Adriel: Futebol no gelo
Fruto das escolinhas de Roberto Dinamite, ex-goleador vascaíno, o meia-atacante Adriel Gabilan, de apenas 19 anos, bateu um longo papo com a Trivela, contando seu início de carreira, no qual, num espaço de alguns meses, passou das peladas no condomínio onde morava, no Rio de Janeiro, aos treinos do Linfield, da Irlanda do Norte, onde jogou e ouviu conselhos de Glenn Ferguson, um dos maiores jogadores irlandeses das últimas décadas.
Antes disso, sua primeira parada foi na gélida Finlândia, para vestir a camisa do Warkaus. Empolgado e com um grau de adaptação acima da média para um jovem de sua idade, Adriel contou aspectos surpreendentes do futebol na Finlândia e na Irlanda do Norte, onde atualmente defende o modesto Shorts FC. Em breve, o brasileiro deverá retornar ao Warkaus, que quer contar com seus serviços novamente. Confira a entrevista abaixo e descubram-no!
Como você foi parar na Escandinávia, com apenas 17 anos?
Eu conheci algumas pessoas que tinham contato com gente ligada ao futebol de lá. Tive propostas do Viborg, da Dinamarca, do Vasalund, da Suécia, e doWarkaus, da Finlândia, onde eu escolhi jogar porque eles me pagaram a metade antes de viajar e a outra metade quando cheguei lá. Eu sabia que ia ser dureza encarar o frio, a saudade, mas estava decidido a ir. No Warkaus, eu pensei que ia encontrar uma estrutura de Real Madrid, mas era minha inocência, a realidade é bem diferente. O Warkaus foi fundado em 2000 e disputa a Segundona na Finlândia. O profissionalismo esta longe. Em maio, retorno pra lá.
Quais as principais dificuldades em se jogar futebol no frio rigoroso?
A dificuldade surge pela falta de hábito.Quando não se está acostumado, é bem difícil, mas com o tempo passa a ser normal. Eu saí do Rio com um calor de 38 graus e em três dias eu estava disputando um amistoso com -15 graus, e isso foi bem assustador.Durante o aquecimento, eu sentia minha respiração bem forte. Quando eu entrei no jogo e dei um pique, o ar faltava, o vento ‘queimava’ minha pele, meu nariz e minha boca ficaram sem sensibilidade e eu não sentia meu nariz sangrar e escorrer. Em 20 minutos em campo, a bola parecia pesar uns 2 quilos, e meu pé congelou. Acabou o jogo, e os massagistas tiveram que aquecer meu pé, pois ele estava ficando roxo. Com o tempo, meu corpo se acostumou, em um mês eu já treinava de short com -10, -5 graus. Eu percebi, depois de oito meses, que -20 ou +5 graus me davam a mesma sensação térmica.
Você jogou pelo Warkaus, da segunda divisão finlandesa. Pelo que observou, existe algum fator técnico, físico ou tático nos quais os jogadores locais se destacam ou é um futebol muito fraco?
Depende. Alguns jogos são interessantes pela luta, a raça que eles têm, mas essa característica ofusca a técnica, o que deixa o jogo feio, para os padrões brasileiros. A disposição deles é muito boa e, dependendo da partida, dá pra ver alguma técnica, mas também tem jogo na Finlândia que até dá sono. Eles se defendem muito, e a marcação implacável deles é mais forte que a técnica que eles têm. Eles têm potencial pra aprender, o que falta é treino. Como no Brasil nós priorizamos a técnica, obviamente, os treinamentos nesse fundamento são mais desenvolvidos que na Finlândia. Os poucos que sabem jogar com a bola no pé têm boa técnica, e, com o físico, poderiam ser um bom volante no Brasil, por exemplo. Meia é dificil, pois a criatividade e habilidade ainda falta, tanto que quem se destaca são os estrangeiros – Popovitch, veterano russo do Haka, Adi, brasileiro do TPS, o Farid, argelino do HJK, e o André, do Warkaus, entre outros… Os centroavantes aqui são altos, fortes e cabeceiam muito bem.
E na Irlanda do Norte?
Na Irlanda, os jogos têm mais técnica, é um pouco melhor, mas também é muito pegado, não tanto como na Finlândia, mas o ritmo é forte também. Malícia com a bola, assim como na Finlândia, é dificil de ver.
Acha que o trabalho de base é bem feito e no futuro aparecerão bons jogadores?
O trabalho não é bem feito, poderia ter mais investimento, incentivo. O esporte número 1 lá é o hóquei no gelo, então é normal a garotada sair de casa carregando um taco, não um bola. Poucos clubes têm estrutura para realizar um bom trabalho, como o Mypa e o HJK. A meu ver, um dos problemas é o inverno, pois em outubro pára tudo até maio, e pouquíssimos clubes têm um campo coberto, artificial, que possa continuar o trabalho. Para investir, é um risco muito grande, pois as chances de retorno são poucas, o público ainda não é apaixonado por futebol. Mesmo assim, surgiram alguns garotos bons nestes últimos anos, e, como o futebol está crescendo, é provável que daqui a um tempo o trabalho de base seja mais desenvolvido.
