, e, assim, se armam e se desarmam dentro do mesmo campeonato. O campeonato deste ano foi cheio de emoção nas quatro frentes: título, libertadores, sul-americana e rebaixamento. Nenhum campeonato do mundo tem a quantidade de equipes, que, ao começar a competição, são consideradas candidatas ao título. E isso é muito bom.

Onde que você acha que o São Paulo ganhou o campeonato deste ano?

É um grupo vitorioso somado a muita competência administrativa. Tiveram uma fase difícil, pelo menos até um pouco mais da metade do ano, mas [os dirigentes] entenderam o belíssimo trabalho que o Muricy vem fazendo e perceberam que não era hora de mudar nada. Com isso, a resposta foi dada dentro de campo e culminou com o título.

Você voltaria a dirigir o São Paulo?

Eu sou avesso a esse tipo de situação. Eu sou um cara muito focado no que faço, porque não existe futuro sem o que é feito no presente. Na minha carreira profissional, a única preocupação que tive foi fazer bem feito o que eu estou fazendo. Eu não projeto situações. Eu tenho que provar todos os dias, para mim mesmo, que estou preparado para qualquer desafio. A minha luta para ser o melhor profissional não é contra ninguém, é contra mim mesmo.

Desde que o Danilo saiu, o time do São Paulo não contratou nenhum outro armador de jogadas e, hoje, depende muito da subida dos alas e do apoio dos volantes. Você acha que essa é uma tendência no futebol brasileiro?

Aí que dá para notar o grande trabalho do Muricy. O ideal é ter esse “camisa 10”, mas, se não tem, precisa encontrar mecanismos para não perder a efetividade. Eu continuo achando muito importante um jogador com essa característica. Uma equipe com qualidade, madura, que sabe o que tem de fazer dentro de campo necessita desse jogador, que é quem dá o ritmo ao time. Na minha ótica, o grande problema do futebol brasileiro é a falta de meias, que sempre foram nossa característica. Isso acontece porque, lá na base, se vê equipes trabalhando no 3-5-2. Aí não forma nem laterais e nem meias.

Pensa em voltar para o futebol brasileiro ou quer permanecer mais tempo no Oriente Médio?

Eu tenho contrato e estou muito satisfeito aqui. Eles me tratam muito bem, me dão o que eu quero, prestam muita atenção no que eu falo. Mas é claro que eu tenho sinalizado o mercado. Para mim, só o trabalho de técnico – escalar equipe, colocar para jogar, ser campeão – não me satisfaz tanto. Eu tenho vontade de uma coisa mais abrangente, parecido com o trabalho que estou fazendo aqui. E essa área está começando a abrir no Brasil também, um trabalho de manager. Mas não quero mexer com grana. Quero trabalhar com a filosofia do futebol, integrando categorias de base. Acho que esse é o futuro.

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Equipe Trivela

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