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8º – Matt Busby: o mito criador de uma marca

O significado de Sir Matt Busby para os Red Devils vai muito além do apelido de “Mr. Manchester United”. Se o clube é hoje um dos maiores do planeta, deve muito à genialidade de seu grande mentor. Apenas como técnico, Matt Busby passou quase 25 anos em Old Trafford. A fama conquistada na beira dos campos fez até com que virasse letra de música dos Beatles, fosse condecorado pela corte britânica, ganhasse estátua, nome de rua.

Quando assumiu, o clube vinha de um período nada glorioso. Em suas mãos, se transformou em uma marca vencedora. Foram sete títulos nacionais, entre copas e ligas, além da primeira conquista internacional dos Red Devils, a Copa dos Campeões de 1968. Isso sem contar os ídolos como Bobby Charlton, George Best e Denis Law, todos forjados por sua capacidade quase infinita em encontrar talentos.

Neste espaço de tempo, o escocês implantou uma nova filosofia no banco de reservas. Foi o pioneiro entre os managers, cuidando tanto de treinos e táticas quanto de contratações. Montou uma geração de garotos promissores no início da década de 1950, destroçada por um acidente aéreo. Beirou a morte, mas a venceu. E se reinventou com uma nova equipe talentosa, que finalmente conquistou a Europa.

Das minas aos campos

Quando nasceu Alexander Mattew Busby, em 1909, sua mãe, Nellie, disse que havia chegado um jogador de futebol. A intuição materna provaria, anos depois, que não estava errada. O garoto cresceu na pequena vila escocesa de Orbiston, em Bellshill. Logo aos seis anos perdeu o pai, Alexander, mineiro que morreu defendendo o Reino Unido na Primeira Guerra Mundial.

Apesar da inteligência acima da média na escola, Busby teve que suar desde cedo para ajudar a mãe e as três irmãs, que viviam em um casebre de dois cômodos. Aos 16 anos, seguia os passos do pai e trabalhava em uma mina. No entanto, desde já, sonhava em seguir a carreira de no futebol. Mesmo passando boa parte do dia na mina, Matt ainda conseguia atuar pelas equipes menores do Alpine Ville, com o qual ganhou o Campeonato Escocês Sub-18. Depois, assinou com o Denny Hibs, até ser cobiçado pelos grandes clubes do país.

Primeiro, Busby fez um teste no Rangers, que o dispensou após descobrir que o garoto era católico fervoroso. O Celtic, por sua vez, sabendo que o atleta tinha passado pelos rivais antes, também não o quis. Quem acabou se dando melhor foi o Manchester City, com o qual firmou vínculo no início de 1928.

Classe no meio-campo

Apesar da intenção da mãe de que seu filho emigrasse aos Estados Unidos, Matt Busby preferiu continuar em Manchester. Sua estreia aconteceu apenas no fim de 1929, em uma vitória sobre o Middlesbrough. Atuando como “inside left”, fez 12 aparições ao longo da temporada. Sem tantas expectativas, chegou mesmo a ser cotado no Manchester United, que preferiu não bancar as 150 libras estipuladas pelo City.

Com diversos problemas de lesão no elenco e percebendo a qualidade de seu atleta na distribuição de jogo, o técnico Peter Hodge deu nova função a Busby na temporada seguinte. Como meio-campista pela direita, o garoto passou a ser reconhecido pela precisão de seus passes e também por sua visão de jogo apurada.

Seus maiores sucessos nos Blues foram disputando a FA Cup, da qual foi vice-campeão em 1933, mesmo ano em que chegou à seleção escocesa, e campeão na temporada seguinte. Contudo, Busby acabou perdendo o seu lugar no time e, em 1936, foi negociado com o Liverpool. Foram 8 mil libras investidas após 204 jogos e 11 gols pelo Manchester City.

Em Anfield, Matt Busby era rosto comum na equipe titular. A regularidade lhe deu até mesmo a braçadeira de capitão. Mesmo sem nenhum título expressivo, o meio-campista fez seu nome dentro do clube, somando 115 partidas disputadas. O advento da Segunda Guerra Mundial, no entanto, o obrigou a dar um tempo no futebol e a servir o Reino Unido no Regimento do Rei de Liverpool. Sem campeonatos oficiais, Busby chegou a integrar equipes como Chelsea, Hibernian, Middlesbrough e Reading em amistosos.

Construindo o legado

Ainda na guerra, Matt Busby teve as suas primeiras experiências como técnico. O escocês chegou a comandar equipes de futebol do exército, até ser convidado a assumir um cargo de assistente no Liverpool. Divergências sobre métodos de trabalho, porém, impediram a passagem de Busby pelo banco dos Reds.

