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Ele não está morto: o segundo atacante mudou para não virar memória

Trivela conversou com especialistas para saber as adaptações da posição, que era unanimidade entre os anos 90 e início de 2000

O segundo atacante, conhecido no Brasil pela utilização da camisa número 11, principalmente entre o final dos anos 80 e início dos anos 2000, foi uma das funções mais importantes no cenário futebolístico internacional. Na era do 4-4-2, tal figura tinha a missão de ser um jogador capaz de superar defesas com seus dribles, apoiar o ataque por meio de triangulações, e se possível, chegar à grande área para finalizar. Nomes como Edílson — ex-Corinthians –, Paulo Nunes — ex-Grêmio e Palmeiras –, além de Denílson, em sua época pelo São Paulo, marcaram época jogando ao lado de grandes centroavantes.

Contudo, com a implementação de alguns conceitos e a diminuição dos espaços em campo, a função do segundo atacante passou por transformações, deixando de lado o aspecto criativo e capaz de quebrar linhas por meio de dribles, para algo mais rígido e preso ao sistema de jogo estipulado. Com o advento do jogo posicional, o antigo segundo homem de ataque se transformou praticamente em um ponta, com obrigações defensivas, e que na fase ofensiva do jogo, se limita a ficar “espetado” em um lado do campo, e tentar o drible no último terço do gramado.

Para entender melhor sobre as transformações da posição com o passar do tempo, a Trivela conversou com o técnico Sérgio Soares, que fez boa campanha com o Juventus no Campeonato Paulista A2, e também com o scout Rafael Marques.

Novos sistemas de jogo acabaram com a função do segundo atacante

Entre o fim dos anos 90 e o começo dos anos 2000, os times do mundo inteiro passaram a adotar sistemas de jogo cada vez mais híbridos, nos quais defensores e atacantes passaram a ter a mesma missão de defender, e iniciar a construção das jogadas. Com isso, defensores precisaram ter mais qualidade no passe e apoiar mais o setor ofensivo, e os jogadores de frente começaram a receber mais responsabilidades defensivas.

Nasce então um dos esquemas táticos da moda, o 4-2-3-1, que nada mais é do que uma variação do 4-3-3 tradicional, ou mesmo do 4-4-2 brasileiro, no qual se recuam os jogadores do ataque para a linha do meio-campo, com os ponteiros sendo importantes na fase de recomposição defensiva, e um atacante mais a frente sendo a principal referência ofensiva do time.

Segundo Sérgio Soares, foi no meio desta transformação que o segundo atacante passou a não ser mais utilizado, já que este atacante precisou ser recuado para a linha de meio-campo, e não tem mais liberdade para se movimentar com fluidez, ficando preso a um lado do campo e precisando ajudar mais defensivamente.

Fica muito claro que os sistemas são os responsáveis pela extinção dessa função de segundo atacante. Vemos vários times que tem apenas um homem na frente e poucos com características de se movimentar por dentro. Hoje  temos muitos extremos, que era o antigo ponta direita e esquerda. Esse segundo atacante dentro dessa nova plataforma de jogo dentro das formações 4-2-3-1, 4-1-4-1, 3-4-3, acaba que não tem a necessidade desse segundo homem na frente. Acabou que a gente não vê mais as equipes com este jogador que é, no meu modo de ver, uma função importante — diz o treinador.

E por que isso aconteceu?

Aqui vale ressaltar algo muito importante: a existência de um segundo atacante estava inteiramente ligada à realidade do futebol nesse período de auge da posição. Antes do jogo posicional (e outras vertentes táticas), as equipes tinham muito mais espaço pelo centro de campo. A distância entre as linhas era maior, assim como a de um zagueiro para o outro, e até mesmo do volante para a linha de defesa.

Então, se tinha espaço pelo corredor central de campo, as principais chances saiam dali. Como consequência, os treinadores priorizavam jogadores com potencial de desequilibrar a partida nessa faixa do gramado, o que ajuda a explicar o sucesso do segundo atacante. Hoje parece até loucura dizer que o jogo interior criava superioridade numérica, já que isso mudou completamente nas últimas décadas.

