Ambição uzbeque

Quando o Kuruvchi, do Uzbequistão, mudou seu nome para Bunyodkor no ano passado, o defensor da equipe, Sergey Lushan, estava abandonando o clube de Tashkent e a carreira. Hoje, ele é um dos olheiros do clube ao lado do ex-goleiro Oleg Belyakov. Ambos jogaram na seleção uzbeque e atualmente acompanham torneios de jovens pelo país.
Neste contato, Lushan aceitou conceder uma entrevista por email (em inglês) aonde nos conta sobre a febre que o futebol tem se tornado no território uzbeque, as boas previsões para o futuro, as impressões que teve de Rivaldo e Zico, e seus anos jogando no futebol russo.
Como analisa o progresso do futebol uzbeque nos últimos anos?
Bom, eu diria que foi o interesse dos empresários daqui, porque antes o futebol uzbeque era muito pobre; salários baixos, poucos patrocinadores, mas agora com os empreendedores temos todas as atenções viradas para o futebol, e ainda mais com Rivaldo aqui! O objetivo é trazer cada vez mais estrangeiros. A liga uzbeque agora é uma das mais ricas e tem atraído a atenção do público uzbeque e asiático.
A população uzbeque é muito jovem, um terço tem menos de 14 anos e o futebol vive uma ebulição aí. A margem de progressão é uma das mais promissoras da Ásia. Você acredita que o país está perto de se tornar uma potência continental, algo que muitos acreditavam que Índia e China conseguiriam antes?
Eu acredito muito que preparando nossas crianças e jovens podemos nos tornar uma potência. Aqui, de cada dez escolas, sete tem futebol, que é um esporte que tem se tornado uma febre. Antes, poucos sabiam as regras, hoje você nem precisa pedir as crianças, elas te contam tudo sobre as regras. Esperamos continuar assim e talvez conseguir em breve disputar uma Copa do Mundo, que é a expectativa de todos.
Antes da aparição meteórica do Kuruvchi, atual Bunyodkor, a grande força do futebol uzbeque era o Pakhtakor, que ganhou seis ligas consecutivas nesta década. Como tem sido essa “nova rivalidade” Bunyodkor versus Pakhtakor?
Quando não existia o Bunyodkor, eles eram o clube mais conhecido, mas não por todos. Sempre ganhavam títulos aqui e 95{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} da população torcia para o Pakhtakor, mas com a fundação do Bunyodkor muita coisa tem mudado. Principalmente com as contratações de Rivaldo, Luizão e Villanueva, que despertaram as atenções para o Bunyodkor, que agora tem ganhado muitos torcedores. Eu diria que isso me agrada muito porque é um clube que veio do nada e de um país novo como o nosso, isso é sensacional. Esse dérbi tem se tornado uma grande rivalidade para nós, assim como no Uzbequistão temos uma eterna rivalidade com o Cazaquistão. A FIFA tirou os cazaques da Ásia e os colocou na Europa para evitar conflitos entre nós. Mas entre os clubes aqui do Uzbequistão algumas vezes temos brigas e confusões, eu não posso negar, mas os policiais apartam e nunca houve nada sério. Mas entre Bunyodkor e Pakhtakor, quando um ganha as pessoas falam do assunto até a próxima partida entre eles, mas ainda bem que até agora só deu Bunyodkor…
No Brasil Rivaldo era bastante contestado pela imprensa, mas o povo sempre o apreciou. É um jogador simples, que falava pouco e suas performances no Barcelona eram impressionantes, o povo se identificava com a simplicidade dele.
Sim, aqui no Uzbequistão eu diria que é uma honra ter um jogador como ele, que já foi eleito o melhor do mundo. Nós adoramos Rivaldo por seu futebol e pela pessoa que é. Ele é muito querido aqui e o presidente da Federação deveria providenciar uma oferta para naturalizá-lo (risos). Nós apreciamos ter Rivaldo aqui, mas também o Luizão é uma pessoa muito boa, além do chileno Villanueva e os dois brasileiros que chegaram recentemente (Edson Ratinho e João Vitor). Rivaldo é sempre muito atencioso com todos, apesar de não falar nossa língua, será sempre lembrado por nós. Todos os uzbeques precisam aproveitar para conversar com ele, mesmo que através de gestos, pedir autógrafos e tirar fotos, porque chegará o dia em que ele nos deixará assim como aconteceu com o Zico. Quando isso acontecer, todo o Uzbequistão ficará muito triste, mas agradecido por ele ter vindo aqui.
Rivaldo tem falado muito bem dos jogadores uzbeques e segundo ele o meia-atacante Server Djeparov, bola de ouro na Ásia em 2008, teria condições de jogar na Europa. Isso sem falar do Matsim Shatskikh, um bom centroavante que chamou a atenção de muita gente na primeira passagem pelo Dynamo de Kiev, da Ucrânia.
Shatskikh é o nosso Ronaldo, ele sempre será o mais querido e temos orgulho dele. Já o Djeparov é um bom jogador, mas que ainda não alcançou nem as chuteiras do Shatskikh. Ambos são excelentes e isso é bom para o nosso futebol.
Os treinadores uzbeques também tem sido bastante apreciados em nível asiático. Existem muitas diferenças entre os principais, Rauf Anileev e Mirjalol Kasimov?
Existem, ambos são treinadores sensacionais, sempre tem um plano tático para impressionar o oponente. Eu gosto da forma com que eles conduzem as situações. Mas para ser honesto com você, eu e os uzbeques gostamos mesmo é do Zico. Ele ficou pouco tempo aqui treinando o Bunyodkor no ano passado. Quando foi noticiado que ele sairia, todos nós ficamos muito tristes e esperamos que um dia ele volte…
Você jogou no futebol russo durante muitos anos. Como você viu o desenvolvimento da liga ao longo do tempo que esteve lá?
Foi uma grande experiência porque qualquer um apreciaria jogar num país como a Rússia, que tem um futebol mais forte do que a nossa região. A cada ano o futebol russo tem crescido e desenvolvido mais com novos padrões salariais, novos patrocinadores etc. Frequentemente é um campeonato equilibrado com o campeão sendo definido nas últimas rodadas, mas o segundo e o terceiro colocado tem pequenas vantagens. O que tem atraído a atenção é a presença de bons estrangeiros na liga e isso é uma coisa que até pouco tempo atrás era impossível ter. Por exemplo, Vagner Love, do CSKA, é um deles. Mas infelizmente ainda tem alguns defeitos como o racismo, que é uma coisa que alguns ainda não entendem e que a federação russa está tentando mudar. É um grande país com grandes clubes e bons jogadores que não podem aceitar isso. Mas acima de tudo, eu penso que a liga russa tem se tornado mais forte a cada ano que passa.
O que você sabe sobre o Brasil?
Seria o mesmo se eu te perguntasse o que você sabe sobre o Uzbequistão (risos). Eu conheço pouco; carnaval, samba, Rio de Janeiro, futebol, grandes jogadores, enfim, um dia espero visitar o Brasil, que para mim é o melhor país do mundo para se viver. Aí tem excelentes lugares como o Rio de Janeiro, que tem praias incríveis, uma coisa que nós não temos (risos). Eu espero que o Uzbequistão consiga se classificar para a Copa de 2014 e eu poderei visitar esse maravilhoso país.