Não demorou muito até que achasse outro emprego. Acumulando décadas de futebol de baixa qualidade e com dois títulos conquistados no longínquo início do século, o Manchester United planejava reconstituir sua estrutura no pós-guerra. Enquanto ainda estava nos combates, Busby recebeu uma carta de Louis Rocca, dirigente dos Red Devils com quem já tinha amizade. No conteúdo, Rocca falava, de forma vaga, sobre um “trabalho” no United.

A assinatura do contrato aconteceu em fevereiro de 1945. Matt Busby foi bastante específico sobre o que queria fazer no clube. Almejava estar envolvido em treinos e nos jogos, além de realizar compras e vendar de jogadores sem nenhuma interferência dos cartolas. O que hoje é comum para qualquer “manager” inglês, na época, extrapolava as funções de um técnico para a época. A revolução em seu método começava ali.

Além, Busby convenceu os Red Devils a ampliarem o vínculo inicial de três para cinco anos, tempo que, segundo ele, seria necessário para colher os primeiros resultados de suas inovações. O treinador só viria a assumir o cargo em outubro daquele ano. Nesse espaço de tempo, conheceu Jimmy Murphy, a quem convidaria para ser seu assistente em Manchester.

A primeira geração de sucesso

Quando Matt Busby assumiu o comando do Manchester United, o clube não podia nem mesmo mandar os jogos em seu próprio estádio. O Old Trafford havia sido bombardeado durante a segunda guerra e, por quase quatro anos, os Red Devils tiveram que jogar em Maine Road, casa do City. De qualquer forma, os resultados consistentes começaram a aparecer já na primeira temporada, quando a equipe acabou na segunda posição do Campeonato Inglês. Em campo, Busby contava com a presença de jogadores que estavam em Old Trafford desde o pré-guerra, como Jack Rowley, Stan Pearson e Johnny Carey, além de contratações pontuais, como a de John Aston.

Com a mesma base, Busby levantou o seu primeiro caneco em sua segunda temporada, quebrando um jejum de 37 anos sem títulos do United. O clube, que mais uma vez ficou em segundo na liga inglesa, faturou a FA Cup de 1948 vencendo o Blackpool de Stanley Matthews na decisão. Também naquela temporada, comandando a seleção da Grã-Bretanha, o treinador levou o país à quarta colocação na disputa do futebol nos Jogos Olímpicos de Londres.

A boa sequência no Campeonato Inglês, por fim, seria coroada com o título na temporada de 1951-52, depois de quatro vice-campeonatos e de uma quarta colocação. O clube manteve quatro pontos de vantagem sobre Tottenham e Arsenal para chegar ao seu terceiro título nacional, reconquistado após 41 anos. Na última rodada, a goleada de 6 a 1 sobre os Gunners comprovou a supremacia de um clube que permaneceria hegemônico nas décadas seguintes.

Renovação certeira

Entre 1952 e 1955, o único título conquistado pelo Manchester United foi o da FA Charity Shield. Mas, apesar da queda de rendimento, não se pode dizer que o período foi perdido por Matt Busby, pelo contrário. Foi entre esses anos que o técnico promoveu uma transição na equipe, aposentando os veteranos remanescentes do pós-guerra e colhendo os primeiros frutos do esquema de prospecção que implantara nas categorias de base. Adolescentes promissores começaram a aparecer durante este período, iniciando a equipe que seria conhecida como “Busby Babes”.

Os primeiros jogadores surgidos nesta fornada, Roger Byrne, Bill Foulkes e Jakcie Blanchflower, estrearam em 1951. Aos poucos, Busby foi abrindo lugares na equipe titular para a entrada de nomes como os de David Pegg, Dennis Viollet, Duncan Edwards e Bobby Charlton. Um pouco mais amadurecido, o time começou a engatar uma sequência de títulos a partir de 1955-56, quando venceu o Campeonato Inglês com onze pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Aquela conquista deu direito ao clube disputar a recém-criada Copa dos Campeões da Europa, se tornando o primeiro clube da Inglaterra a entrar na competição (a federação se recusou a enviar um representante na primeira edição do torneio). Após eliminar Anderlecht, Borussia Dortmund e Athletic de Bilbao, os Red Devils caíram para o Real Madrid nas semifinais. Já nos campeonatos domésticos, Busby levantou sua terceira taça, além de mais uma FA Charity Shield.

Marcas da tragédia

Em 1958, Matt Busby viveu o episódio que marcaria o restante de sua carreira. Após empatar com o Estrela Vermelha em Belgrado e assegurar a classificação para as semifinais da Copa dos Campeões, o elenco do Manchester sofreu um grave acidente aéreo em Munique. Depois de tentativas frustradas de decolagem, o avião em que jogadores e comissão técnica estavam levantou vôo, mas caiu pouco tempo depois. Dos 44 passageiros, 21 morreram na hora, sendo sete jogadores. Duncan Edwards, o mais promissor daquela geração, veio a falecer depois de 15 dias no hospital. Johnny Berry e Jackie Blanchflower nunca mais poderiam jogar.