Rafael Marques explica que as equipes passaram a proteger cada vez mais seu centro de campo, empurrando o adversário para os flancos. Com isso, o segundo atacante já não fazia sentido em um setor tão sobrecarregado. A diminuição dos espaços pelo meio e entre as linhas de marcação foram fundamentais para que o jogo exterior (ou seja, pelos lados) se tornasse a regra:

Há uma lógica de ocupação dos espaços diferente nas equipes que defendem hoje. Elas priorizam defender o corredor central, que é mais perigoso, que estatisticamente é comprovado que as equipes marcam mais gols, finalizam mais daquela zona. Então, os espaços sobraram mais por fora. O segundo atacante deixa de fazer sentido, porque não tem mais espaço para ele se movimentar, aquela liberdade que ele tinha de poder cair ora de um lado de um zagueiro, ora do outro — declara o scout

Há espaço para o segundo atacante no futebol atual?

A palavra de ordem no cada vez mais dinâmico e intenso futebol é recomposição. Saber defender espaços e fechar linhas de passe adversárias é uma característica importante, seja para manter a bola longe de sua meta, ou mesmo conseguir recuperá-la no campo de ataque, mais próximo do gol, e buscar uma finalização mais eficiente.

Neste contexto, o atacante com mais habilidade e condição física para correr, que são as características deste segundo atacante da década de 90, precisa acima de tudo ter a inteligência e disposição para marcar. Sem a famosa pressão sem a bola, os técnicos darão preferência a jogadores mais obedientes taticamente, do que a atletas que consigam driblar e servir de apoio na hora do ataque.

Para Sérgio Soares, para que esta função de segundo atacante volte a aparecer, é necessário primeiro rever a necessidade de ter dois pontas defendendo, para depois convencer os jogadores de ataque a ajudar na recomposição ao lado de meias, ou volantes. Se essa consciência tática existir, é possível que mais duplas de ataque voltem a aparecer no cenário internacional.

A recomposição é fundamental. O segundo atacante tem que saber recompor, preencher o meio-campo ao lado dos meias e os dois volantes, para criar ali algo bem sustentável e consistente na fase defensiva. Tem que saber fazer a pressão sem a bola, pois isso é necessário no cenário competitivo. E todas as questões do movimento da transição defensiva, um atleta importante no sentido da recomposição e dentro da sua função, ser um atleta decisivo — explica o treinador.

Adaptação pode ser a chave

A ideia do segundo atacante não morreu. Por mais que eles se tornaram exceções, ainda existem momentos da partida em que tais jogadores podem ser explorados para gerar espaço. A adaptação pode ser a chave. Para Rafael Marques, o Manchester City é um exemplo de como encaixar essa função no futebol atual. Curiosamente, Pep Guardiola fez bem esse trabalho, apesar de ser apontado como um dos principais “assassinos” da posição.

A figura de um segundo atacante pode ressurgir dependendo da maneira de como o adversário se defende. Nesse detalhe que a variação de sistemas é um aliado crucial para a função ser aplicada atualmente. Pontualmente, Phil Foden ou Julian Álvarez podem se dirigir para a região central do gramado à procura de espaços, já que a figura de Erling Haaland entre os zagueiros necessita de uma atenção especial da marcação:

Cabe ainda o segundo atacante, mas ele precisa ser mais pensado. Precisa de uma operacionalização um pouco mais específica para ele, para tentar criar um espaço que a priori não existe. O Manchester City faz isso bem quando joga com Álvarez e Haaland. Ironicamente, o Guardiola tenha sido o treinador mais acusado de um suposto enrijecimento da estrutura sistemática de suas equipes e, como consequência, da morte do segundo atacante. Talvez o City seja o time que mais coloca o segundo atacante em boas condições de jogo. Mas de maneira estratégica, pontual — finaliza Rafael Marques.

Foto de Lucas de Souza

Lucas de Souza

Esse é Lucas de Souza, redator e repórter do Futebol na Veia e da Trivela. Jornalista especializado em Marketing digital é também narrador do Portal Futebol Interior e da RP2Marketing.
Foto de Matheus Cristianini

Matheus Cristianini

Formado em Jornalismo pela Unesp, é apaixonado por esportes, acima de tudo futebol. Ama escrever sobre o que acontece dentro e fora de campo. Após passar por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia, se juntou à equipe da Trivela com muita vontade de continuar crescendo.
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