“Aí no Brasil também acontece”

Trazido ao CSKA Moscou pelo treinador brasileiro Zico no final de agosto, o atacante Guilherme, que deixara o Dynamo Kiev, mal teve tempo de trabalhar ao lado do conterrâneo, que foi demitido em setembro. Em seu lugar, o espanhol Juande Ramos foi contratado, mas também não teve sorte: caiu após apenas seis semanas no cargo.
Em entrevista à Trivela, o ex-cruzeirense comentou a queda dos treinadores, a mudança da Ucrânia para a Rússia, e as expectativas e objetivos do CSKA na temporada – como uma chance de classificação para as oitavas de final da Liga dos Campeões. Além da experiência no Leste Europeu, o jogador falou de sua passagem pelo Brasil e do sonho de chegar um dia à Seleção Brasileira
Que vantagem você vê na troca Dynamo Kiev pelo CSKA?
A principal vantagem é que, aqui, fui contratado para jogar na minha posição de origem, ou seja, atacante. Sou utilizado na frente e com o objetivo de ajudar a equipe a fazer gols. Esse era o meu desejo e, por isso, achei interessante esta troca de clubes, pois jogo como atacante e foi nessa posição que me destaquei no Cruzeiro. Em relação à estrutura das equipes, ambas são bem estruturadas e não gostaria de fazer comparações. O que posso dizer é que estou muito feliz aqui no CSKA.
Quais as diferenças entre os dois clubes? A rotina de treinos é igual? E em relação ao Brasil?
Cada clube tem suas características. O Dynamo é uma grande equipe e fui muito bem recepcionado na Ucrânia. Mas não posso deixar de ressaltar a grandeza do CSKA e a sua relevância no cenário europeu. Todos conhecem tanto o CSKA Moscou quanto o Dynamo Kiev nas competições europeias. São equipes vitoriosas em seus campeonatos locais e possuem títulos internacionais também. Em relação à rotina de treinos, isso varia de acordo com a comissão técnica. Agora, claro que existe uma diferença dos treinamentos no Brasil. Aqui, até por conta do clima e do estilo de jogo diferente, os horários e a intensidade dos trabalhos mudam um pouco. Mas isto não quer dizer que aí no nosso país é melhor ou que aqui deixa a desejar. Em ambos, tudo é feito com muito profissionalismo e com o objetivo de conquistar campeonatos. Isso é o mais importante.
O que aconteceu internamente para que o Zico caísse?
Sinceramente, eu não sei responder esta pergunta. A única coisa que posso falar é que cheguei ao clube através do Zico, pois foi ele quem pediu a minha contratação. Não tive muito tempo de trabalho com ele e nem estava adaptado ao clube para saber o que realmente aconteceu. Infelizmente ele saiu, mas agora temos que continuar trabalhando e buscando os resultados positivos para o CSKA. Não gosto muito de me envolver nestas questões administrativas, pois fui contratado para jogar futebol e fazer gols. Seja quem for o treinador ou até o presidente, tenho que procurar fazer a minha função, que é balançar as redes.
Por que Juande Ramos foi demitido depois de apenas seis semanas? Deu tempo pra ele se entrosar com a equipe e mostrar seu trabalho?
O Juande Ramos realmente é um bom treinador e com bagagem internacional. Já treinou grandes equipes e conquistou vários títulos. Pelo que foi divulgado, o que houve foi uma cobrança por resultados e, pelo visto, a diretoria não achou que isto estava acontecendo. Então, decidiram trocá-lo. Acho que não podemos dimensionar muito isto, pois aí no Brasil também acontece e nunca é o fim do mundo. O que temos que fazer é seguir trabalhando e buscar os nossos principais objetivos na temporada, que são a classificação para as oitavas de final da Liga dos Campeões e terminar entre os primeiros do Campeonato Russo.
O clube focava mais no título nacional, ou na campanha europeia?
O CSKA é um clube vencedor e já mostrou isto nos últimos anos. Por isso, a equipe prioriza sempre as conquistas. Não existe uma competição em especial. O que percebo aqui é que o objetivo é sempre ser o melhor da Rússia. Por isso, quanto mais conquistas melhor. Agora, claro que a Liga dos Campeões é tratada com mais carinho e tem um peso no cotidiano da equipe. Mas priorizar um ou outro não acontece.
Como está a situação atual? Já deu para sentir como o novo treinador, Leonid Slutsky, trabalha?
Ainda não. Ele tem pouco tempo de trabalho, mas com certeza é um profissional competente. Ele veio para nos ajudar e mostrou uma mentalidade vencedora, pois na semana passada já conseguiu um grande resultado para nós, que foi o empate por 3×3 contra o Manchester, na Inglaterra. Podíamos ter vencido, mas tivemos o azar de tomar dois gols nos acréscimos. Ele nos deixou vivos na Liga dos Campeões e tenho confiança que podemos fazer história no clube e que conseguiremos avançar de fase. Só dependemos de nós para isto.
Quais as expectativas para a Liga dos Campeões, agora que já passaram quatro jogos? Porque o Wolfsburg era o favorito para a segunda vaga, mas tropeçou algumas vezes. Pode ser a chance do CSKA classificar ao lado do Manchester?
Acredito que sim. O nosso time tem competência suficiente para avançar até as oitavas de final. Isso ficou claro após o jogo contra o Manchester, nesta semana. Se Deus quiser, voltarei rapidamente à equipe e poderei ajudar o CSKA nas partidas contra o Wolfsburg e o Besiktas. Temos consciência de nossas capacidades e que, se vencermos estes dois jogos duríssimos, temos grandes chances de classificação. Eu realmente aposto no nosso time.
Que lembranças você traz do Cruzeiro?
Só coisas boas. Tenho o orgulho de ter sido revelado pelo Cruzeiro e de, em tão pouco tempo como profissional no clube (dois anos), ter conquistado o carinho da torcida. Além disso, consegui me tornar o maior artilheiro da equipe na era dos Pontos corridos (28 gols) e, claro, ter dado alegria a todos nos jogos contra o Atlético, nosso maior rival. Em oito clássicos, vencemos seis e só perdemos um. Por tudo isto, sou um torcedor cruzeirense apaixonado e sempre acompanho o clube, mesmo de longe. Um dia vestirei esta camisa novamente.
Não acha que poderia ter mais chance de ir à Copa se tivesse ficado no Cruzeiro, já que jogadores de destaque por aqui foram convocados (caso do Diego Tardelli e do Adriano)?
Não vejo desta forma, sinceramente. Acredito que o Leste Europeu é uma boa oportunidade de ser convocado. Tivemos vários exemplos e, muitos deles, aqui no próprio CSKA. Acho que o Dunga olha por todos da mesma maneira e que uma convocação para a seleção vem por conta do próprio trabalho de cada um. A única coisa que me prejudicou foi o fato de não ter uma sequência como atacante no Dynamo, apesar de ter feito muitos gols pelo clube. Em 2009, na minha opinião, estou fazendo uma boa temporada e vim para a Rússia para buscar um destaque ainda maior. Estou tranquilo e consciente do que tenho feito. Sei que ainda colherei os frutos de tudo isto. Busco sempre melhorar a cada dia e fazer o meu melhor. Acho que isso é o mais importante. Os louros da carreira virão por consequência.