O que você observou dos dirigentes de futebol na Finlandia? Existem escândalos e falcatruas como no resto do mundo?
No futebol daqui eu nunca ouvi falar!
O que é, para os finlandeses, Jari Litmanen, ex-ídolo do Ajax e maior talento produzido pelo país?
O Litmanen tem o respeito de todos, é um ícone nacional, um herói. Foi o primeiro jogador do futebol finlandês a fazer sucesso internacional. Ele mostrou que na Finlândia também tem futebol. Depois da era dele, vieram o Hyypia, o Forssel e o Jaaskelainen, mas eles não se comparam ao Litmanen, nos tempos de Ajax, Barcelona. Ele é o cara lá!
Como vivem os jovens da sua idade, na Finlândia?
Eu não conheço todas as cidades da Finlândia, então não posso generalizar. O que eu vi foram muitos jovens inteligentes, dedicados, tímidos, fechados, tristes e que bebem muito. O alcoolismo é o responsável pelo maior número de incidentes violentos lá. Me parece que a garotada bebe muito para esquecer os problemas, principalmente a solidão. No meu clube, quando os jogadores mais jovens saem pra balada, eles bebem muito. Quando nos encontramos, é só alegria, eles abraçam, pulam, cantam, mas no dia seguinte no vestiário não dão nem bom dia. A educação é ótima, a economia, o sistema de saúde e transporte também. Por isso, às vezes eu fico chateado porque mesmo assim eu vejo eles reclamando da vida por razões mínimas, bebendo, cometendo suicídio. O relacionamento entre garoto e garota é muito diferente, os finlandeses são muito frios. Alguns são bem estúpidos, pois eles necessitam de alguma forma chamar atenção, e acabam fazendo isso pelo lado negativo, bebendo muito, cometendo vandalismo, brigando, dirigindo em alta velocidade e causam muitos acidentes dessa forma. Existem jovens super simpáticos, alegres, mas a maioria me pareceu tímida e triste.
Tanto na Copa de 1958, na Suécia, quanto no Mundial sub-17, na Finlândia, em 2003, divulgou-se que os jogadores das seleções estrangeiras faziam muito sucesso com as mulheres. As garotas escandinavas gostam mesmo dos gringos?
Acho que sim, principalmente brasileiro, elas adoram! A mulherada perde a linha (risos). Eu só vi isso durante três semanas, antes de eu ficar com minha mulher (Emma). Os parceiros que estão em Helsinki, onde a noite é agitada, não querem nem sair de lá (risos). Realmente, elas têm conosco o que é dificil de um escandinavo ter, pois eles não são extrovertidos, carinhosos, alegres.
A vida na Irlanda do Norte é melhor ou prefere viver na Finlândia?
Aqui na Irlanda do Norte, eu moro na capital, Belfast, que tem aproximadamente 1 milhão de habitantes. Na Finlândia, eu vivia numa cidade de 24 mil habitantes, onde a vida não é corrida, a violência é quase nula, o trânsito é tranqüilo, sistemas públicos estão entre os melhores do mundo. Em Belfast, é correria, estresse, muita chuva, insegurança, trânsito louco, muita ‘muvuca’ pra mim. É a cidade em que o dinheiro circula, a economia é forte, mas eu não gosto! Prefiro ficar lá na minha vida sossegada, simples, com minha mulher, família, meu clube humilde (Warkaus), mas bem estruturado, sem estresse. Lá, eu sou muito feliz, fui muito bem recebido por todos, me sinto à vontade, porque eu não quis impor o “jeitinho brasileiro” e sim me adaptar a eles, à cultura deles, nunca briguei com ninguém, é a cidade que me adotou e da qual eu sou muito honrado de ser cidadão. Nós brasileiros sempre temos aquele lance de querer sempre que os os outros se adaptem a nós, mesmo que em um país que não é o nosso. Quem fizer diferente vai ver o resultado.
Quanto tempo você treinou no Linfield, que é a principal equipe do futebol irlandês, com 46 títulos nacionais? Gostou do nivel técnico dos caras?
No pouco tempo que eu fiquei lá, eu vi alguns bons jogadores. Foram poucos meses. O Ferguson, que é uma lenda viva, 37 anos, ainda estava em atividade, com cerca de 500 gols na carreira. Thompson, rápido, técnico, finalizador, teria vaga em muito time do Brasil. O Gault, que é um volante muito bom, marca muito e também organiza várias jogadas de ataque, é habilidoso e inteligente. O Thomas Stewart, meia armador, habilidoso e inteligente também, e o Mannus, o goleiro que se destaca, alto, forte e ágil, o cara dá segurança ao time. Esses que eu citei, na minha opinião, são os que mais se destacam no time. De uma forma geral é um time bom, pois em cada setor do campo tem um cara que se destaca.
