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“A partir de agora, falo tudo”

Adepto de uma disciplina rígida, o treinador Julio César Ribas deixou a seleção do Omã, eliminada nas Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo de 2010. Na frente de Gregório Perez e Hugo de Leon, é o técnico com maior número de títulos conquistados nos últimos 15 anos no território ‘Charrúa’.
Chateado com atitudes de alguns dirigentes, o uruguaio de 51 anos garante que a partir de agora, se for desrespeitado, contará tudo o que acontece nos bastidores. Neste longo bate-papo com a Trivela, o homem que levou o Peñarol ao bicampeonato do Clausura em 1999 e 2000 fala com franqueza de sua experiência no Golfo e do atual cenário do futebol uruguaio. Imperdível!

 

Você deixou a seleção do Omã recentemente. Quais as dificuldades que passou por lá?
O futebol teve uma transformação muito importante, existe uma exposição permanente em rádio, TV, jornal e internet, isso dá um poder imenso ao jornalismo esportivo. Muitos dirigentes são permeáveis a esse poder, cada vez é mais difícil tocar um projeto desportivo.
Essa exposição que o futebol tem faz com que muita gente seja permeável, não mantenha suas idéias e não termine seus projetos. As desculpas são ‘a imprensa está contra’. ‘a torcida cria problema’, ‘os patrocinadores não querem’, enfim, travam seu trabalho para continuarem no poder.

Os dirigentes?
Sim, alguns se rendem, escutam o que tem que escutar, fazem o que não se deve fazer e deixam seus sonhos pelo caminho. Se fizer o contrário, pode ter todos contra, mas chegará ao seu objetivo, sem dúvida.
O treinador é o que tem menos poder nesse tipo de ‘organização’, com isso os jogadores perdem o respeito porque vêem que os jornalistas opinam, muitos dirigentes os escutam e acham que também são técnicos e isso não beneficia ninguém. Jornalista tem que ser jornalista e dirigente ser dirigente, sem invadir o espaço dos outros. Hoje não existe isso, é puro caos. Somente equipes com verdadeiros lideres funcionam, os demais pensam que funcionam, mas só competem.

Aprofunde o tema, Júlio.
Quando se tem liderança, existe projeto, quando há projeto, há conquistas. É um processo em longo prazo com bons e maus resultados que ajudam a crescer. Se você não é um líder nos maus momentos, perde a convicção e corta seu projeto. Penso que devemos manter a filosofia independente dos resultados. Precisa-se estar convencido de seu treinador e seus jogadores contra tudo e todos. O único juiz é o tempo, o balanço final quando termina o ano ou projeto.

O comportamento do jogador moderno mudou muito?
Sim, antes escutavam o treinador e respeitavam o grupo, hoje isso é passado, se escuta muito mais os jornalistas, procuradores e dirigentes. Todos importantes, mas fora de campo. A solução deveria ser dirigentes e jornalistas se juntarem e decidirem quem será o técnico, depois os jornalistas o atacam, pois foram eles que o elegeram. Tudo isso é uma fantasia. Eles elevam e derrubam quem querem. O que existe de verdade no futebol é o trabalho bem realizado e com conquistas. Para isso tem que haver convicção nas idéias.

Foi uma experiência válida?
Sim, o Omã é maravilhoso como todo o Oriente Médio, poderia ficar anos ali. Uma equipe do Catar me procurou para ter eu e meu filho, mas a Internazionale (dona do passe do atacante Sebastián Ribas) não deixou. Muitos dizem que a vida no Golfo é difícil, ora, a vida é difícil em qualquer parte.

Como viu os jogadores omanianos?
Eles tem boa técnica e capacidade física natural, também são inteligentes taticamente. Hoje, Japão, Austrália, Coréia do Sul, China e alguns países africanos tem nível superior, porém, estou convencido que o futebol árabe é superior se melhorar a organização esportiva e se entenderem o que realmente é ser profissional. Fazer projetos integrais desde o infantil, pois lá se tem estrutura, boa logística e poder econômico. Se não fizerem isso, será difícil para os árabes superarem Japão, Coréia do Sul, Austrália, Egito e Costa do Marfim.

É um jogo de interesses muito grande e pouco profissionalismo?
Sim, existe uma confusão entre ser poderoso economicamente e ser profissional. O profissional não é o que cobra ou tem muito dinheiro, é o que trabalha com qualidade e excelência e muitas vezes isso não acontece por lá. No Omã, fomos realizar um projeto, potencializar o futebol omani. Isso exige trabalho e sacrifício em um futebol ainda amador, mas não tivemos tempo. Ao final da Copa do Golfo, eles terão que fazer o projeto que desenhamos, perderam um ano.

