Anton Hysen: “A reação dos torcedores não tem sido tão legal”

Por Vanessa Ruiz
A satisfação demonstrada por Anton Hysen ao dar mais uma entrevista sobre o tema homossexualismo demonstra, novamente, sua segurança para tratar o assunto. Jogador mediano da quarta divisão sueca, onde defende o Utsiktens, Hysen ganhou fama mundial ao assumir ser homossexual em março.
Na equipe é treinado pelo pai, Glenn Hysen, zagueiro da seleção sueca nos anos 1980 e com boas passagens por Fiorentina e Liverpool. Anton seguiu os passos defensivos da família. Aos 20 anos, chegou a defender a seleção sueca sub-17 – apesar de ter nascido em Liverpool – e assinou contrato com o Häcken, da primeira divisão. Problemas com lesão, porém, complicaram sua carreira.
Nesta entrevista concedida à Trivela, Anton Hysen falou abertamente sobre sua decisão e ainda comentou o preconceito existente no futebol.
Como tem sido a repercussão do seu caso, o que você tem sentido?
Da parte da minha família, dos meus amigos, tem sido muito positiva. Eu sou assim: nunca achei que tinha nada a esconder, isso é o que eu sou, estou muito confortável. A verdade é que eu sempre fui muito aberto desde cedo. Eu sei que a reação dos torcedores dos outros times não tem sido tão legal, mas isso é coisa de gente insegura. Eu simplesmente ignoro.
E os jogadores dos outros times?
É curioso porque eu não tenho ouvido provocações e, sim, recebido conselhos. Muitos vêm e me dizem para não me preocupar com o que estão falando, para seguir firme no futebol.
No Brasil, há registro de casos de jogadores reconhecidamente gays que são ou foram orientados pelos próprios clubes a não assumirem publicamente a orientação sexual. Como você vê essa situação?
Deve ser horrível. É muito triste ter que viver assim, escondido. No passado, havia um problema muito grande com a questão da cor de pele. Por favor, estamos em 2011! Temos que começar a pensar no ser humano. É triste, de certa forma, que haja um burburinho tão grande pelo simples fato de uma pessoa ser gay.
Daria algum conselho?
Honestamente, não sei qual é a situação destas pessoas e como funciona de fato a cultura brasileira. É a pessoa que tem que saber se está pronta para assumir. Apesar de eu sempre ter tido todo o apoio, eu sei que não é um processo fácil. Eu me sinto muito forte, nunca duvidei da minha capacidade de bancar minha orientação. No fundo, essas são os únicos pontos que importam. E, é claro, o suporte da família.
Quais são as dificuldades que é preciso enfrentar?
São principalmente as reações de torcedores e de chefes, mas são apenas opiniões, basta ignorá-las.
E como foi na sua turma de amigos?
Por incrível que pareça, não sou muito atuante na “cena gay”. Meus amigos são todos heterossexuais e gostam muito de futebol, assim como eu. Os únicos amigos gays que eu tenho são duas garotas lésbicas. O fato de eu ser gay não diminui meu gosto por futebol, obviamente. É meu principal assunto.
Você é tão jovem e soa muito maduro ao falar sobre o homossexualismo no futebol.
É, eu tenho 20 anos. Creio que a cultura do povo sueco ajuda, é um dos países mais tranquilos do mundo em relação a estas questões. O povo é muito bem educado e tende a adotar uma postura neutra. Nós aprendemos e ensinamos que todas as pessoas têm o direito à vida, a viver bem e em paz. Não somos muito religiosos, fazemos nossas próprias escolhas, mas sempre tendo esta ideia em mente.
Em 2007, seu pai discursou no Stockholm Pride, maior festival gay da Suécia. E citou a homofobia no esporte. Ele já se referia a você?
Meu pai sempre soube que eu era gay e ele estava, sim, se referindo a mim. Foi ótimo! Foi um sinal de que ele estava ao meu lado.
Mas em 2001 ele atacou um homossexual que o agarrou em um banheiro do aeroporto de Frankfurt (ALE). Não parece contraditório?
O que eu acho é o seguinte: ninguém gosta de ter uma pessoa que você nunca viu na vida pegando em você, tocando seu corpo de um jeito pouco comum. Creio que muitas pessoas agiriam como meu pai, independentemente do sexo das pessoas envolvidas.
É fácil perceber a sua empolgação ao falar sobre o tema. Você sente que tem uma missão nessa história?
Sim, sempre tive a mente muito aberta e me comunico muito bem. Por isso, creio que é uma oportunidade de alcançar as pessoas, de fazê-las refletir. Acho que eu sou o único jogador de futebol em atividade a ter assumido a homossexualidade [em 2010, a revista ESPN publicou uma entrevista com o goleiro Messi, do Palmeira-RN, que também assumiu publicamente a orientação].
Não incomoda ser procurado mais para falar sobre o homossexualismo do que sobre futebol?
Não, é ótimo que estejamos discutindo isso agora. No entanto, é claro que espero que o foco retorne ao futebol com o passar do tempo.
Falando sobre futebol, então, você gostaria de jogar no Liverpool como fez seu pai?
Sem dúvida! Mas a verdade é que eu não sou tão bom quanto os jogadores que estão lá.


