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Vini Jr. achou péssima a partida contra o racismo na Espanha

Fonte ligada a Vinicius Júnior afirmou que a partida e sua repercussão não saíram como o esperado pelo atleta brasileiro

Anunciado em junho do ano passado, o amistoso entre Espanha e Brasil, realizado no Santiago Bernabéu na última terça-feira (26), buscava trazer uma mensagem contra o racismo após os seguintes casos de preconceito contra Vinicius Júnior em estádios ao redor do território espanhol. Vimos o slogan “Uma Só Pele”, escrito em português e espanhol nas placas de publicidade, as coletivas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sempre com um fundo preto e branco e os jogadores brasileiros entrando em campo com um agasalho preto com a repetindo a frase anterior e incluindo “Uma Só Identidade”. Porém, segundo fontes ligadas ao atacante do Real Madrid ouvidas pelo jornal The Athletic, ele não ficou tão satisfeito com o que foi feito pela Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF).

O que incomodou Vini Jr. no amistoso contra a Espanha?

  • Segundo esperavam as duas federações, o jogo teria gerado 5 milhões de euros (cerca de R$ 27 milhões) de receita. No entanto, nada dessa quantia será doado para instituições que promovem ações educativas e anti-racistas – ou de qualquer outra causa social
  • O entorno de Vini Jr. e o jogador entendem que a RFEF não fez mudanças no regulamento contra os crimes de ódio, que continuaram acontecendo desde o anúncio do amistoso
  • “Não aconteceu como todos esperávamos. A RFEF não aproveitou esta partida para trabalhar [nos últimos meses] na mudança das regras, para se reunir com o governo para mudar as leis e impor sanções. Todos venderam a ideia de uma partida contra o racismo, o que, na verdade, não foi”, afirmou uma fonte ligada ao brasileiro ao The Athletic
  • O jogo de ontem também foi tratado como uma oportunidade perdida para que a Federação Espanhola de Futebol demonstrasse sua verdadeira vontade para lutar contra o preconceito

Nem coletiva marcante ajudou

Parece que o amistoso de ontem não teve nenhum efeito prático contra o racismo. Mesmo com a partida marcada, o brasileiro seguiu sofrendo ataques. Um dia antes do jogo, deu uma coletiva marcante, onde se emocionou e mostrou-se esgotado de tanta perseguição covarde dos racistas, que o xingam até quando não está em campo (fora do Cívitas Metropolitano, antes de Atlético de Madrid x Internazionale, foi atacado por um grupo de colchoneros). A imprensa espanhola também tem papel nisso, por vezes relevando os casos criminosos e não tratando com a seriedade que precisa.

A importante entrevista recebeu apoios, principalmente de brasileiros, casos do presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, e do técnico Dorival Júnior. No entanto, ainda surgiram pessoas com relevância no futebol para criticar: casos de Donato (ex-Vasco e Deportivo La Coruña), que disse não ser racismo que o brasileiro sofre, e sim provocação, e o ex-goleiro José Luis Chilavert, em postura homofóbica, minimizou e afirmou que o futebol “é para homens”.

“É desgastante, porque você está meio sozinho em tudo. Eu já fiz tantas denúncias, e ninguém é punido. Nenhum clube é punido. Eu luto por todas as pessoas que estão por vir, porque se fosse só por mim e minha família, eu teria desistido. Eu fui escolhido para lutar por uma causa tão importante, eu venho estudando para que no futuro, meu irmão de cinco anos não passe por isso”, afirmou o atleta do Real Madrid em determinado momento na coletiva que rodou o mundo.

Em quase três anos, desde outubro de 2021, o Ministério Público da Espanha já registrou 18 crimes de ódio contra Vini Jr. No fim de 2022, promotores do MP arquivaram um dos processos que apurava os cânticos racistas feitos pela torcida do Atlético de Madrid para o brasileiro. A justificava foi que os xingamentos duraram “apenas alguns segundos”, aconteceram no contexto de “um jogo de futebol com rivalidade máxima” e não entenderam como um crime contra a dignidade do brasileiro.

“Se a gente começar a punir todas as pessoas que cometem crime e aqui não consideram crime, vamos começar a evoluir. Tudo vai ficar melhor para todo. Eu faço tantas denúncias, tantas vezes seguem cartas para eu assinar e fazer mais denúncias. Acontece o que aconteceu com meu amigo em Barcelona: eles arquivam os processos, e ninguém sabe de nada. Se a gente puder punir, não que eles vão mudar o pensamento, mas vão ficar com medo de falar. E aí, sim, a gente vai diminuir isso e colocar medo nessas pessoas. E que eles possam educar os filhos. Tem muita criança me xingando, e eu não culpo a criança. Eles ainda não entendem ainda”, disse Vini em outro momento da coletiva.

O código penal espanhol tem lei contra a violência, o racismo, a xenofobia e a intolerância no contexto esportivo. Porém, mesmo sendo crimes de ódio, podem não ocorrer sanções penais.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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