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O atacante que deu novo rumo às crianças na Guerra da Bósnia

Esperança. A palavra ajuda a definir o comprometimento de Predrag Pasic com seu povo durante a Guerra da Bósnia. Considerado um dos maiores talentos de sua geração na Iugoslávia, o atacante voltou ao país pouco antes do início do conflito. E, apesar do convite para fugir à Alemanha, onde fez carreira, o jogador preferiu continuar em Sarajevo e correr os riscos necessários para auxiliar as crianças bósnias através do futebol.

“Eu nasci e sou cidadão de Sarajevo. Seria muito difícil para mim deixar minha cidade. Seria muito duro abandonar meu povo, as pessoas que ajudaram a me tornar uma estrela do futebol. Para mim, não tinha razões fortes o suficiente para sair e, por isso, permaneci em Sarajevo com minha família durante a guerra”, afirma Pasic. “Eu comecei a jogar futebol muito cedo e tive muitas oportunidades de viajar pelo mundo, ver outros países, pessoas e religiões. Somente em Sarajevo eu vi de tudo, o que me fazia feliz e orgulhoso. É assim que eu sinto que Sarajevo me formou como pessoa e porque eu acredito em uma unidade”.

Pasic viu a devastação de sua cidade. Viu Radovan Karadzic, auxiliar psicológico do FK Sarajevo na época em que o atacante defendia o clube, ordenar a limpeza étnica na Bósnia. Viu o campinho onde começou a ter contato com o futebol se tornar um cemitério para enterrar as vítimas da guerra. E viu crianças sem rumo. Ao menos para este problema, Pasic encontrou uma solução.

“Em nosso país, temos uma grande cultura sobre o futebol – e todos amam o esporte. Porém, durante a guerra, nossas crianças sofreram muito. Nada funcionava, nem mesmo as escolas. Então, abri uma escola de futebol. No primeiro dia, 300 crianças apareceram. Foi uma grande surpresa para mim, mas logo percebi como o futebol é incrivelmente forte. Era possível ouvir os tiros do lado de fora, mas jogávamos pacificamente. As crianças não entendem o ódio”.

Através de sua escola de futebol, Pasic mudou a vida de várias crianças durante a guerra. E ganhou ele próprio uma sobrevida: “As crianças me deram o poder de sobreviver. Quando eu via o quão felizes eles estavam no campo de futebol, eu percebia como esse sentimento é bem mais forte que o ódio. Isso me encorajou a seguir em frente apesar da guerra”. Um trabalho que continua até hoje, apesar da realidade bem mais confortável para os bósnios.

O exemplo dado por Pasic é contado no terceiro episódio da série “Os Rebeldes do Futebol”, exibida semanalmente pela Al Jazeera e disponibilizado no site da emissora – por conta disso, o áudio é inglês e não há legendas. Nos primeiros capítulos, o documentário francês contou como Didier Drogba ajudou a parar uma guerra civil na Costa do Marfim e como Rachid Mekhloufi deixou para trás o sucesso no futebol francês para lutar pela independência da Argélia.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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