Sem categoria

A fé que move Jayapura

O técnico do Persipura Jayapura, líder do Campeonato Indonésio, é brasileiro. Jacksen Tiago (foto) bateu um papo conosco sobre como mantém no topo da tabela os ‘Mutiara Hitam’ (pérolas negras), como é conhecido o time do maior arquipélago do mundo. Ídolo no país desde os tempos de jogador, ‘Jacko’ relata que organização tática, integração coletiva, palestras e cultos religiosos são a base de seu trabalho. Confira!

 

Como aconteceu sua ida para o Persipura, líder da Superliga da Indonésia?
Na verdade já deveria ter acontecido desde 2006 quando saí do Persebaya. Naquele ano tivemos uma negociação, mas também estava acertando com o Persita Tangerang que me fez uma oferta melhor. Mesmo assim, alguns diretores do Persipura, quando souberam que eu tinha firmado com o Persita, me pediram uma recomendação de treinador brasileiro (Tony Neto, ex-Perak, da Malásia), pois o Persipura é conhecido aqui como o ‘Brasil da Indonésia’ devido a qualidade técnica dos jogadores.

Este ano a Federação exigiu dos treinadores uma licença, não? Como foi isso?
Sim, a nova lei da Federação é que para treinar na Superliga tem que possuir Licença A Internacional, mas no Brasil não temos este tipo de licença. Com ajuda da CBF, ABTF (Associação Brasileira dos Treinadores de Futebol) e Sindicato dos treinadores do Rio de Janeiro, entidades que sou associado, foi enviado cartas de esclarecimentos e recomendações para a Federação Indonésia e tudo foi esclarecido.

Nisso, você iniciou a temporada no Persitara.
Sim, mas a equipe não teve uma boa pré-temporada e composição de elenco para fazer uma boa campanha. Há uma terrível crise financeira que já dura oito meses sem salários. Foi difícil e eu estava decidido a rescindir meu contrato. Na noite anterior a minha renúncia, recebi o telefonema de um diretor do Persipura para assumir o comando e não pensei duas vezes em aceitar.

Como trabalhou a equipe do Persipura para conseguir seis vitórias consecutivas e a liderança absoluta? Fale um pouco do seu trabalho..
É baseado em organização tática, integração para tomar decisões, palestras educacionais e cultos religiosos. Meus auxiliares estão aqui desde 2005 e conhecem bem o plantel. Nós temos medalhões no elenco, jogadores que conquistaram o respeito de todos e eu os uso para entenderem o que a comissão técnica pensa. Eles se sentem responsáveis pelo sucesso, no futebol indonésio muitas vezes os jogos são decididos pelo lado emocional dos jogadores. É na base do ‘paizão’ e ‘filhão’.

Agora fale das palestras e cultos.
A equipe do Persipura é famosa por bebedeiras de jogadores, é uma tradição cultural do povo de Jayapura, mas nós tentamos conscientizar esses jovens. Sobre os cultos, a maioria da nossa equipe é cristã e tentamos mantê-los concentrados e longe de bebidas alcoólicas e isso está influenciando positivamente no trabalho.

E os muçulmanos?
Só o preparador de goleiros e o arqueiro reserva.

Os brasileiros Davi e Beto junto com os africanos são os jogadores que fazem a diferença a favor do Persipura?
Eles tem me ajudado bastante, mas temos indonésios de boa qualidade, com passagens pela seleção (Jendri Pitoy, Jack Komboy, Salampessy, Salossa, Ivakdalam, Kabes, Rumere, Wanggai), esses jogadores tem um estilo alegre e descontraído de jogar sempre priorizando o toque refinado.

O fato de Jayapura fazer fronteira com a Papua Nova Guiné e ficar longe dos grandes centros torna o seu trabalho mais tranqüilo?
Muito pelo contrário, Jayapura esta lutando para ter a independência assim como o Timor Leste e o futebol é o único lazer do povo, com isso a expectativa em relação ao sucesso da equipe é enorme. Eles se consideram o melhor time do país e criam uma pressão enorme. Assim que cheguei, os jogadores tinham medo de atuar em casa porque quando perdem tem que sair do Estádio de barco pelo lado do cais (O Estádio Mandala é perto da praia Dok V e de uma vila de pescadores). Agora conseguimos mudar a auto-estima do grupo e está tudo bem.

