De Londres a Jacareí: 7 histórias sobrenaturais de assombrações no futebol
Com ajuda de Thiago de Souza, do "O que te assombra", Trivela levantou causos de terror em gramados mundo afora
Fantasma do rebaixamento, gol espírita, espírito esportivo… não é de hoje que algumas expressões idiomáticas relacionam diretamente o futebol ao universo sobrenatural.
A associação não fica apenas no vocabulário, uma vez que a quantidade de memórias, paixões e superstições envolvidas no contexto esportivo tornam-no um ambiente propício também para a proliferação de histórias e fenômenos inexplicáveis. Ao menos é o que defende o especialista no assunto, Thiago de Souza.
— Existem evidências de que a associação entre futebol e sobrenatural é mais comum do que se imagina. Superstições são creditadas a acontecimentos sobrenaturais, assim como atos de heroísmo descartados do universo racional — explica ele.
Thiago é advogado, compositor, escritor, roteirista, ponte-pretano e idealizador do projeto “O que te assombra”, que conta com mais de 250 mil seguidores no Instagram. É através do perfil que ele resgata histórias antigas, organiza passeios turísticos em cemitérios e traz para a atualidade relatos sobrenaturais, que vão de assombrações a criaturas do folclore.
Ele também é autor de três livros: “Cidades e Medos – Assombrações de Campinas” (2023), “Milagreiros de Cemitério” (2024) e “Conheça o Lobisomem do seu Bairro” (2025), todos da Editora Pontes.
Fanático pela Ponte Preta, que viu ganhar seu primeiro título nacional em 2025, Thiago de Souza não deixa o futebol fora do seu conteúdo. Segundo ele, também porque o esporte “mobiliza alguns sentimentos muito próprios que são associados a fenômenos sobrenaturais, como o apego a lugares, símbolos, times, pertencimento territorial ou de conquista“.
— O futebol é palco de acontecimentos, injustiças, maldições e encantos que são muito próprios do universo paranormal — completa.
Por isso, Souza publicou no YouTube a série “Fantasmas em campo: assombrações nos estádios do mundo”, com vídeos que relatam diferentes histórias de terror pelo mundo.
Com ajuda do especialista, a Trivela separou as sete melhores para contar abaixo. Desejamos uma leitura agradável e sem sustos. Só não olhe para trás.
7 histórias de assombrações no futebol pelo mundo
1. Herbert Chapman, o treinador fantasma do Arsenal
A história de Herbert Chapman é bastante conhecida entre torcedores do Arsenal e fãs do futebol inglês. O lendário técnico nascido em 1878 já tinha treinado Northampton Town, Leeds e Huddersfield antes de chegar aos Gunners, em 1925, onde se tornaria um dos maiores revolucionários do esporte.
Chapman chegou a um clube cujo maior título era uma segunda divisão, 20 anos antes. Se aproveitando de mudanças na regra do impedimento, ele transformou o esquema tático usual 2-3-5 ao recuar um dos atacantes, criando um 3-4-3 — o que, na época, ficou conhecido como “WM”. A alteração transformou a história do Arsenal que, com o esquema inovador, dominou o futebol inglês na década de 30, sendo pentacampeão inglês.
Mas o treinador não viu todo o sucesso — ao menos não nesse plano. Logo após o Natal de 1933, Chapman sofreu uma forte pneumonia, não resistiu e faleceu no 6 de janeiro seguinte, aos 55 anos. O ídolo foi sepultado no cemitério St Mary’s Churchyard, em Londres… só que não foi exatamente lá que ele descansou.
As décadas seguintes foram recheadas de relatos de aparições do espírito do treinador em Highbury, estádio do Arsenal. Os causos variam de avistamentos de Chapman em cima do seu cavalo, nos arredores do estádio, ao seu vulto caminhando pelos corredores vazios e escuros dos vestiários, após os jogos — principalmente esbravejando, em caso de derrota do Arsenal.
