4-4-2 à brasileira x 4-4-2 à europeia

O futebol é um esporte mundial, mas a forma como ele é praticado varia de acordo com o lugar onde se joga. Tanto que muitos jogadores precisam se adaptar ao jogo de um país estrangeiro, já que há diferenças no estilo. Quando se fala de tática, a mais consagrada delas atualmente é o 4-4-2, um esquema usado há muito tempo por times ao redor do mundo. A forma como ele é usado, porém, é muito diferente no Brasil e no exterior.
Por aqui, o esquema ficou consagrado nos anos 1990, com dois zagueiros centralizados, dois laterais ofensivos, dois volantes marcadores e dois meias, além dos dois atacantes. Por isso, alguns chamam essa variação do 4-4-2 “à brasileira” de 4-2-2-2. Praticamente todos os times brasileiros jogavam desta forma, com poucas variações. O mesmo aconteceu com a Seleção em praticamente toda a década.
Na Europa, o 4-4-2 mais usado é o com duas linhas de quatro com laterais com mais característica de defensor do que de apoiador, enquanto no meio-campo os jogadores marcam e atacam pelos lados do campo e recompõem em linha.
Foi assim, por exemplo, que o Manchester United ganhou a tríplice coroa na Europa em 1999 – com o meia Ryan Giggs como “winger” pela esquerda, o astro David Beckham como “winger” pela direita e Paul Scholes e Roy Keane pelo centro do meio. Todos com responsabilidade de marcação e de criação, mesmo Roy Keane, o mais marcador do setor. Tanto que foi dele o gol do título Mundial, contra o Palmeiras, quando apareceu quase como centroavante para completar cruzamento de Giggs.
Opinião de quem define o esquema
Paulo Autuori, técnico do Al-Rayyan, do Qatar, conversou com a Trivela sobre as diferenças táticas no Brasil e no exterior. Antes do time catariano, Autuori treinou diversos clubes brasileiros, passou por clubes de Portugal, do Peru e do Japão. Para ele, não há diferença no modo de treinamento no Brasil e no exterior, mas sim a forma como se trabalha taticamente.
“Para usar um esquema com duas linhas de quatro no Brasil, como a maioria das equipes da Europa, é preciso fazer adaptações, pois não há jogadores com características para esse esquema”, explicou o técnico. “No Brasil, os volantes têm apenas a tarefa de marcação. Dois jogadores do meio marcam e os outros dois jogam por fora. Agora, no Brasil, já se começa a ver que alguns técnicos estão dando mais liberdade aos volantes”, disse.
Uma das características mais comentadas em relação às diferenças no Brasil e no exterior, especialmente na Europa e na Ásia, é a tão falada criatividade dos jogadores brasileiros. “No Brasil sempre se valoriza mais a criatividade dos jogadores, principalmente pela qualidade dos nossos atletas. Mas cada vez mais está se criando uma maior disciplina tática. A união do talento com a organização tática é o que forma uma equipe vencedora”, disse Péricles Chamusca, que recentemente deixou o Al-Arabi, do Qatar, depois de passar por diversos clubes brasileiros e também pelo Japão.
Em território nipônico, quem dá as cartas há muito tempo é o técnico Oswaldo Oliveira, do Kashima Antlers. E ele ressalta a semelhança na forma de jogar de quase todos os times. “No Japão os clubes jogam praticamente no mesmo esquema tático com pequenas variações. Já no Brasil tem uma variação tática maior e, muitas vezes, a qualidade do jogador é que decide uma partida”, explicou o treinador, tricampeão japonês pelo Kashima Antlers em 2007, 2008 e 2009, além de campeão mundial pelo Corinthians em 2000.
A qualidade técnica dos jogadores brasileiros é destacada como um ponto fundamental para a diferença na forma de se trabalhar o esquema tático. Na África, esse sempre foi um ponto abordado, e que ultimamente vem sendo muito criticado, já que as equipes africanas têm atuado mais à moda europeia. “O jogador brasileiro tem um poder de criatividade muito maior, além da ousadia e da versatilidade. Já os atletas de outros centros, como europeus, asiáticos e africanos, se prendem mais ao sistema tático e variam pouco na troca de funções”, comentou Marcos Paquetá, atual treinador da Líbia.