Seu atacante e artilheiro Boaz Solossa tem no currículo um histórico de alcoolismo que atrapalhou um pouco a carreira dele. Ele é um tipo complicado para lidar?
O Boaz é um garoto fantástico, mas nunca teve pessoas para orientá-lo. Talvez pelo fato de eu ter sido um atacante de sucesso aqui faz com que se crie um respeito. Ele sempre me admirou, mesmo quando éramos adversários. No dia-a-dia o jogador vai vendo o caráter do treinador e ele tem sido fantástico nesta campanha, marcando muitos gols, pois criamos um sistema favorável a ele. Em sete jogos comigo, ele marcou 7 gols, alguns belíssimos. Nossa relação é boa e ele tem demonstrado ser um profissional fantástico dentro e fora de campo.

Jendri Pitoy é mesmo o melhor goleiro do país?
Com certeza, e sempre está motivado para os treinos, mas ele tem problemas pessoais que sempre leva para o campo e isso atrapalha suas performances. Ele precisa de uma aproximação maior para render, mas com certeza está entre os três principais goleiros da Indonésia.

É sabido que falta de planejamento e bagunça fazem parte da rotina da maioria das equipes. Em um clube mais estruturado como o Persipura é diferente?
Planejamento aqui, mesmo nos grandes, não existe. O futebol aqui é comandado por políticos que só tem interesse em períodos eleitorais, durante uma temporada, por isso o planejamento é anual e não a longo prazo.
Com relação ao profissionalismo da diretoria do Persipura, é algo indiscutível. Eles priorizam o bem estar do jogador e dão ótimas condições ao treinador.

Na Indonésia tem o eterno problema de todo país do sudeste asiático: a nítida fragilidade física dos jogadores. Como vocês da comissão técnica lidam com isso?
A equipe toda mora num hotel de boa qualidade, temos um cardápio variado e rico em carboidrato, proteína etc. A área de Jayapura é próxima ao mar e cercada de florestas, com isso eles tem uma cultura alimentar rica em vitaminas e nutrientes. Eu fiquei surpreso quando cheguei no clube, pois o cardápio é de ótima qualidade para os padrões do país.

Jacksen, como estão indo os brasileiros nesta temporada?
Houve um progresso enorme e isso se reflete na tabela de artilheiros. Temos o Márcio Orelha (ex-Mesquita/RJ), Cristiano (atual Pelita Jaya) e o Beto (ex-Remo/PA) brigando pela artilharia, e o Davi (ex-Portuguesa/RJ) indo muito bem. O Márcio é o artilheiro da Liga, está vivendo um ótimo momento no Persela, ele é exímio nas bolas paradas, 80{a12cf170529acbd7b36c6d9566dcea6b97d0f72dc979800f5851fcdd34e7d94a} entra. Espero que ele consiga, pois o último artilheiro brasileiro foi eu, há 11 anos atrás com 26 gols. Como nossa equipe está indo bem, o Beto também pode brigar pela artilharia. Torcemos para um brasileiro se destacar.

O novo calendário está sendo bem aceito e os torcedores seguem apaixonados?
Calendário sempre foi complicado aqui, tem muitas interrupções. Agora em novembro terá uma parada para a seleção disputar a Tiger Cup, ficaremos parados até janeiro e isso atrapalha os jogadores. O público continua lotando, a média é de 15 a 20 mil pessoas por jogo.

Em quase todos os jogos fora de casa, o Persipura precisa atravessar o mar. O gasto com transporte é alto e as viagens são cansativas? Vocês se deslocam de avião, certo?
São altíssimos, principalmente pelo fato da equipe viajar com a Garuda Airlines, a melhor e mais cara do país. O tempo mínimo é de três horas de viajem para cidades mais próximas de Jayapura. Outras duram até 12 horas por causa das escalas. A nova Superliga reúne os 18 melhores clubes da Indonésia, até o ano passado era dividido entre os grupos leste e oeste, isso fazia com que não viajássemos para tão longe, mas agora complicou.

 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo