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Ajuda do exterior

É extremamente natural que o futebol brasileiro tenha se desenvolvido com alguma ajuda de gente vinda do exterior. Quando nada, porque vários dos pioneiros da prática do esporte no país tinham um parente direto vindo do exterior. Casos clássicos são os de Charles Miller e Oscar Cox, filhos de ingleses com brasileiras. Nos primeiros tempos dos grandes clubes brasileiros, aliás, também não eram raros atletas com ascendência em outros países. Mais casos conhecidos: o de Bianco Spartaco Gambini, descendente de italianos que, talvez, foi o grande personagem dos primeiros anos do Palmeiras, ou dos representantes da família Fantoni (Ninão, Nininho, Niginho e Orlando), que fizeram fama no Palestra Itália mineiro – isto é, no Cruzeiro.

Entretanto, todos os supracitados tinham alguma coisa em comum: apesar de terem suas raízes em outro país, todos eram nascidos no Brasil. Faltava o intercâmbio com gente nascida em outro país. Coisa que começou a ocorrer, com maior freqüência, após o advento do profissionalismo no futebol brasileiro, em 1933. E é sobre isto que este texto falará: como foi a história de jogadores estrangeiros no Brasil. A importância que tiveram na história de seus clubes, a habilidade que mostraram (ou que não mostraram), as lembranças que deixaram nos torcedores, boas ou ruins…

Colegas influentes

Os primeiros investimentos existentes no futebol brasileiro se direcionavam na contratação de atletas argentinos e/ou uruguaios, vindos das, então, duas grandes forças do futebol sul-americano. Principalmente nos grandes clubes do Rio de Janeiro, pioneiros na contratação dos atletas.

E, na maioria das vezes, os jogadores ficavam marcados na história de seus clubes. Como o argentino Ramón Rafagnelli, que veio do River Plate para o Vasco da Gama – e fez parte do “Expresso da Vitória” campeão do Sul-Americano de 1948. Ou, antes ainda, outro argentino, Agustín Valido, autor do gol da conquista do disputado Campeonato Carioca de 1944, que garantiu o tricampeonato ao rubro-negro. Ou, então, falando do Botafogo, Oscar Basso, que veio para jogar pouco mais de 20 partidas, fazendo, com Nilton Santos, uma dupla de zaga considerada por muitos a melhor da história do clube de General Severiano.

Mais ou menos na mesma década de 1940, os grandes paulistas também decidiram começar a abrir caminho para os oriundos dos países à beira do Rio da Prata. O Palmeiras, por exemplo, conseguiu o título paulista de 1942 contando com o uruguaio Segundo Villadoniga como um dos principais jogadores da equipe. Entretanto, seria no São Paulo que uruguaios e argentinos encontrariam porto mais seguro e exitoso. Principalmente os argentinos: em 1943, chegou ao Tricolor Antonio Sastre, que, junto de Leônidas da Silva, foi um dos principais jogadores do time que venceu os paulistas de 1943, 1945 e 1946. E, em 1949, foi a vez da vinda de José Poy, que chegava para ficar 13 anos, ganhar quatro Campeonatos Paulistas e virar um dos maiores goleiros da história do Tricolor.

Depois, a continuação do fluxo de sul-americanos rumo a clubes brasileiros ganharia outro impulso na década de 1960. Começaria com o Santos, que traria o já veterano (tinha 32 anos) José Manuel Ramos Delgado, em 1967. Vinda que daria muito certo, já que Ramos Delgado marcou época no clube da Vila Belmiro. A partir de então, voltariam os investimentos. Que, graças a um mundo e a um futebol brasileiro cada vez mais desenvolvido, começaram a respingar em outros clubes – e em jogadores de outros países.