Por que não serve para o Brasil?
O esquema consagrado no exterior, especialmente na Europa, tem uma razão para não ser usado com a mesma frequência no Brasil, segundo comentaram os técnicos com quem a reportagem da Trivela conversou: falta formação de jogadores com esse tipo de característica.
“Realmente esse sistema é bastante usado fora do Brasil, tanto no Japão como no Qatar. O sistema proporciona uma melhor compactação defensiva priorizando a marcação por zona e fechando melhor as laterais com o retorno dos meias na linha dos volantes, que também exercem função de armadores”, explicou Péricles Chamusca. “Isso possibilita várias alternativas de ataque incluindo combinações com meias que se transformam em atacantes nas beiradas e jogadas por dentro com os atacantes centralizados. Outra vantagem é um melhor posicionamento para marcar pressão na saída do adversário”, completou o técnico.
O 4-4-2 com duas linhas de quatro é um dos esquemas mais utilizados em países como Itália e Inglaterra, por exemplo. Nestes países, os jogadores que atuam pelos lados recebem nomes que não estamos acostumados no Brasil. Na Itália, esses meias pelos lados são chamados de “esternos”, o que os portugueses traduzem como “extremo”. É a posição que joga, por exemplo, o sérvio Milos Krasic na Juventus, uma das equipes que atuou com esse esquema nesta temporada. O brasileiro Felipe Melo, volante na seleção, atua como meia central, com funções pesadas de marcação e responsabilidade também na chegada ao ataque. Ele e Alberto Aquilani, que veio do Liverpool, formaram a dupla do coração do meio-campo da Vecchia Signora.
Na Inglaterra, esse tipo de jogador que atua pelos lados é chamado de “winger”. O English Team é um dos que costuma atuar assim. Na Copa do Mundo da África do Sul, por exemplo, o time atuava com Frank Lampard e Steven Gerrard como meias centrais e James Milner e Ashley Young como “wingers”. Depois da Copa, o canhoto Adam Johnson ganhou espaço na seleção inglesa atuando exatamente nessa posição, onde se destaca também no Manchester City. Até mesmo o atacante holandês Dirk Kuyt atua diversas vezes nesta posição no Liverpool, deixando sua posição original de atacante para voltar marcando os adversários até a linha de fundo, se preciso.
“Acho que, no Brasil, esse esquema não é usado porque é difícil encontrar jogadores com características para isso. Na Europa, os dois volantes saem bastante para o jogo e os outros dois jogadores atuam por dentro”, contou Paulo Autuori. “A maior dificuldade no Brasil para a implantação deste sistema é encontrar meias com características de executar com velocidade as funções de atacar e defender”, completa Péricles Chamusca.
Aplicação no Brasil
As diferenças táticas para colocar em campo esse esquema começam já na defesa. Enquanto no exterior é comum que os laterais sejam mais defensores do que apoiadores, sendo que muitos deles atuam tanto como zagueiros quanto laterais, no Brasil muitos têm característica de meias, mais do que de defensores, atacando com frequência.
Não por acaso, muitos deles acabam virando jogadores de meio-campo no exterior. Zé Roberto, Serginho, Mancini, Cicinho, Fábio Aurélio e até mesmo atletas que disputam vaga na lateral esquerda na seleção atualmente, como Marcelo, Adriano e André Santos, algumas vezes atuam mais à frente em seus clubes. Por isso, quando um jogador com essa característica joga na lateral, precisa da cobertura de um carregador de piano, um volante que dê segurança para as suas ações ofensivas.
Nos esquemas à europeia, os laterais mantêm mais as suas posições na defesa, dando mais liberdade aos meias que atuam pelos lados do campo e também para aqueles que atuam centralizados, que ao invés de exercerem apenas um papel defensivo e tendo que cobrir os espaços deixados pelos laterais, podem chegar ao ataque e ajudar na armação das jogadas.
