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Não adianta ter reforma de gênero no Conselho da Fifa sem uma reforma de ideias na entidade

Até o início deste ano, apenas três dos 26 membros do Conselho da Fifa (que substituiu o Comitê Executivo) eram do sexo feminino, sendo que só um deles tinha poder de voto. E olha que estamos falando de uma população mundial cujo número de homens não é desproporcional em relação ao de mulheres, ainda que ligeiramente maior, segundo dados do censo dos Estados Unidos. Mas também falamos de um universo à parte em que igualdade de gênero é ainda mais complicada de ser alcançada: o do futebol. Foi por isso que a reforma no estatuto da entidade, instaurada em fevereiro, se fez tão necessária quanto à participação feminina em cargos executivos. O problema é que a prática dessa restruturação tem surtido o efeito contrário ao da ideia dela.

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Grande parte da reforma na Fifa é vitória de centenas de jogadoras, técnicas e dirigentes, que estavam descontentes com a falta de representatividade na instituição e resolveram escrever um manifesto pedindo maior atuação de mulheres nas decisões tomadas pelo organismo que rege a modalidade no mundo e mais investimento e visibilidade para o futebol feminino. “Recomendamos ao Comitê de Reforma que recomende imediatamente a participação de pelo menos 30% de mulheres no Conselho da Fifa (…) As mulheres já não podem esperar nem mais um pouco. O Comitê precisa ouvir esse chamado e acelerar a inclusão de gênero recomendando que essa proposta seja implementada imediatamente”, reivindicava a declaração.

Eis que o requerimento foi acatado pela entidade, que assegurou que pelo menos seis mulheres, uma de cada continente, estariam entre os 37 membros do Conselho. E isso realmente está acontecendo. Porém, a questão é quem são essas moças e o que elas estão fazendo no posto que alcançaram. Uma delas se chama Evelina Christillin, italiana que foi eleita por aclamação como representante da Uefa no Conselho da Fifa durante o Congresso Extraordinário de Atenas, realizado na última semana. Formada em História, antes de se envolver com o futebol no ano passado, Christillin não havia tido um contato específico sequer com o esporte, o que já é um fato que preocupa por se tratar de uma pessoa sem experiência na área. Mas aí vem outro ponto ainda mais preocupante. A italiana insultou jogadores homossexuais esta semana, e chegou a ser xenófoba em comentários disparados contra Erick Thohir, dono da Internazionale, em uma outra ocasião.

Além disso, a australiana Moya Dodd, uma das mais líderes mais respeitadas dentro da Fifa, se vê em uma encruzilhada na eleição de onde sairá a representante da confederação asiática no organismo internacional. Para se ter uma noção, suas duas concorrentes são da Coreia do Norte e de Bangladesh. Isso seria o de menos se ambas não tivessem conhecimento prático limitado na área, assim como Christillin e diferente de Dodd. Ou seja, se a ascensão aos cargos com poder de decisão (que apesar de serem escassos, são o dobro dos de antes) não for baseada no mérito e na experiência, de que valeu a reforma de gênero? E do que adianta essa transformação se as ideias continuam as mesmas do passado e não há interesse por parte das representantes em desenvolver as pautas que impulsionaram a reforma?

A intenção é que mulheres ocupem esses poucos espaços adequadamente. Se não for para defenderem, sobretudo, os interesses de pessoas do mesmo gênero que buscam nelas representatividade, é porque não estão sendo escolhidas as representantes corretas. É válido assinalar, também, a forma como e por quem elas são eleitas. A votação é feita entre as federações dos países de cada confederação, as quais são compostas majoritariamente por homens (de 211 presidentes, apenas três não são do sexo masculino), muitos dos quais preferem eleger uma mulher flexível e que ceda aos seus propósitos a uma que tenha pulso firme e dê voz aos compromissos aos quais foi destinada a cuidar.

Se for para ser assim, para mulheres que agem e pensam como a maioria dos dirigentes da Fifa, a qual só retarda a evolução e denigre ainda mais a imagem da entidade, serem nomeadas, os assuntos que precisam ser tratados com uma atenção especial, como o futebol feminino, continuarão para trás. Continuarão congelados. E de nada terá valido toda a mobilização para que o número de vozes femininas dentro da organização aumentasse. Com os exemplos que estão sendo designados para representar as mulheres, fica a dúvida se essa reformulação no estatuto não passa de mais um verniz da Fifa, só que agora sob nova gestão, para ficar com cara de nova.

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Foto de Nathalia Perez

Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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