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A Copa do Mundo é nossa

Saudosismo de uma época que nunca se conheceu. Pode parecer estranho, mas há muita gente que adoraria ter vivido em um passado remoto, seja ele dos tempos dos pais, avós, bisavós… E essa “saudade” é bastante comum, especialmente quando se fala em futebol e Copas do Mundo.

Seleções históricas, times imbatíveis, elencos impressionantes, esquemas táticos revolucionários, cada um escolhe a sua preferência futebolística, a sua “era” preferida para idolatrar. Porém, para sentir-se minimamente parte de um passado já bastante distante, muitos fanáticos recorreram a um hábito que virou paixão, que se tornou vício e até, quem sabe, fonte de sustento e trabalho.

“Eu sempre curti gravar esses jogos da Copa justamente para poder rever as partidas e os momentos mais importantes quando quisesse. Essa paixão veio do meu pai, que amava futebol”, explicou o jornalista e músico Fernando Martinez, 33 anos, colecionador de vídeos e DVDs de Mundiais.

No caso do holandês Ruud Doevendans, 44 anos, a paixão não veio de berço. Dono de um acervo de dar inveja a qualquer amante da bola, o ex-empresário e hoje técnico de futebol e escritor admite que, na verdade, sua mãe detestava sua relação de profunda paixão pelo esporte bretão. “Comecei minha coleção em 1986. Com o primeiro dinheiro que consegui, comprei um videocassete. Antes disso, minha mãe se recusava a ter um em casa, pois dizia que eu não ia fazer nada além de assistir futebol. Provavelmente ela estava certa”, confessou.

De outro lado, acreditando nas palavras do pai, que vivia saudoso de um futebol que “era muito melhor antigamente”, o professor de tênis Gustavo Román, 34 anos, alimentou seu interesse pelo esporte das outras gerações. “Eu sempre lamentei não ter podido viver a plenitude da era Zico”, contou. “Quando eu descobri que haviam esses jogos disponíveis na internet, eu começei a entrar em contato com os colecionadores e fui fazendo minha coleção”.

Guardado em móveis no meio da sala, ou em um quartinho de vídeo, na casa da mãe e até em uma sala especial, climatizada, e com cada arquivo numerado. No mundo dos colecionadores de vídeos de jogos de Copa do Mundo, cada um conserva seu acervo da maneira que lhe convém.

“Por faltar muito espaço atualmente, todo o acervo está na casa da minha mãe, tudo gravado em fitas VHS”, admitiu Fernando.

Do consumo próprio ao “negócio”

Para alguns, o fanatismo virou quase negócio. Ruud abandonou sua empresa na área financeira há cerca de um ano, e tentou construir seu mundo em torno do futebol. Passou a treinar as categorias de base do clube Duiven, em sua cidade natal, e engrenou a carreira jornalística escrevendo artigos sobre o esporte em diversas publicações holandesas. Hoje, já publicou um livro sobre a vida de Jan van Beveren, goleiro da seleção holandesa durante os anos de 1967-77, mas que ficou fora de duas Copas por uma briga com o colega Johan Cruijff.

“Tenho cerca de 1500 partidas.Todas as Copas a partir de 1986 eu mesmo gravei, e as mais antigas eu troquei com colecionadores de todo o mundo. Do Chile à Austrália, da Rússia aos Estados Unidos”, declarou Ruud. O holandês atentou ainda para o problema da venda de materiais: “Ás vezes eu vendo alguma cópia, mas tem-se que tomar cuidado com questão de direitos autorais. Por isso não faço com muita frequência. Prefiro a troca.”

Já Gustavo começou sua coleção comprando jogos de outros fanáticos e, vivendo neste universo, passou a ter material para troca e, hoje, gaba-se de ter “um dos maiores acervos do país”, o que lhe rende participações em programas esportivos, desde o Bandsports até rádio Bandeirantes. “De 1950 tenho um filme com 80{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} dos gols da Copa e o áudio de Brasil x Espanha e Brasil x Uruguai”, contou. Além disso, possui alguns jogos completos das três edições seguintes e, a partir de 1966 até 86, todos as partidas de todos os Mundiais. “De 1990 tenho 42 dos 52 jogos, 30 (de 42) de 1994, 36 (de 64) de 98, 62 (de 64) de 2002, e todos de 2006”.

