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Caminhos separados (I)

Analisar um jogo de videogame não é simplesmente passar horas jogando-o e tomando notas, dizer se é legal ou não, se os gráficos são bonitos e prever se o game será um sucesso ou um acachapante fracasso. Basta ler com atenção os reviews de alguns dos principais e respeitados jornalistas especializados sobre qualquer tipo de jogo, como Pablo Miyasawa, Théo Azevedo e Cláudio Prandoni. Os comentários levam em consideração pontos que são comparados a versões anteriores (às vezes, bem anteriores) e, principalmente, a eventuais rivais.

A variedade de consoles disponíveis no mercado aumenta ainda mais o cuidado das análises. Afinal, não se pode considerar o jogo A melhor que o B apenas porque A é melhor no Wii, aparelho mais vendido do mundo. Até por isso, deve-se ter os dois pés atrás (especialmente num País como o nosso, em que Playstation 3 ainda é coisa rara e, na maior parte dos lares — quando estes o tem —, o console mais presente é o PS2), em concluir que o Pro Evolution Soccer 2010 “supera de longe” o FIFA 10.

De fato, a versão para Playstation 2 de FIFA é o que se pode chamar de “tapa-buraco”, enquanto a de PES, apesar de poucas mudanças na base de dados e gráficas, galgou um pouco mais no que diz respeito à qualidade. Ainda assim: não, Pro Evo não supera FIFA. Pelo contrário: não apenas este colunista, mas a imensa maioria dos profissionais especializados na indústria de videogames, inclusive fãs declarados de PES, concordam que, no ponto de vista técnico (ou seja, na simulação propriamente dita do futebol), o game da EA Sports segue muito mais realista que o “co-irmão” da Konami.

Isso significa que PES já era? Nada disso. O que se desenha é a confirmação do cenário muito antes comentado: FIFA e Pro Evo parecem abdicar de tentar concorrer diretamente um com o outro, e passam a focar, realmente, públicos diferentes. Claro que, sendo os únicos grandes jogos de futebol do mercado, há uma tendência à constante comparação. Porém, à medida que os jogos são desenvolvidos, um se distancia mais do outro, a divisão entre as prioridades (realismo e diversão) fica ainda mais evidente, num caminhar que tornará difícil rivalizar ambos mais à frente.

Nesta semana, vamos discorrer um pouco sobre FIFA 10, e na próxima coluna, falar-se-á sobre Pro Evolution Soccer 2010. O objetivo é, bem como fazer um breve review sobre os jogos (sem dar notas, pois, na visão deste colunista, isso é algo muito relativo, e cabe ao jogador tirar as conclusões pelo conteúdo apresentado, e não por um número de estrelas) e mostrar como ambos dão cada vez mais pinta de que, em pouco tempo, não terão muitos motivos para seguirem como “rivais”. O título da coluna reflete por si só.

Base primorosa

Em linhas gerais, o jogo não vem com tantas novidades no que diz respeito à FIFA 09, até porque a versão do ano passado já havia sido considerada a melhor de todos os tempos na franquia. No entanto, aumentou-se a variedade de opções de jogo e a quantidade de equipes disponíveis. Os modos especiais (Manager Mode e Be a Pro) também foram reforçados, e, em comparação à edição passada, estão mais “jogáveis”, ou seja, fáceis de serem compreendidos. Além disso, com o Virtual Pro, pode-se criar um jogador a ser utilizado tanto no Be a Pro como no Manager Mode e em vários outros torneios.

Destaque também para os jogos em rede, que cumpriram as expectativas do preview do game, feito algumas semanas antes do lançamento, com uma contabilização de pontos para o ranking geral mais honesta e reforçada contra possíveis trapaceiros. Aliás, o aprimoramento do sistema permitiu que as já famosas partidas 10 contra 10 on-line ficassem ainda melhores, com menos travadas e maiores possibilidades, como o envio do replay de gols para uma rede da EA Sports, como forma de “contar vantagem” para os demais jogadores espalhados pela rede. Pontos positivos, frutos das análises de mais de 275 milhões de jogos on-line, realizados em FIFA 09.

Visualmente e sonoramente, o game também acerta. O detalhe nas imagens e no design dos uniformes e dos estádios é bastante interessante, ainda que, graficamente, os jogadores de PES sejam mais bem desenhados e fieis do que a maioria dos de FIFA. Os brasileiros, porém, podem se chatear em, novamente, ver a maioria atletas do País diferentes do que são na vida real. Ainda assim, a presença do cantor Márcio Local, com a canção Soul do Samba, mantém a participação brasileira na trilha sonora do game (em FIFA 09, a participação foi da banda Cansei de Ser Sexy, com a música Jader Yoga).

