A primeira edição da tradicional revista francesa France Football após a morte de Diego Maradona chegou às bancas na terça-feira (1). Dentro dela, Didier Drogba, ídolo do Chelsea, escreveu uma emocionante carta de adeus ao craque, e a publicação disponibilizou em seu site oficial alguns trechos do texto. Com capricho nas palavras, o marfinense falou de sua admiração pelo argentino e do significado de sua morte para ele, pessoalmente: “É o fim do ‘meu’ futebol”.

Drogba, que pendurou as chuteiras em 2018, relembra que abandonar os gramados foi um momento difícil a ele particularmente, mas que a morte de Maradona representou agora uma ruptura ainda maior com o futebol que ele conhecia até então.

“No dia em que me aposentei de minha carreira de jogador, foi como se meu sonho de criança chegasse ao fim. Essa ‘pequena morte’ foi dura, porque, de repente, a gente se encontra um pouco nu, sem horizonte, sem objetivos a atingir, sem sonhos a alcançar. Agora, com a sua morte, é muito mais que o sonho de um garoto que desaparece, é o fim do ‘meu’ futebol. É o fim da ideia que sempre tive dele e da qual você era o símbolo, o modelo e o porta-voz. Um futebol cheio de vida, de ousadia, de malícia e de liberdade”, escreveu o ídolo do Chelsea.

Em 2006, já estabelecido no Chelsea, Didier Drogba liderou a Costa do Marfim na primeira participação do país em uma Copa do Mundo. Ali, já um símbolo importante do futebol africano, o atacante diz ter se tornado novamente um menino ao ver de longe seu ídolo.

“O mais engraçado é que a minha primeira partida de Copa do Mundo foi contra a Argentina, e eu até marquei. Nesta ocasião, eu tinha te visto de longe, mas não ousei me aproximar. Sou tímido, mesmo que isso não seja sempre claro. De repente, eu, o capitão da seleção marfinense e jogador do Chelsea, me sentia um garotinho diante do ‘meu Deus’. A única outra pessoa que me impressionava assim era o Michael Jackson. Eu também só o vi de longe, mas que choque que foi!”

Drogba conta então que, em 2008, quando defendia o Chelsea, perdeu sua primeira grande oportunidade de conhecer seu grande ídolo, algo que lamentou muito. Maradona havia ido visitar os Blues, mas o atacante estava com a seleção marfinense na disputa da Copa Africana de Nações: “Quando eu soube que você encontrou todos os meus companheiros enquanto eu estava em Gana, fiquei louco! Acho que xinguei todo mundo”.

O sonhado encontro aconteceria dez anos mais tarde, na Rússia, durante a Copa do Mundo de 2018, e Drogba descreveu com capricho o significado daquele momento. “Não tenho medo de dizer que foi o dia mais lindo da minha carreira de jogador. Vou me lembrar para sempre que você me abraçou e disse: ‘Drogba, uma bomba!’ Não sei se você se deu conta disso, mas eu não estava mais tocando a terra, e levou um tempo para que eu descesse de novo. Para mim, foi como ganhar uma Bola de Ouro.”

“Nesses últimos anos, eu fiquei, é claro, triste ao te ver. Pensei sentir tristeza e arrependimento em seu olhar frequentemente perdido. É louco, porque só falei com você por uns dez segundos e, apesar de tudo, tive a impressão de te conhecer muito bem. Agora, precisamos aprender a amar o futebol sem você. É como continuar a amar a vida depois da morte de um ente querido. Claro que é possível, mas vai levar tempo. Adeus, Diego, eu te amei muito”, encerrou.

O grande significado de Maradona ao mundo do futebol, que já era consenso há décadas, foi elevado a um novo nível diante da reação de gente tão importante dentro do esporte à morte do craque argentino. De todas as declarações feitas desde a semana passada, a de Drogba talvez seja das que melhor traduzem a sensação de muita gente após a terrível notícia. De certa forma, ao menos na percepção das pessoas, o futebol passa agora por uma ressignificação face à perda de uma de suas maiores figuras.