Em 2006, o Arsenal demoliu o histórico Highbury e se mudou para o Emirates Stadium — onde, inclusive, construiu uma estátua para Chapman. O Highbury, por sua vez, virou um complexo residencial de luxo que o treinador não voltou a visitar (até onde sabemos).
🗓 January 19, 1878 is a significant date in our history: Herbert Chapman was born
He would go on to revolutionise the club, both on and off the pitch – and we will never forget his work, success and innovation
Herbert Chapman: a true Arsenal legend 🔴 pic.twitter.com/TXHLEZr5zZ
— Arsenal (@Arsenal) January 19, 2019
2. A maldição do St Mary’s Stadium, em Southampton
Ainda na Inglaterra, a sudoeste de Londres, fica Southampton, casa do clube do mesmo nome. E aí entra outra história curiosa que envolve a mudança de estádio. Entre 1898 e 2001, os Saints mandaram seus jogos no estádio The Dell, mas a bem-sucedida década de 90, na qual o clube se estabeleceu na Premier League, veio com a necessidade de uma arena maior.

Foi construído então o St Mary’s Stadium, que recebeu seu primeiro jogo em agosto de 2001. A estreia foi um amistoso contra o Espanyol, que terminou em 4 a 3 para os visitantes. A estreia oficial? Derrota por 2 a 0 para o Chelsea. Na sequência, quatros jogos em casa: derrotas para Aston Villa, Arsenal e Blackburn, empate contra Ipswich. Tinha alguma coisa errada.
Começaram os boatos de que a nova casa estava amaldiçoada por torcedores do Portsmouth, rival do Southampton, que teriam enterrado uma camisa do adversário no terreno durante a construção. Mas as semanas de jejum no St Mary’s foram acompanhadas de relatos sobrenaturais, com objetos se movendo sozinhos e vozes ouvidas em corredores vazios, que davam conta de um problema de outra ordem.
Preocupado com a maldição, o clube então conduziu uma investigação fora dos padrões que concluiu que, na verdade, o estádio havia sido construído em cima de um antigo cemitério saxão de um assentamento chamado Hamwic, fundamental na defesa do litoral da ilha britânica durante os séculos 7, 8 e 9. As derrotas em casa se explicariam, portanto, pela raiva de guerreiros que tiveram sua casa violada pelo clube de futebol enquanto ainda descansavam por ali.
A solução? Chamar uma bruxa local, conhecida como Cerridwen Dragonoak Connelly, para realizar uma cerimônia celta de purificação e limpeza do local. Deu certo. No primeiro jogo após a intervenção, um gol de Marians Pahars garantiu o 1 a 0 sobre o Charlton e a primeira vitória do Southampton em sua nova casa. O clube só voltaria a perder no seu estádio outras três vezes até o fim daquela temporada.
3. Os 14 meninos de La Paz
O dia 24 de julho de 1993 foi histórico para o futebol boliviano. Naquela data, a Bolívia, com gols de Etcheverry e Peña, causou à seleção brasileira, no estádio Hernando Siles, em La Paz, sua primeira derrota na história das Eliminatórias para a Copa do Mundo.
Depois do jogo, passada a euforia, o último responsável pela segurança do estádio trancava os portões quando avistou um grupo de 14 crianças brincando com uma bola no gramado. O segurança interagiu com a criançada e se virou para apontar o único portão que ainda estava aberto, indicando a saída do estádio. Quando se virou de volta, no entanto, não havia mais ninguém lá.

Os meninos nunca mais foram vistos e tampouco explicados. Reza a lenda que um grupo de crianças desapareceu durante a construção do estádio e nunca foram encontradas. Outros juram que o estádio foi construído em cima de um cemitério indígena. Há ainda os que lembram de um episódio onde 25 pessoas morreram afogadas num reservatório de água que ficava dentro do complexo do Hernando Siles, durante a década de 60.
Mais episódios contribuíram para o aumento da mística do lugar, como a morte de uma torcedora por asfixia em 2007, num jogo entre The Strongest e Bolívar que teve superlotação. Não à toa, quando as câmeras da transmissão flagraram um vulto sumindo nas sombras das arquibancadas num jogo de Libertadores do estádio, em 2014, a conclusão foi uma só: fantasma.