Licenciamentos

Como de se esperar, valorizou-se bastante o futebol de clubes, mais uma vez com o licenciamento quase que completo de times do mundo todo. Quase? Pois é. Lembram-se da entrevista com o gerente de marketing da EA Sports no Brasil, Jonathan Harris, em que ele comentou da dificuldade de se licenciar clubes brasileiros, pelo fato de não haver uma “liga” que cuidasse de assuntos mais burocráticos, como é o caso aqui? Tudo começou quando houve uma mudança na equipe que fazia os contatos para os licenciamentos ao longo do desenvolvimento do game, durante o projeto.

Se já era complicado, em tempo hábil, contatar 20 (às vezes mais) clubes brasileiros separadamente, que dirá fazer isso com ainda menos tempo? Até por isso, apenas os Atléticos Mineiro e Paranaense, Botafogo, Coritiba, Cruzeiro, Flamengo, Palmeiras e São Paulo estão 100% idênticos. Já a apresentação do centenário Corinthians pode desagradar aos torcedores mais fanáticos (C.São Paulo). Sem contar que times como Santos e Barueri, embora apareçam com as alcunhas “originais”, também não foram licenciados, sendo apenas “beneficiados” pelo fato de levarem os nomes de suas cidades.

Jogo novo, velhos detalhes

Do ponto de vista mecânico, FIFA, mais uma vez, não conseguiu mudar muita coisa. É bem verdade que o game reúne algumas dificuldades naturais que determinados jogadores possam ter em campo, no que diz respeito ao domínio de bola, passe, entrosamento e no próprio posicionamento. Porém, tudo fica mais complicado quando a já tradicional instabilidade da movimentação da bola em campo e do próprio comando dos atletas aparecem. Outro eterno desafio dos programadores da EA Sports é acertar a mão na qualidade dos goleiros. Nem é preciso dizer que, novamente, os arqueiros são tétricos (especialmente os do time “humano”).

Não se pode dizer que a jogabilidade está idêntica ao FIFA 09 (ainda que pareça), porque mesmo na tosca versão de PS2, a mudança é sensível. Porém, não se pode fechar os olhos para alguns detalhes que, de tão “históricos”, são até motivo de chacota. Só que, no caso de FIFA, são detalhes essenciais, já que o público que procura este jogo quer o máximo de realismo possível, e, a cada ano, exigirá novidades nesse sentido.

Tudo é relativo

O que é possível de afirmar é que, mesmo com alguns detalhes, as visíveis evoluções ajudaram FIFA 10 a confirmar a maioria de suas expectativas, especialmente no campo on-line, firmando-o como o principal simulador de futebol presente. Mas, vejam bem, fala-se em simulador, não em “melhor jogo de futebol”. Pro Evolution Soccer, no fundo, mesmo tendo a Liga dos Campeões oficialmente à disposição, e um ótimo Be a Legend, não é um grande simulador.

No início da década, em virtude das limitações gráficas e de jogabilidade de FIFA, PÉS até assumiu a condição de simulador. É possível inferir, até, que o domínio dos primeiros anos do século num nicho antes dominado pela EA, além de acomodar a Konami, fez com que, em muitas oportunidades, o game desse passos em falso, rumando a um estilo mais “duro”, que antes pautava o jogo da EA Sports. Os PES 2007 e 2008 foram exemplos, calhando, curiosamente, de surgir no momento de ressurreição de FIFA junto aos fãs de simuladores.

Enquanto isso, a nova versão do jogo da Konami firmou-se como o mais divertido game do desporto bretão na atualidade. É aquele game que você vai jogar com os amigos, fazer campeonatos, abusar dos lances de velocidade e efeito. Algo que FIFA restringe mais, pelo fato de a realidade não ser exatamente assim. O que também não faz de PES o “melhor jogo” do momento. Simplesmente é o melhor para o perfil de seu público, enquanto FIFA é o “top de linha” para seus eternos seguidores.

Ao que parece, pelos últimos anos, essa mentalidade deverá ser adotada, pelo bem ou pelo mal, tanto por americanos, como por japoneses. Se isso é bom ou ruim, é cedo para afirmar, até porque se trata ainda de uma tendência. Mas é algo que as versões 2010 de ambos os jogos deixaram ainda mais no ar.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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