Sem categoria

“Acho que tenho tudo para dar certo na Europa”

Os aplausos ouvidos no triunfo do Vitória de Guimarães sobre o Belenenses confirmaram a boa fase que vive o lateral esquerdo Bruno Teles no futebol português, e, mais precisamente, no clube minhoto. De um lado, o jogador, que chegou ao país em fevereiro, começava a encontrar seu espaço em Portugal. Do outro, os vimarinenses, que passaram boa parte da Liga Sagres improvisando Andrezinho na ala esquerda, parecem, enfim, ter achado alguém do ramo para a posição. Tanto que já pretendem renovar por mais uma temporada o vínculo com o brasileiro.

Revelado pelo Grêmio e promovido por Mano Menezes em 2006, o lateral conviveu com lesões que, aos poucos, afastaram-no da titularidade no Tricolor Gaúcho, e não conseguiu se firmar nos demais clubes que defendeu, dando o azar, inclusive, de ser rebaixado, em duas oportunidades: com a Portuguesa, em 2008, para a Série B, e com o Juventude, em 2009, à Série C. Em Portugal, porém, dá sinais de ter reencontrado o futebol que motivou Mano a lançá-lo logo em um Gre-Nal, e já conquistou a torcida.

Em conversa com a Trivela, Bruno Teles — que, aliás, aniversaria neste sábado, 1º de maio —, falou sobre seu momento na Europa; a rivalidade minhota entre Guimarães e Braga, que ganhou mais conhecimento devido à bela campanha dos bracarenses na temporada; as expectativas da classificação vimarinense à Liga Europa; o trabalho de Paulo Sérgio, treinador do Vitória e que, na próxima época, comandará o Sporting; e, claro, Copa do Mundo, revelando o temor dos portugueses quanto à seleção.

O que pode falar desses primeiros meses em Portugal? Como foi a adaptação, o primeiro contato com o futebol europeu…

Olha, cara, a adaptação no país foi bem tranquila. Encontrei com vários brasileiros por aqui, e isso facilita muito também. Há alguns jogadores com quem, inclusive, joguei no Brasil: o Renan (ex-Sport) e o Douglas (ex-Grêmio). O pessoal todo me acolheu muito bem. Vim sozinho por enquanto, mas estou até um pouco acostumado, afinal, desde os 13 anos vivo na correria com o futebol. Em relação ao campo, ao jeito de jogar, estou me adaptando. O jogo aqui é mais rápido, tem uma disciplina tática maior.

Por que você acredita não ter conseguido se firmar no Grêmio e nos demais times por onde passou?

Acho que no Grêmio eu estava perto de me afirmar. Tive uma sequência quando subi com o Mano Menezes, joguei algumas partidas na Libertadores e no Brasileiro, mas tive uma lesão longa, de ligamento cruzado (NR.: no joelho direito), e isso atrapalhou bastante. Quando voltei, já era outra filosofia de trabalho. Tinha que recuperar meu ritmo, e acabei não tendo muitas chances. E depois, preferi tentar seguir meu caminho em outro clube. Fui emprestado para a Portuguesa, ao Sport… E aí são coisas do futebol, você dá certo em um lado e não dá em outro. Mas graças a Deus estou feliz aqui. O estilo de jogo agrada, valoriza bem o trabalho físico e a disciplina tática, aquela coisa da linha de quatro. Acho que tenho tudo para dar certo aqui na Europa.

Após a vitória por 2 a 0 sobre o Belenenses, você voltou a sair aplaudido pela torcida, e deve ter seu contrato renovado. O que avalia estar sendo importante para essa boa fase?

Sou uma pessoa que busca se empenhar bastante nos treinos, seguir o que o treinador pede. Procuro estar sempre atento ao que o professor e mesmo os outros atletas falam. E o pessoal têm me ajudado bastante, conversando bastante. Desde que cheguei, mesmo não jogando no começo, me ajudaram com a adaptação. E aí, quando nosso lateral (Andrezinho) foi expulso, no clássico contra o Braga (3 a 2 para os arsenalistas), tive a chance entre os titulares no jogo seguinte, o pessoal gostou e consegui permanecer no onze.

