A falta de renovação dos treinadores russos

Se confirmado, Fabio Capello terá muito trabalho pela frente no comando da seleção russa. O italiano, de 66 anos e com um currículo invejável, já foi anunciado pela federação, mas ainda não assinou contrato – o que deve ocorrer até o final desta semana.
Sobre a seleção, recupero aqui um texto que escrevi após a Eurocopa e tudo que será necessário fazer com essa equipe: Time sem brio. Questionar a capacidade de Capello, ao meu ver, é absurdo, e seus títulos estão aí para comprová-la. No entanto, não consigo ver a Rússia evoluindo nas mãos do treinador italiano. Historicamente adepto do 4-4-2, ele adotou o 4-3-3 e o 4-2-3-1 na maior parte dos jogos da Inglaterra após a Copa de 2010, mas sempre que se viu em uma situação delicada retomou a tática antiga.
Os russos têm uma geração talentosa e naturalmente ofensiva, onde Alan Dzagoev desponta como o melhor jovem. Claro, é um time que precisa melhorar demais o setor defensivo, onde o talento não é abundante, e nisso Capello será muito importante – ele certamente será muito ajudado também por Luciano Spalletti. Só que as expectativas são outras, e se o problema é somente arrumar a defesa – sem querer desmerecer a capacidade do italiano – técnicos locais, como Kurban Berdyev, dariam conta do recado, e cobrariam bem menos que US$ 5 milhões por ano.
A verdade é que a federação russa escolheu o novo técnico olhando somente a Copa do Mundo de 2014, tanto é que seu contrato terminará aí. Apostou na segurança de um treinador renomado e sua grife. Não pensou em um projeto a longo prazo, focando justamente o Mundial em território russo, daqui seis anos. Ao meu ver, um técnico mais jovem, com uma visão nova do futebol seria mais indicado.
Pep Guardiola apareceu na lista. Obviamente seria a melhor escolha, mas utópica, já que o espanhol tem opções bem melhores. No Campeonato Russo aponto três nomes que poderiam assumir o cargo: Leonid Slutskiy, do CSKA Moscou, o romeno Dan Petrescu, do Kuban Krasnodar, e o croata Slaven Bilic, que assumiu o Lokomotiv Moscou há pouco tempo.
De todos, tenho mais simpatia por Bilic e Petrescu. E aí, aparece outro problema do futebol russo: a falta de renovação de treinadores. Além de Slutskiy, é possível destacar somente um nome entre os russos da nova geração, no caso Andrei Kobelev, do Krylya Sovetov. Valeriy Karpin, que tinha muita esperança depositada sobre si, nunca demonstrou tanta capacidade – e hoje voltou a ser apenas diretor do Spartak Moscou.
Essa falta de renovação é percebida com o número de técnicos estrangeiros no país. Dos 16 times da primeira divisão russa, apenas metade tem comandantes russos. Na seleção, desde 2005, quando Yuri Semin era o técnico, um russo não dirige o time.
Contratar profissionais estrangeiros é sempre bom em momentos de dificuldade, como o vivido pela Rússia quando fechou com Guus Hiddink em 2006. O holandês fez um ótimo trabalho, mudou a mentalidade dos jogadores locais e deixou um ótimo legado no time, que foi aproveitado por Dick Advocaat. Só que apenas isso não basta, é preciso aproveitar esse tipo de situação e olhar para a mão de obra local, algo que não foi feito pela federação russa, que mais uma vez aposta no mais fácil e mais caro.
Fazendo um paralelo com o basquete brasileiro, que assim como a Rússia entre o final dos anos 1990 e meados/final dos anos 2000, passou por um momento muito complicado, de nada adiantará essa passagem de Rubén Magnano por aqui, se não evoluirmos com nossos treinadores. Para isso há a escola de treinadores, uma iniciativa fundamental no Brasil. Na Rússia, não há nada parecido.