Além disso, o professor de Niterói usa seu acervo como material de pesquisa. “De vez em quando eu assisto às partidas que tenho gravadas, especialmente quando eu estou gravando os jogos para alguém ou quando realizo um trabalho de pesquisa”, afirmou. “Estou escrevendo um livro sobre a história das Copas do Mundo, e a minha principal fonte de pesquisa são meus próprios jogos”.

Fernando vai na contra-mão. Tranquilo, o jornalista admite que não tem a menor intenção de transformar sua coleção em nada mais que material para o seu entretenimento. “Nunca fiz (troca ou venda de vídeos), até porque acho legal mesmo é lembrar os momentos em que eu mesmo gravei e lembrar do que estava fazendo na hora das partidas”, comentou. “Sempre assisto às fitas, até para verificar a conservação delas. São jogos históricos”.

“Tenho todos os jogos do Brasil na íntegra desde 1990, todas as semifinais e finais desde 1990 também. E outros jogos diversos, desde a primeira fase até quartas de final”.

Sobre memória e paixão

Quem não tem um jogo em especial que lhe marcou na história das Copas? Tendo ou não vivido o momento, os colecionadores apontam suas preferências mais variadas de partidas e atletas que consideram fora de série, e que deixaram algum legado para suas vidas.

“Entre meus jogos favoritos de Copa do Mundo certamente estão Itália x Brasil de 1982 e Hungria x Brasil em 1966, ambas, coincidentemente, com derrotas para os brasileiros”, apontou Ruud. “A Holanda nas finais das Copas de 74 e 78 também foram ótimas.”

“Outras que marcaram foram as partidas da Copa na Argentina de 78. Foi o primeiro Mundial que acompanhei até o último minuto, apesar do horário (depois da meia-noite, na Holanda)”.

“Eu havia passado por uma cirurgia no pé e não podia subir escadas, então dormia na sala o que, claro, me dava a oportunidade de assistir à televisão de madrugada e ver jogos fantásticos, como Argentina x França e Argentina x Polônia. Meus pais nunca souberam”, brincou.

Para Gustavo, “com uma história tão rica como a das Copas não dá pra escolher um jogo apenas”. Um de seus favoritos é Itália 4 a 3 Alemanha Ocidental, na semifinal da Copa de 70. “O jogo estava 1 a 0 para a Itália até os 45 do 2º tempo, quando a Alemanha empatou. Na prorrogação foi aquela loucura que todos sabem: mais 3 gols para a Itália e 2 para Alemanha”.

“Outro jogo que não posso deixar de citar é a semifinal da Copa de 82, Alemanha Ocidental 3 a 3 França. Foi 1 a 1 no tempo normal, mas a prorrogação foi espetacular. A França fez 3 a 1, parecendo que ia para a final, mas a Alemanha empatou a partida e ganhou nos pênaltis.”

O holandês, por sua vez, não esconde sua paixão pelos anos 80. “Comecei a gravar partidas na Copa de 1986. Por quê? Bem, apenas porque sou completamente louco pelo esporte e, nos anos 80, o mundo conheceu diversos atletas incríveis”, explicou Ruud. “Quando escolho meus jogadores favoritos de todos os tempos, quase todos são dessa década”.

“Penso que, antigamente, os jogadores tinham mais tempo e espaço para se destacar. O período entre 1975 e 85 é meu favorito, é um jogo rápido, cheio de ação e habilidade técnica. Até 1970 o jogo era legal de ver, mas muito devagar. Creio que a Holanda de 1974 mudou alguma coisa nisso. Já nos anos 90 a parte física se tornou mais importante.”

Hoje Ruud, que também coleciona jogos de diversas competições, como Liga dos Campeões e Eurocopa, defende que sua coleção precisa ser usada para o seu divertimento. O holandês salienta seu interesse pelos vídeos: “Só quero partidas que tenham valor pra mim, as que gostaria de assistir outra vez. Não é pelo prazer de possuir as partidas, mas sim de querer assisti-las. E, sempre que posso, faço isso”.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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