Aliás, pelo que você pode ver, qual a reação de jogadores do Belenenses e do estádio, após o jogo que decretou a queda do time do Restelo?

Ah, é triste ver esses momentos, especialmente porque é um clube tradicional por aqui. Mas pelo que acompanhei, é um time que já vinha numa decrescente há uns dois, três anos, e uma hora isso iria estourar. A gente viu no semblante dos jogadores aquele sentimento de tristeza e revolta. Mas são coisas do futebol, uns tem que vencer, outros não. O que se espera é que eles trabalhem para voltar rapidamente, pois (o Belenenses) é realmente um grande clube por aqui.

Quando você chegou, qual era o cenário no clube? Havia alguma espécie de pressão, até pela campanha que fazia o rival Braga, então líder do campeonato?

Botaram pressão sim, porque o Vitória é considerado por aqui o quarto clube de tradição em Portugal, só atrás de Sporting, Benfica e Porto. É uma torcida apaixonada, que sempre comparece no estádio. E quando se viu o rival na ponta da tabela, o pessoal passou a querer algo a mais, pelo menos uma classificação para a Europa. De repente, as coisas também começaram a melhorar por aqui, subimos para a quinta posição e o Braga também ficou mais distante do título, né? Mais um empate e o Benfica já ganha.

E por falar no Braga, aliás, qual é a repercussão que a campanha bracarense teve na mídia local?

Ah, o pessoal ficou bem surpreso. E com uma equipe que não tem tanta tradição indo tão bem, acabou havendo uma valorização geral, de treinador a jogador. E é o que está acontecendo. O treinador (Domingos Paciência) se valorizou, tem até a especulação de que ia assumir uma grande equipe na próxima época. Os jogadores também já estão especulados para ir embora. Mas acho que isso acontece aqui e em qualquer lugar do mundo, né?

A torcida do Vitória está “secando” o Braga para essa reta final? Ou há algum tipo de apoio ao co-irmão, por assim dizer?

Tá secando até o último ponto! (risos) Todo jogo eles secam. A rivalidade é muito grande por aqui. Não sei se como um Gre-Nal, mas é uma rivalidade muito boa. E é bem assim mesmo: eles torcem contra nós e nós contra eles. Aqui o pessoal está torcendo muito para o Benfica matar o campeonato logo, e se a gente também se classificar para a Liga Europa, a torcida vai ficar muito feliz.

Falando nisso, como foi, na sua visão, o último clássico entre Braga e Guimarães, que teve bastante polêmica, com várias expulsões e pênaltis?

Eu lembro que foram expulsos, se não me engano, três jogadores nossos. Fomos muito prejudicados pela arbitragem. As expulsões foram por reclamação, mas não tinha como não reclamar. Foram três pênaltis para eles, e os três não existiram! Então, foram três pontos que nós perdemos ali, e que hoje nos deixariam classificados (para a Liga Europa), brigando pelo quarto lugar. Não adianta reclamar agora, já passou. Mas todos aqui ficaram muito revoltados, os jogadores, a diretoria, a comissão técnica. Senti, no jogo, um clima muito pesado mesmo. Mas é bom sentir esse clima também, só aumenta a vontade de jogar.

O Guimarães está bem perto da vaga na próxima Liga Europa. Como estão o clima e a expectativa, suas e do elenco, pelo momento?

Bom, só depende da gente. A situação é confortável, mas a gente não pode deixar a bola cair. Temos um jogo difícil fora, contra o Rio Ave, mas temos condições de ir lá e ganhar, garantir esses três pontos e, tomara, jogar na última semana já tranquilos e classificados. Estamos bem focados para isso.

Jogadores como Nuno Assis e Andrezinho são tidos como principais jogadores dos vimarinenses na temporada. Quem mais você destaca?

Olha, temos dois zagueiros brasileiros muito bons, o Gustavo e Valdomiro. O Gustavo já é até sondado para clubes grandes daqui de Portugal, e o Valdomiro chegou há pouco e já marcou três gols, o que, para um zagueiro, é uma média boa. Tem também o Desmarets, francês meia-atacante canhoto bom e com muita moral. Há, como você disse, o próprio Nuno Assis, ex-Benfica e que o pessoal têm cogitado para jogar a Copa do Mundo. Outro com moral é o nosso goleiro, o Nilson.

