Mundo

Saída de Blatter está cada vez mais próxima, mas substituto também tem as mãos sujas

Os dias de Joseph Blatter como presidente da Fifa estão cada vez mais contados. Depois de quatro importantes patrocinadores da entidade pedirem publicamente a saída do suíço, o Comitê de Ética da Fifa tem discutido sua suspensão pelos próximos 90 dias, e a probabilidade de que isso aconteça até esta quinta-feira é muito grande. Tanto o suporte financeiro dos parceiros quanto o comitê eram dois dos principais pilares de Blatter na entidade, e a mudança de posicionamento de ambos nos últimos dias são sinais claros do desgaste do dirigente.

VEJA TAMBÉM: Patrocinadores pedem saída de Blatter, e a principal base de seu poder está ruindo

Os membros do Comitê de Ética da Fifa têm se encontrado em Zurique desde esta segunda-feira para discutir a situação de Blatter. Segundo a BBC, a decisão final sobre sua suspensão será tomada nesta quinta-feira. Em conversa com a emissora, Klauss Stohlker, conselheiro do suíço, revelou que Blatter recebeu a informação de seu afastamento nesta quarta, embora tenha dito que nada está sacramentado.

“A notícia foi comunicada ao presidente nesta tarde. Ele está calmo. Lembre-se de que ele é o pai do Comitê de Ética. Isto é provisório, por 90 dias, mas ele não está exatamente suspenso. O comitê ainda não tomou uma decisão, e as reuniões continuam”, afirmou Stohlker.

O comitê discute também a possível suspensão de Michel Platini, presidente da Uefa e um dos candidatos para a eleição presidencial da Fifa em fevereiro de 2016. Foi justamente um pagamento ao francês que colocou Blatter sob investigação criminal da Procuradoria-Geral da Suíça. Suspeito de crimes financeiros, o suíço pode pegar até dez anos de prisão. Ainda assim, publicamente, segue convicto no discurso de sua inocência e da permanência no cargo de presidente até as eleições do próximo ano.

FIFA: A sujeira chegou na cúpula: Blatter é acusado por corrupção, e até Platini foi envolvido

“Eu sairei em 26 de fevereiro. Depois, tudo terá terminado. Mas não acontecerá nem um dia antes. Vou lutar até 26 de fevereiro, por mim e pela Fifa. Estou convencido de que no mal aparecerá a luz e que o bem vai prevalecer. Condenam-me de antemão, sem que existam provas contra mim de algum tipo de ação incorreta. Estou sendo condenado sem haver qualquer evidência de que tenha feito algo errado. Isso é ultrajante”, afirmou Blatter, nesta quarta-feira, em entrevista a jornalistas alemães.

O Comitê de Ética da Fifa sempre foi um braço direito de Blatter, tanto é que alguns de seus membros, segundo Jamil Chade, do Estadão, ainda insistem que o suíço seja inocente e que só deva ser julgado internamente após uma condenação da Justiça comum. Entretanto, a mudança de postura do grupo, junto com a debandada do apoio dos patrocinadores, talvez seja o maior indício de que seu mandato esteja mesmo chegando ao fim.

O provável interino

Caso Blatter seja mesmo suspenso e impossibilitado de terminar seu mandato em fevereiro, quando se realizam as novas eleições presidenciais, quem assume seu cargo é o vice-presidente mais velho da Fifa, neste caso, Issa Hayatou. O camaronês, de 69 anos, é presidente da Confederação Africana de Futebol desde 1988. Pela influência política de sua família em seu país, chegou à entidade em 1974, com apenas 28 anos, assumindo a posição de secretário-geral.

Em 2002, concorreu à presidência da Fifa, mas, apesar de ter angariado o apoio de algumas das principais federações europeias, acabou derrotado justamente por Joseph Blatter, por 139 votos a 56. Em 2010, a BBC revelou em reportagem investigativa que Hayatou teria recebido suborno da ISL pelos direitos de transmissão da Copa do Mundo nos anos 1990, enquanto o jornal Sunday Times, em 2011, revelou que o camaronês teria aceitado, ao lado do membro do Comitê de Ética da Fifa, Jacques Anouma, um pagamento de US$ 1,5 milhão do Catar para que a dupla apoiasse a candidatura do país à sede da Copa do Mundo de 2022.

Encontrar algum dirigente que não tenha pelo menos uma denúncia ou investigação sobre si para ocupar o cargo de Blatter deve ser bastante difícil. A partir de determinada altura da hierarquia da Fifa, talvez não haja tal alternativa. É claro que o tempo que Hayatou passaria no comando da Fifa não seria suficiente para que alguma mudança significativa fosse feita nos rumos do futebol mundial, especialmente às vésperas de novas eleições, mas não deixa de ser decepcionante que, no belo cenário da saída de Blatter, outro nome manchado seja promovido ao cargo máximo da entidade.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).
Botão Voltar ao topo