Por exemplo, no Atlético Mineiro, que virou destinatário para vários uruguaios, como Cincunegui, que fez parte do time campeão brasileiro de 1971, e Ladislao Mazurkiewicz – além do goleiro argentino Ortiz. Ou no Internacional, que gastou pesado para tirar do Peñarol o chileno Elias Figueroa – o que se revelou gasto dos mais acertados, já que o nativo de Valparaíso virou um dos símbolos de uma década de ouro para o Colorado. Ou até no Bahia, onde José Sanfilippo chegou, já veterano, após passar pelo Bangu, e teve sua importância, ganhando dois títulos baianos.

No Palmeiras, havia o argentino Norberto Madurga, útil no começo da Segunda Academia, ao conquistar Paulista e Brasileiro em 1972. No Flamengo, veio o paraguaio Francisco Reyes, de passagem tão fugaz quanto memorável pela Gávea. E o São Paulo teve, no uruguaio Pedro Rocha, uma de suas principais figuras na década de 1970, quando “El Verdugo” conduziu o time do Morumbi a dois títulos paulistas, mostrando sempre muita classe. Sem contar o argentino Narciso Horacio Doval, que fez sucesso tanto no Flamengo como no Fluminense bicampeão carioca em 1975/76. E até personagens pitorescos, como Heber Revetría, que passou apenas dois anos no Cruzeiro – mas foi responsável por vários gols decisivos, na final do Campeonato Mineiro de 1977.

Sim, houveram também os fracassos. Como Hector Veira, argentino que não disse a que veio, nem em Palmeiras, nem em Corinthians – onde também fracassou o uruguaio Martín Taborda. Mas foram em menor número. E os sucessos continuariam na década de 1980, personificados num trio uruguaio: desembarcado no São Paulo em 1977, Darío Pereyra explodiu, tornando-se um lendário zagueiro no Morumbi. Mesmo caso de Hugo de León, que foi um verdadeiro comandante do Grêmio em campo, numa fase em que o clube gaúcho conquistou a Copa Libertadores e o Mundial Interclubes. E Daniel González era garantia de segurança, na época da Democracia Corintiana. Mas, no fim da década, um país trouxe uma novidade estranha: era o Equador de Hoger Abraham Quiñónez, campeão brasileiro de 1989 com o Vasco.

Os anos 1990 trouxeram mais um país cujos jogadores eram atraídos para o Brasil: a Colômbia, que rendeu o sucesso de Freddy Rincón. O Paraguai trouxe Carlos Gamarra, que explodiu no Internacional e no Corinthians – e a dupla Francisco Arce e Catalino Rivarola, com bastante sucesso no Grêmio (no Palmeiras, somente Arce deu certo). Da Sérvia, veio Dejan Petkovic, que começou fazendo sucesso no Vitória – sucesso que seria consolidado no Flamengo. E, finalmente, Juan Pablo Sorín encontrou no Cruzeiro a chance que precisava para reconstruir sua carreira.

Se o começo da década atual mostrou fracassos como o colombiano Alex Viveros, e êxitos medianos, como o de Faustino Asprilla, houve um grande sucesso: o de Carlos Tevez, que passou um ano provocando amor e ódio, no Corinthians.

No entanto, nem só de sucessos viveram os estrangeiros no Brasil. Houve fracassos homéricos, como Marco Osio no Palmeiras, Villamayor e Mark Frank Williams no Corinthians, Sierra no São Paulo, Kanapkis no Atlético Mineiro, Kiese no Grêmio… e mesmo estrangeiros que deram certo fracassaram em outros times, como Hugo de León, em suas passagens por Corinthians e Santos, ou Rincón no Cruzeiro. E houve as passagens tão somente curiosas, como as de Maezono e Richard Baez no Santos, Cobi Jones no Vasco, Aragonés no Palmeiras…

Hoje em dia, a lista também é longa: Bobadilla no Corinthians, Pablo Armero no Palmeiras, Breitner no Santos, Petkovic (ainda), Maldonado, e Fierro no Flamengo, Darío Conca e Valencia no Fluminense, Loco Abreu e Herrera no Botafogo, Irrazábal no Vasco, Abbondanzieri, Bruno Silva, Sorondo, Guiñazú e D'Alessandro no Internacional… enfim, a história, já longa, continua.

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Equipe Trivela

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