Foram poucas as vezes que o Brasil viu times jogarem regularmente com duas linhas de quatro. O São Paulo de Muricy Ramalho, em 2007, atuou diversas vezes com o zagueiro Breno deslocado para a lateral direita e os meias recuados, em linha, para formar uma segunda linha de quatro no meio-campo.
O atacante Leandro (ex-Corinthians, Fluminense, Goiás e Grêmio, atualmente na reserva do Vasco) atuou muitas vezes aberto pelos lados como um meio-campista que atacava e voltava marcando. O meia Jorge Wagner, atualmente no Kashiwa Reysol, também atuou diversas vezes como meia pelos lados, a pedido de Muricy Ramalho. Paulo César Carpegiani, atual treinador do time, já experimentou jogar com dois meias abertos pelos lados e com força de marcação. Carlinhos Paraíba exerceu essa função, assim como Marlos.
“No Brasil, usamos os meias de ligação e os laterais ofensivos pela qualidade dos jogadores que temos. Temos muitos laterais capazes de serem apoiadores e marcadores e meias com características ofensivas. Talvez por falta dessa mão de obra, os europeus priorizem mais um meio campo em linha”, justifica Paquetá.
As diferenças no esquema tático podem trazer benefícios. Para Oswaldo de Oliveira, as duas linhas de quatro acabam beneficiando os meias. “Acredito que o jogador de meio-campo [é mais beneficiado]. Esses têm uma exigência tática muito grande. Além de participar das ações ofensivas, também precisa estar bem posicionado na hora de defender”, comentou o técnico.
As duas linhas de quatro, para Paulo Autuori, acabam beneficiando especificamente os jogadores que atuam centralizados no meio-campo, que ganham mais liberdade. “Aqueles que se beneficiam são os volantes que têm mais liberdade para jogar. No Brasil, eles costumam ficar mais presos na marcação”, explicou.
Marcos Paquetá, por sua vez, considera que esse esquema beneficia os meias que atuam abertos. “Acho que são os meias que jogam abertos [são mais beneficiados], muito por terem a tranquilidade de uma cobertura em seu setor quando atacam. No Brasil, esse tipo de ataque é realizado pelos laterais, que necessitam de um esquema de cobertura bem definido para não criar espaços no setor defensivo”, explicou.
Já Péricles Chamusca considera que o 4-4-2 “à europeia” beneficia menos o meio-campo e mais os outros setores da equipe – a defesa e o ataque. “Os laterais ficam mais protegidos no sistema defensivo, pois sempre contam com meias marcando na segunda linha. Os atacantes centralizados recebem suporte dos meias e dos volantes para aproximação ofensiva”, afirmou o treinador.
Apesar dos possíveis benefícios, colocar esse esquema em prática no Brasil é um grande desafio para os treinadores. Além do problema da falta de formação de jogadores com essas características, ainda há a dificuldade em fazer os jogadores acostumados a ter uma só função – ou atacar ou defender – a exercerem essa dupla função tática em campo. Para Marcos Paquetá, a questão central no uso desse esquema é a cultura tática do país.
“Os nossos meias acompanham pouco os laterais e tem como característica jogar mais centralizados. Mas essa é uma questão um pouco mais complexa do que aparenta ser. A cultura tática, por exemplo, acaba tendo um papel importante na formação e na reposição de jogadores. Se não temos em nosso esquema tático determinada posição, não vamos criar na base jogadores que aprimorem as características propícias para ela”, contou Marcos Paquetá.
Para conseguir usar um esquema assim no Brasil, os técnicos teriam que ter tempo para adaptar os jogadores. Como o país tem um grave problema de calendário e os times mal conseguem ter tempo para pré-temporada, a tarefa de colocar em prática o 4-4-2 europeu fica ainda mais difícil. Em uma cultura em que a aplicação tática não é tão valorizada, só mesmo com jogadores naturalmente versáteis e um técnico insistente é que esse esquema, tão pouco usual em terras brasileiras, consegue ser colocado em prática. Enquanto isso, mesmo o nosso tradicional 4-4-2 vai perdendo espaço para novidades como o 4-2-3-1.