Você teve problemas com o atacante Bader Al-Maimani, ele é complicado?
Eu fui claro com ele, o tradutor foi testemunha, Al-Maimani não se comportou como devia. Depois do amistoso contra os Emirados Árabes (1 a 1) eu o eliminei do grupo, disse na cara dele que contra a Tailândia ele não jogaria. Ele se equivocou e falou com a imprensa, com dirigentes, chorou igual uma mulher, não se defendeu como homem. Eu não falei sobre isso porque queria que ele se tocasse do mal que estava fazendo, mudasse e voltasse para o grupo. Não só ele não fez isso, como continuou se comportando mal como pessoa. A partir de hoje, conto tudo que as pessoas não sabem das concentrações, dos jogos etc.
Se me respeitam, eu respeito, se falam mal de mim, eu retruco, se são bons, serei bom, se querem ser mal, serei mal.

Um dos meus jogadores favoritos no Golfo é o armador Fawzi Basheer, da seleção do Omã e do Al-Gharafa, do Catar. Tem classe, técnica e gol.
Sim, é o melhor jogador omaniano. Ele é completo, poderia estar na Europa. Eu o recomendei a vários colegas na Europa. Basheer é um jogador de equipe, completo e para ganhar. Esta no ponto para sair do Golfo.

Tem acompanhado seu filho, Sebastian Ribas – emprestado pela Inter de Milão ao Dijon, da segunda divisão francesa – que está formando dupla de ataque com Pierre Aubameyang, garoto das divisões de base do Milan?
Ele está ótimo! Tanto o Presidente como os novos companheiros estão o tratando muito bem e a cidade é linda. Tem marcado gols importantes, se entende bem com Aubameyang e ambos darão alegrias ao Dijon. Eles vem de grandes clubes italianos, acostumados a ganhar, e irão cumprir o processo de formação necessário para chegar ao nível que todos esperam. São meninos de 20 anos com muito para aprender, mas com um presente já importante.

Fala-se das dificuldades tremendas de um treinador sul-americano triunfar na Europa. Como foi sua passagem pelo Venezia, da Itália?
É difícil para todos, mais para os treinadores do que para os jogadores. A pressão é grande, maior ainda para os estrangeiros. É verdade que muitos sul-americanos não triunfaram na Europa por que não lhes foi dado o tempo necessário, da mesma forma, os técnicos europeus teriam fracassado aqui. Trabalhar aqui na América também não é fácil, cada lugar tem sua idiossincrasia. O futebol é sempre o mesmo, mas dentro de campo em qualquer continente, tudo que te rodeia é importante, é diferente.

Mas no seu caso em particular, o que houve?
Não me deram o tempo necessário para mudar o que me pediram. Havia problemas econômicos, gente com grandes idéias, mas com organização insuficiente. Estou seguro que poderia ter feito um grande trabalho se tivessem me dado tempo. Logo, ganhei o Torneio de Viareggio (Com o Juventud) e os jornais italianos publicaram que era a minha revanche, discordo. O título foi uma oportunidade de mostrar que se tivessem me dado tempo, outra coisa poderia acontecer.

Houve dificuldades com a cultura e o idioma?
É conveniente saber a língua, mas também precisa-se de tempo para se desenvolver nesse aspecto. Em qualquer lugar que você trabalhe, mais além de se adaptar as culturas, o mais importante é ter a oportunidade de mostrar seu real trabalho, e isso necessita tempo.

Sendo o treinador uruguaio com maior número de conquistas nos últimos 15 anos, quais você considera as mais importantes?
Algumas são mais especiais por certas razões. Levei o IA Sud América ao título invicto da Série B e em seguida classifiquei o time para a Copa Conmebol 95 onde eliminamos o Gimnasia y Esgrima, vice-campeão argentino que tinha Guly, Pampa Sosa e os irmãos Schelotto. Pelo Bella Vista, ganhamos a Liguilla de acesso a Libertadores contra o Peñarol diante de 60 mil pessoas com uma equipe formada por garotos de 20 anos. Não podendo esquecer o Torneio de Viareggio 2006 (Copa Carnevale) com o Juventud, que foi maravilhoso. Há 58 anos um time sul-americano não vencia.
 