Há um clima de “desmanche” no ar, ou a base já se encaminha para ser mantida?

Alguns jogadores estão em fim de contrato, e esses inevitavelmente vão sair. E sempre em fim de temporada, há essa dúvida, se vai ter gente que vai sair ou ficar. Mas como vai trocar a comissão técnica, que vai toda para o Sporting, pode haver alguma novidade, já que quem achava que iria ser dispensado pode acabar ficando, e vice-versa. De qualquer forma, o objetivo é montar uma equipe forte para a Liga Europa, que é o primeiro campeonato que começará na temporada.

De fato, como você lembrou, o treinador do Vitória, Paulo Sérgio, foi anunciado como o novo técnico do Sporting. Como a notícia “caiu” por aí, e o que pode ser dito a respeito do trabalho dele?

Olha, a notícia caiu um tanto como uma surpresa para gente, mas nem tanto. Já havia uma especulação que colocava a vaga entre ele e o treinador do Braga. É uma pessoa com um excelente trabalho, como toda a comissão técnica. É um profissional sério, comprometido com o trabalho. Com certeza o Vitória está perdendo um grande treinador, e, por outro lado, o Sporting ganhando um ótimo profissional. Então a gente só pode desejar felicidade a ele e a toda a comissão, e que o próximo treinador venha com força para nos ajudar no próximo ano.

Acredita que com a ida do Paulo Sérgio para lá, pode aparecer uma oportunidade em Alvalade para você? A lateral-esquerda foi uma das principais limitações do Sporting na temporada…

Ah, de repente, né? Claro, quero mostrar meu valor aqui no Vitória, mas quero também dar outros saltos, jogar uma Liga dos Campeões, por exemplo. Seria uma honra se por acaso viesse a representar as cores do Sporting, como está sendo uma honra defender o Vitória agora.

Que pensa da possível chegada do Manuel Machado, treinador do Nacional, cuja ida ao Guimarães é dada com certa?

Conheço pouco, na verdade. O pessoal diz que é um ótimo treinador. Quando o vi, no nosso jogo contra o Nacional, notei que é um treinador que fala bastante, bem ativo com o time, bem enérgico. É esperar para ver, né?

O que pode ser dito quanto às principais diferenças entre os times chamados grandes e os demais?

Acho que principalmente no número de torcedores, a diferença é bem grande. Principalmente a torcida do Benfica, que é a maior do país. O Vitória possui uma bela estrutura para se trabalhar, paga em dia, mas é difícil chegar perto de Porto, Benfica ou Sporting. Até porque eles possuem uma cota de patrocínio muito maior.

O que se nota é que, cada vez mais, há uma pressão maior, de torcedores e da imprensa, por uma maior presença e valorização de jogadores portugueses, e uma menor de atletas estrangeiros, principalmente brasileiros. Notou algum tipo de dificuldade dessa natureza?

Olha, preconceito, essas coisas, eu não notei não. Eu, por exemplo, fui muito bem recebido aqui, por jogadores e a torcida portuguesa. Claro, há essa chateação por ver os times lotados de brasileiros e com poucos portugueses. E aí, querem naturalizar o David Luiz (zagueiro brasileiro do Benfica) para jogar no lugar do Pepe, outro brasileiro naturalizado, no Mundial… Realmente é complicado, se a gente se colocar no lugar deles. Claro, o jogador brasileiro é diferenciado, e se destaca, mas a gente entende, sabe que o que eles querem é que se valorize o atleta de lá.

Como estão as expectativas, em Portugal, para a Copa do Mundo?

Bom, por um lado, Portugal é uma equipe forte sim. Por outro, é forte, mas não é favorita. Depende muito do Cristiano Ronaldo. Se ele não estiver em boa fase para desequilibrar no Mundial, complica. É forte, mas não como uma Argentina, um Brasil ou uma Espanha. As pessoas estão com um pé atrás. Eles querem ser otimistas, mas não tem sido fácil. Especialmente por causa do grupo que eles pegaram, com Brasil e Costa do Marfim.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo