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“Aqui existem muitos problemas”

Responsável pelo duro desafio de tentar classificar o modesto Malawi para a Copa das Nações da África 2008, o técnico inglês Stephen Constantine (foto ao lado) falou à Trivela sobre a realidade de treinar uma seleção africana sem expressão. Aos 45 anos, o treinador de origem cipriota acumulou 5 derrotas e 1 empate desde fevereiro quando assumiu o comando dos ‘Flames’, que ficaram em última lugar no Grupo 12 das Eliminatórias para o principal torneio de seleções do continente.

O ex-técnico da seleção da Índia também nos fez uma revelação no final deste bate-papo. “Eu já trabalhei em quatro continentes e a América é onde eu adoraria trabalhar em algum ponto, quem sabe o Brasil!”.

Confira outros temas discutidos nesta entrevista no texto abaixo!

Porquê você gosta de trabalhar em lugares exóticos e sem expressão como Nepal, Chipre e Malawi, por exemplo?
No futebol você nem sempre consegue escolher onde você quer trabalhar. Eu tenho sorte de estar sempre trabalhando nos últimos anos e como profissional é importante você estar em atividade, sendo que às vezes você consegue trabalhos em lugares distantes e afastados.

Mas acho que você não chamaria o Millwall de exótico! (risos).
Claro que não! (gargalhadas)…

Qual a realidade do futebol do Malawi, atualmente?
Malawi tem muitos problemas. Existe muita coisa para melhorar. Eu posso dizer que nada melhorou em termos de desenvolvimento nos últimos 15 anos ou mais.

Sobre a Liga Nacional de futebol. Quais são suas impressões?
Não foge a regra. Muitos problemas com organização, infra-estrutura e times amadores. Também existe pouca ou nenhuma administração nos clubes. Adicione a isso, a falta de facilidades e equipamentos e ai você já imagina como é…

Você pretende continuar na África ajudando a desenvolver o futebol no Malawi ou quer sair na primeira oportunidade?
Eu sempre acho que como profissional você pega as opções que estão abertas e se existir uma boa oferta em cima da mesa, eu vou ter o prazer de sentar e observá-la.

A Associação de futebol do Malawi expressa que quer desenvolver e retornar o jogo bonito do passado através do projeto GOAL, da FIFA. Conte-nos sobre este plano..
São dois projetos GOAL aqui. Eu penso que é importante para o Malawi, mas eles precisam fazer muito mais em termos de manutenção e, claro, usando essas facilidades para desenvolver o futebol aqui.

Há alguns anos houveram muitos problemas com torcidas ai no Malawi. É difícil ouvir falar em violência entre torcidas na África. Como anda a situação?
Eu não vi nada desde que cheguei. Mas já escutei pessoas aqui falarem que esses problemas aconteceram no passado.

Sobre as Eliminatórias para Copa das Nações Africanas 2008. Qual é o grande problema para Malawi jogar contra outras nações no continente?
A falta de alcance. Nós temos alguns bons jogadores aqui, mas não existe uma quantidade suficiente deles jogando em alto nível. Então, quando você perde um jogador, é um problema gigantesco, porque não temos outro para repor a altura. Novamente tem relação com o fato de não terem desenvolvido nada nos últimos anos.

Malawi precisa nitidamente de mais jogadores atuando na Europa?
Absolutamente! Eu tenho dois jogadores atuando lá, enquanto as outras seleções africanas tem muito mais.

Um deles é o atacante Esau Kanyenda, goleador da liga nacional há alguns anos e atualmente jogando na Rússia. É a estrela da equipe?
Ele é um jogador de qualidade e um bom profissional. Tem sido um prazer trabalhar com ele, que é um rapaz muito humilde. ‘Top Class!’.

Você fez um excelente trabalho para o futebol indiano, sendo o treinador de maior sucesso por lá nas últimas décadas. Porque você os deixou?
Eu deixei a Índia por alguns motivos. Primeiramente eu senti que já tinha feito muito e já era tempo de mudar de ares após três anos por lá. Eu também tinha algumas ofertas da Europa e decidi que seria uma boa mudança na minha carreira e ai acertei com o Millwall, um clube que eu até joguei algumas partidas nos juniores na minha juventude (risos).