Mas os principais foram com o Peñarol, não?
Claro, ganhamos tudo em 99 com um ataque que quebrou o recorde de gols da história do clube. Antes, essa marca pertencia a “La maquina del 49”, que era praticamente o mesmo ataque que atuara na Copa de 1950 aí no Brasil.

Conte-nos um pouco sobre a atmosfera do clássico Peñarol e Nacional.
São jogos carregados de história, paixão e que dividem o país. Tenho orgulho de estar na lista dos técnicos que mais vezes disputaram esse clássico, 14 vezes. Muitos dizem ser mais importante ganhar este derby do que o campeonato. Se um disser que é uma partida qualquer, estará mentindo. Esse jogo é tudo! E nenhum é igual a outro. Se vive uma semana antes e depois que terminam dividem famílias, amigos e casamentos. Tem torcedor que não vai trabalhar se a equipe perde. Fanáticos! Você percebe quem ganhou e quem perdeu só de observar nos bares, restaurantes e escolas. Abraça a vida de todo um povo, incendiado por essa paixão.

Apesar do histórico domínio de Peñarol e Nacional, o Danúbio e o Defensor ganharam os últimos títulos uruguaios. Como analisa o atual panorama do futebol no território ‘charrúa’?
Esse tipo de ‘parênteses’ aconteceu algumas vezes. Entre 87 e 91, os dois ‘gigantes’ não ganharam, o Bella Vista foi campeão em 1990, eu jogava no time. As razões para conseguir ganhar títulos e bater os dois grandes naquela época são diferentes das atuais.

Que tipo de diferença?
Havia jogadores de grande nível nas equipes menores. Eles não iam para o exterior com facilidade como hoje. Contudo, esses times se estruturavam e eram mais fortes, hoje é mais difícil formar um plantel coeso e entrosado devido ao êxodo de jogadores. Hoje, os dois grandes também tem problemas para trazer futebolistas de alto nível, eles jogam com muitos garotos. Já clubes como o Defensor e o Danúbio vendem diretamente, muitos nem sequer chegam aos profissionais e já saem, enfim, são muitas razões que teríamos que aprofundar mais e mais..

Você foi o técnico do Peñarol em um dos últimos grandes momentos continentais da equipe, nos anos de 99 e 2000.
Tive a honra de jogar contra os melhores, em 99 enfrentamos o Vasco de Juninho, Edmundo e Viola, ganhamos de 2 a 0 em Montevidéu e empatamos no Rio em 1 a 1 pela Copa Mercosul. Depois o Flamengo, que nos eliminou e foi campeão. Jogamos contra o Palmeiras de Scolari, o São Paulo, o Boca Juniors de Bianchi. Foram dois anos maravilhosos (99 e 2000) sem perder no estádio Centenário para os melhores times da América do Sul. Só fomos perder um jogo ali em 2001. Estivemos perto de ganhar a Mercosul.

Você enfrentou muitas equipes brasileiras e argentinas. Como uruguaio, o que mais admirava nos rivais?
O futebol brasileiro é diferente do argentino, é mais imprevisível, jogamos mais vezes contra times brasileiros, eram batalhas contra equipes de grande nível. Os brasileiros deixam jogar mais, porém, jogam mais, deixavam as partidas mais abertas, mas eram tremendamente difíceis. Com os argentinos os jogos eram mais fechados e até mesmo contra os paraguaios era assim. Permanecer dois anos invicto no estádio Centenário contra essas equipes não é pouca coisa.

Você não esconde sua paixão pelo futebol uruguaio, é um conhecedor profundo do passado futebolístico do país e dizem que se aborrece quando alguém ousa dizer que a ‘Celeste’ não tem condições de voltar a ganhar. Você sustenta isso baseado no quê?
Uruguai tem bons jogadores jovens e experientes e reúne condições para estar ao mais alto nível. Não tem desculpa, a maioria joga na Europa, os que estão no Uruguai são muito bons também e podem melhorar. A melhor coisa a se fazer no futebol uruguaio é deixar de jogar para satisfazer os compradores europeus. Devemos jogar para ganhar, não para agradar, essa é a verdadeira mística do futebol uruguaio.

É difícil resgatar isso, não?
Não podemos querer parecer os outros, precisamos ser o que sempre fomos com orgulho e com grande inteligência para mudar e melhorar as coisas que podem nos fazer crescer sem deixar de lado nossa essência que nos levou a ser respeitados na América e no mundo. Creio muito na nossa seleção, espero muito de técnicos e jogadores e que nós consigamos trazer essa mística de volta.

 

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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