Matt Busby também ficou ferido gravemente após a queda do avião. Enquanto estava no hospital, recebeu o rito da extrema unção por duas vezes, mas conseguiu escapar da morte. O acidente prejudicou até mesmo a sua carreira na seleção escocesa, já que era Busby quem deveria comandar a equipe nacional na Copa do Mundo de 1958, disputada quando ainda recebia cuidados médicos.

O técnico cogitou mesmo abandonar o Manchester United, sentindo culpa por ter insistido na decolagem, porém voltou a treinar o time 71 dias depois da fatalidade. Neste ínterim, sob o comando de Jimmy Murphy, o clube chegou ao vice-campeonato da FA Cup e acabou eliminado nas semifinais da competição continental. Para as próximas temporadas, Busby teria que reinventar o time sem metade de um elenco que se projetava para durar no topo por um bom tempo.

O retorno do esquadrão

Foram quatro temporadas de seca, incluindo campanhas ruins no Campeonato Inglês, até a volta do Manchester United ao primeiro lugar. Alguns sobreviventes do desastre de Munique, como Bobby Charlton e Bill Foulkes, acabaram servindo de base para a nova equipe montada por Matt Busby. Além disso, o técnico passou a investir boas quantias de dinheiro em jovens talentos, aplicando mais uma vez seu faro para encontrar boas promessas. Nesta leva, jogadores como Denis Law e George Best chegaram ao clube. Nomes que, sob o comando do escocês, acabariam entrando para a história do United.

A quebra do jejum aconteceu mais uma vez na FA Cup, vencida em 1963 sobre o Leicester. Já no Campeonato Inglês, depois de ficar a duas posições do rebaixamento no mesmo ano de 63, os Red Devils emplacaram um vice-campeonato na temporada seguinte. O título, por sua vez, veio em 1965, quando o clube obteve vantagem sobre o Leeds apenas nos critérios de desempate. Classificado para a Copa dos Campeões, o time vermelho mais uma vez bateu na trave e caiu nas semifinais, desta vez eliminado para o Partizan.

A primeira glória continental do Manchester United, contudo, começaria a se desenhar já na temporada seguinte, com a conquista do sétimo título nacional, o quinto sob a batuta de Matt Busby. A equipe não perdeu um jogo sequer em casa e se credenciou para a sua quarta participação na Copa dos Campeões.

A campanha vitoriosa começou com êxitos sobre Hibernians, Sarajevo e Górnik Zabrze. Nas semifinais, fase na qual o clube havia caído nas outras três oportunidades, o encontro foi com o Real Madrid, algoz em 1958. Com uma vitória por 1 a 0 em casa e um emocionante empate por 3 a 3 fora, depois de estarem perdendo por 3 a 1, os Red Devils garantiram passagem para a decisão. Enfrentariam o Benfica de Eusébio em pleno Wembley.

Depois do empate por 1 a 1 no tempo normal, a façanha foi garantida de forma sublime na prorrogação. George Best, Brian Kidd e Bobby Charlton deixaram as suas marcas e os ingleses acabaram a noite com uma goleada por 4 a 1. Dez anos depois do acidente aéreo em Munique, Matt Busby finalmente chegava ao topo da Europa. Era a prova final de sua capacidade de montar times e, sobretudo, de vencer. Dias depois da conquista, foi nomeado cavaleiro do Império Britânico, ganhando a alcunha de Sir.

Referência eterna

A Copa dos Campeões foi o último troféu levantado por Sir Matt Busby como técnico do Manchester United. Ao término da temporada seguinte, o escocês assumiu um cargo como diretor no clube. Ainda voltaria a treinar os Red Devils em 1970, mas apenas por seis meses. Além, Busby foi presidente do Manchester no início dos anos 80 e também vice-presidente da Football League.

Ao fim de sua carreira no futebol, o “Mr. Manchester United” recebeu diversas homenagens do clube, as mais notórias nas redondezas de Old Trafford. Em 1993, a rodovia que passa a frente do estádio do clube foi rebatizada como “Sir Matt Busby Way”. Já em 1996, dois anos após a sua morte, o ex-técnico ganhou uma estátua em frente ao Teatro dos Sonhos.

Sir Matt Busby faleceu em 1994, em decorrência de uma leucemia. Pôde presenciar apenas o primeiro título da Premier League de Alex Ferguson, seu compatriota, herdeiro de seu legado e único técnico a ter ficado mais tempo que ele no cargo. Em 1999, o Manchester United conquistou de forma inacreditável a segunda Liga dos Campeões do clube, virando nos acréscimos um placar que parecia perdido. Um milagre ocorrido justamente no dia 26 de maio, data em que Busby completaria 90 anos. E ele estava lá. Ao menos em memória.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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