Com uma população estimada em mais de 1 bilhão de pessoas e o futebol entrando com força total no país nos últimos anos, você considera a Índia uma séria candidata a futura sensação do futebol asiático nas próximas décadas?
Apesar da publicidade a quantidade de pessoas é ilusória. O futebol não é jogado em todos os estados. Existem 26 estados e o desenvolvimento está apenas começando a acontecer. Eu não acho que a Índia será uma potência futebolística. Mas conhecendo bem os indianos, eles serão, no mínimo, uma força na Ásia.

E como foi desenvolver o futebol nas camadas de base do país?
Como treinador eu sempre tentei desenvolver bem as coisas. Na Índia eu trabalhei com todas as seleções. Eu penso que se os jogadores jovens verem você dar a eles o incentivo para trabalhar duro sabendo que você é o técnico da seleção do país, eles farão o mesmo no clube.

Qual a maior lembrança que você guarda da sua passagem pela Índia?
Vencer a LG Cup foi um grande momento para o futebol indiano porque não se ganhava nada há 42 anos! O troféu Ian Rush (torneio juniores), na Inglaterra, também foi importante, batemos o Botafogo por 3 a 0 na final! Além dos troféus, é um grande prazer ver jogadores atravessando etapas de desenvolvimento. Atualmente existem 14 jogadores na seleção indiana que trabalharam comigo. Como treinador isso é um prazer imenso.

No sudeste da Ásia, qual país tem mais possibilidades para desenvolver e se tornar uma boa seleção no futuro?
Essa é uma dura questão. Acho que a Índia será o time a ser derrotado naquela região. Malásia, Tailândia, Indonésia e Cingapura são equipes muito duras de se enfrentar também.

Você teve uma passagem pelo Nepal: existe condições mínimas para desenvolver algo no futebol deles?
O Nepal é um lugar incrível e as pessoas são fantásticas. Eu desejo sempre o melhor para eles. É um país pobre e as coisas melhorarão por lá num processo lento.

Sobre sua passagem pelo Millwall. Como é a atmosfera de um jogo da England Division One?
Não existe nada nesse mundo que é igual em termos de excitação e atmosfera. Eu não sei se nós (ingleses) jogamos o melhor futebol do mundo. Mas tenho certeza que é o mais excitante. Você nunca sabe quem será derrotado e os torcedores apóiam sempre a equipe independente da situação. Eu estou aberto para ofertas e eu gostaria de voltar a trabalhar na Inglaterra

Qual sua visão sobre o futebol brasileiro?
Bem, eu realmente não sei muito. Eu assisti poucos jogos na TV e a habilidade técnica é excelente como todos sabem. Entretanto, o fato de apenas três dos 23 jogadores que foram a última Copa, em 2006, estarem jogando no Brasil é algo para ser pensado. Isso acarretará em muitas mudanças no jogo da seleção brasileira no futuro…

O que planeja para o futuro?
Eu gostaria de continuar trabalhando como treinador. Eu já trabalhei em quatro continentes e a América é um continente onde eu adoraria trabalhar em algum ponto, quem sabe o Brasil! Eu estou fazendo o que mais gosto e para trabalhar com futebol eu iria para lua se fosse preciso!

Ficha

Nome: Stephen Philip Constantine
Data de Nascimento: 16/10/1962

Clubes:
1992/3: Apollon Limassol-CHP
1993/4: Apollon Limassol-CHP
1994/5: Achilleas-CHP
1995/6: Apep-CHP
1996/7: AEL-CHP (juniores)
1997/8: AEL-CHP (juniores)
1998/9: Apep-CHP 1999:
Seleção do Nepal 2000: Seleção do Nepal
2001: Seleção do Nepal
2001/2: Bournemouth-ING
2002: Seleção da Índia
2003: Seleção da Índia
2004: Seleção da Índia
2005: Seleção da Índia
2005/6: Millwall-ING
2007: Seleção do Malawi

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Equipe Trivela

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