No Linfield, você treinou com ídolos do futebol irlandês, como Glenn Ferguson e Peter Thompson. O que você extraiu de valioso no convívio diário com esses ‘figurões’ do futebol daí?
O Ferguson é um grande jogador e ótima pessoa fora de campo também. Passei muito tempo conversando com ele. Ele sempre me elogiava e me mostrava onde eu poderia melhorar. O cara com 37 anos, aos 40 do segundo tempo, mandou uma bicicleta perfeita numa partida, daquelas de vídeo-game. Isso, mais o número de gols, a raça, faz ele ser um jogador diferenciado. Mesmo com a fama dele aqui, é uma pessoa muito humilde. O Peter (Thompson), é uma cara nota 10 também, meu parceiro, sempre me dava carona depois dos treinos, conversávamos muito também e descobri que ele se amarra no Flamengo! (risos) O cara é a sensação aqui, é provável que logo ele vá para Escócia ou Inglaterra, o caminho normal pra quem se destaca aqui. Ele joga na seleção, onde 99% dos jogadores não atuam aqui na Irlanda do Norte. Ele é artilheiro do Linfield, tem carisma, não será difícil se transferir.
Acha que o campeonato da Irlanda do Norte é mais duro que o da a Finlândia?
Não. Aqui só tem três times na disputa pelo título: o Linfield, o Glentoran e um correndo por fora. Já na Finlândia, é mais disputado – tem HJK, MyPa, Tampere, TPS, Lahti, etc. Por exemplo, na temporada passada, o Linfield ganhou o sexto título seguido, enquanto na Finlândia a Veikkausliiga foi disputada até a última rodada. A diferença do campeão, Tampere United, para o quinto colocado foi de 15 pontos; já na Irlanda do Norte, só a diferença do campeão, Linfield, para o segundo colocado, o Glentoran, foi de 12 pontos – para o quinto, foram 28 pontos de diferença.
Como é a realidade no Shorts FC, seu atual clube?
Não é muito boa! (risos) Eu sei que há tempos o clube era bom, tradicional, mas com o tempo entrou em decadência. O orgulho do time é ter revelado vários jogadores que hoje fazem sucesso no Linfield, no Glentoram, etc. Hoje em dia, eles jogam a terceira divisão, e estão afundando. O amadorismo tomou conta. A sede do clube tem um pub, então é sagrado depois de treino ou jogo o pessoal começar a bebedeira. Eles têm estrutura, mas falta profissionalismo.
Economicamente, está satisfeito por jogar na Escandinávia e na Irlanda do Norte?
Sim. Mas eu não saí da casa dos meus pais para ganhar ‘rios de dinheiro’. Eu queria outras coisas, queria tranqüilidade, estabilidade, segurança, e aqui eu achei tudo o que eu queria. O futebol, em um ano e meio, não me deixou milionário, mas me abriu várias portas. Já estou falando três idiomas e estou me aperfeiçoando no finlandês e no alemão. Pelo calendário da liga, vai dar para eu fazer a minha faculdade, em um dos melhores sistemas de educação do mundo. Estou com minha vida encaminhada, com minha mulher. Quando voltar para a Finlândia, em maio, vou poder comprar meu próprio imóvel, não tenho do que reclamar. Minha família pôde me proporcionar oportunidades de ter uma vida boa, sem sair de perto deles, mas eu quis fazer diferente, sem acomodação, eu quis desafios e não me arrependo. Agradeço todos os dias por Deus ter me abençoado tanto em minha vida.
O que você notou de mais interessante nos jogadores na Finlândia e na Irlanda do Norte, em termos de comportamento? Tem alguma coisa ‘estranha’ que você tenha observado nos treinos?
Na Finlândia, se eles rezaram, eu não entendi, mas também não lembro de ter visto. Na Irlanda tem a divisão católico x protestante, eles são mais religiosos. O que me chama atenção é a quantidade de jogadores que bebem e fumam. Outra coisa é o respeito na Finlândia. Ao final de todos os jogos, se faz um circulo no centro do campo e os jogadores perdedores aplaudem o vencedor. Achei impressionante! Um fato interessante é que o técnico do WJK (da Finlândia), na temporada passada, quando se demitiu, estava negociando com um time de uma cidade vizinha, mas eles não se acertaram porque o Matti (treinador) queria montar uma equipe só de vegetarianos, ele não queria nenhum jogador comendo carne, pois ele defendia a tese que o tempo de recuperação é maior quando se ingere carne.
Se tivesse que repetir todo o percurso que você fez até chegar onde está, você faria tudo de novo?
Eu não mudaria nada! Todas as dificuldades foram importantes, me fizeram crescer como homem e como jogador. Eu vi que o dinheiro e a fama vão embora fácil, mas conhecimento vai ficar com você pra sempre, ninguem te tira. Pra mim, a vida é uma busca intensa pela felicidade, e eu descobri que status e fama não trazem felicidade, trazem ilusões. Eu não tenho limites com a minha gratidão a Deus por tudo que aconteceu na minha vida.


