Ari: “Foi tudo muito rápido”

Sua história é uma daquelas que nos faz pensar como algumas pessoas podem ser capazes de prejudicar tanto alguém. Ainda adolescente, Ari foi abandonado por seu empresário e ficou meses sem jogar. Morava em Fortaleza e acabara de ser pai. Passou a jogar na várzea, para juntar algum dinheiro e “colocar leite em casa”, como ele mesmo conta.
Entre essa época e agora passaram-se apenas oito anos, e nesse período ele foi contratado pelo Kalmar, da Suécia, foi artilheiro do Campeonato Sueco, passou pelo AZ, onde foi campeão holandês e agora está na Rússia, onde defende o Spartak Moscou.
Nesta entrevista concedida à Trivela, Ari, desconhecido para a maioria dos torcedores brasileiros, relata essa experiência de vida e o atual momento, de olho na participação do Spartak na Liga dos Campeões.
Por conta da sua experiência anterior na Suécia e na Holanda, a adaptação à Rússia foi mais fácil?
Sempre temos o que aprender, mas a adaptação em Moscou foi rápida por conta disso, mas também pelos meus companheiros brasileiros no Spartak Moscou. Eles foram fundamentais. Se não fosse por eles acho que demoraria um pouco mais.
Se você tivesse ido direto do Brasil para o Spartak, seria mais complicado?
Com certeza, ia levar mais tempo.
Mas como foi sua adaptação ao Kalmar, no futebol sueco?
Lá foi um pouco diferente… Pelo menos havia dois brasileiros no elenco, que me ajudaram bastante, mas a adaptação foi mais difícil por causa do frio e estilo de jogo do campeonato, muita força e correria. Mas depois de uns dois ou três meses eu já estava adaptado. Foi um grande aprendizado para mim, meu primeiro passo na Europa.
E a transferência para o AZ? Te pegou de surpresa?
Apesar de o futebol sueco não ser tão visto, eu fiquei com um pouco de temor. Não sabia o que ia encontrar lá, mas felizmente, quando cheguei, me receberam muito bem. E aí foi tudo muito rápido.
Como foi o começo de carreira no Fortaleza?
No Fortaleza foi complicado. Cheguei emprestado pelo Avaí e joguei a Copa São Paulo de Juniores. Na sequência, o time profissional precisava completar o elenco e chamaram alguns jogadores do sub-20. Fui nessa leva, para jogar o Cearense. O Dorival Júnior era o técnico nessa época já. Então assinei um contrato com o clube. Foi onde tudo começou.
Como aconteceu sua ida para o Kalmar?
Alguns empresários foram ver um jogador no Fortaleza e acharam o meu estilo de jogo bom para a Europa. Daí trouxeram o técnico da Suécia para me ver e ele aprovou a contratação.
E o que você conhecia do seu novo país?
Não conhecia nada da Suécia. Só que o futebol de lá era muito baseado na força e que era um país frio. Mas o que me tranquilizou foi saber que havia dois brasileiros no time.
Você nasceu em Fortaleza, mas passou pelo futebol catarinense na juventude. Como foi parar lá?
Joguei também na base do Ceará e cheguei a manter a forma no Uniclinic. Disputei a segunda divisão pelo Calouros do Ar, um time lá da periferia da cidade. Um dia fui levado por um empresário para o Criciúma e treinei por um tempo lá. Em 2003 o Avaí quis me contratar, era o Lula Pereira o técnico, e o empresário tinha muito contato com ele. Então eu fui emprestado, porque tinha contrato com o Calouros do Ar. Viajei para lá e tive que voltar um dia para dar baixa na carteira de trabalho. Foi quando esse empresário sumiu. Como eu não tinha o contato de ninguém no Avaí, fiquei sem nada. Eu estava apenas com 16 anos e fiquei seis meses sem jogar por causa disso. Foi quando surgiu a oportunidade de ir para o Fortaleza, que aí acertou com o avaí meu empréstimo e eu ganhei um contrato.
Ou seja, você chegou a ser registrado pelo Avaí sem mesmo saber. Com toda essa confusão, chegou a pensar em parar de jogar?
Foi complicado, porque eu via vários jogadores se acabando na bebida, porque os times cearenses não davam espaço para os talentos locais. Mas eu tinha acabado de ser pai, com 16 anos, e precisava colocar dinheiro em casa. Então comecei a jogar na Várzea, ganhar algum trocado nesses jogos. Felizmente surgiu a chance de jogar no Fortaleza, e então passei a ganhar uma ajuda de custo. Mas meu sonho sempre foi ser jogador de futebol, então nunca desisti.
Tudo isso aconteceu há apenas oito anos. Como fica sua cabeça com toda essa mudança de vida?
Entre minha ida para a Suécia, a passagem para a Holanda e a chegada na Rússia foi tudo muito rápido. Fui artilheiro no Kalmar e no ano seguinte fui vendido para o AZ. Fui artilheiro do time na minha primeira temporada no futebol holandês e na seguinte fomos campeões. Então veio a negociação com o Spartak. Fico feliz por alcançar meus objetivos, é isso que busco.
E quais as expectativas do Spartak Moscou para esta temporada, já que há também a disputa da Liga dos Campeões?
Alcançar o primeiro lugar no Campeonato Russo está complicado, pelo bom momento do Zenit. Mas a expectativa é grande para a Liga dos Campeões, chegaram alguns reforços e o time está melhorando muito. A torcida cobra muito que cheguemos com motivação no torneio, e por isso queremos disputar logo.