Surpreendentemente, não era o caso. Na verdade, se tratava de um torcedor que aproveitou a abertura dos portões para entrar correndo no estádio e assistir aos últimos instantes da partida. Mas a fama permanece.
4. O horror da ditadura na Escotilha 8
Um dos maiores símbolos dos crimes contra os direitos humanos cometidos pela ditadura militar chilena, que durou de 1973 a 1990, é o Estádio Nacional do Chile, em Santiago, capital do país.
O estádio foi utilizado como um campo de concentração dos presos políticos do governo autoritário de Augusto Pinochet, que vitimou mais de 40 mil pessoas entre mortos, desaparecidos, presos e torturados. Mais precisamente a Escotilha 8 (o portão 8 do estádio), uma seção específica da arquibancada onde os alvos da ditadura ficavam detidos e eram torturados.
Dentro do estádio há um setor de arquibancadas de madeira cercado de grades em vez de painéis publicitários, a famosa escotilha 8. Na parte superior lê-se a frase “Um povo sem memória é um povo sem futuro”, lema escolhido por um grupo de ex-presos políticos da ditadura militar. pic.twitter.com/sm4xbpwHFQ
— Juan Sebastián Pérez 𝕏 (@juans_perez) September 11, 2023
Hoje, o espaço foi preservado como um local de memória, ainda mantendo os antigos assentos de madeira e os nomes dos presos escritos na parede — uma estratégia que as próprias vítimas adotaram por conta do medo de serem apagadas pela ditadura.
Não à toa, a energia do local é uma das mais pesadas entre estádios pelo mundo. Em dias de estádio vazio, sem jogos, pessoas que trabalham no estádio até hoje relatam gritos, pedidos de ajuda, barulhos de portas e grades vindos da Escotilha 8.
5. Poltergeist em Huracán
O poltergeist (palavra alemã cuja tradução é “fantasma barulhento”) é o que chamam de um fenômeno paranormal caracterizado pela manifestação inexplicável de objetos se movendo ou luzes piscando.
Foi exatamente esse fenômeno aterrorizante que um segurança do estádio gravou dentro do Estádio Tomás Adolfo Ducó, o El Palacio, casa do Huracán em Buenos Aires desde 1927. O funcionário publicou o vídeo, que viralizou nas redes sociais.
“São cerca de 23h e é a terceira vez que estou escutando esse ruído de merda. Não sei o que está acontecendo, mas quero gravar agora para que depois as pessoas acreditem”, diz o autor do vídeo enquanto se aproxima de uma porta de madeira batendo repetidamente. Ao abri-la, entre orações, palavrões e muita coragem, ele entra num vestiário e o barulho para.
— Como pode ser que não haja nada? É a terceira vez que entro e não há nada — afirma.
O clube chegou a se defender publicamente da assombração, dizendo que se tratava de um vídeo gravado numa obra próxima ao estádio, não dentro dele. Ou seja: o fantasma pode até ser verdadeiro, só não é da nossa conta.
6. Jacareí e o estádio mais assombrado do mundo
Nós apostamos que você não responderia “Jacareí” para a pergunta “onde você acha que fica o estádio de futebol mais assombrado do mundo?“. Pois é, mas essa é a realidade. Ao menos na visão de Thiago de Souza.
— O estádio Stravos Papadopoulos é o mais assombrado do mundo porque tem vários tipos de assombração. Tem as nativas de lá, as que são ligadas a pessoas que passaram por lá, tem no campo, nos quartos… Tem um jogador que presenciou a noiva morta de outro jogador dentro do alojamento. Será que o estádio é um portal? — indaga o especialista.
Esta história da noiva, especificamente, ficou famosa no ano de 2009. Na época, o Jacareí Atlético Clube, principal time da cidade, disputava a Série B do Campeonato Paulista — que, apesar do nome, equivalia à quarta divisão estadual. Cerca de 20 jogadores, de 17 a 24 anos, moravam no alojamento do estádio, um dos únicos lugares da estrutura (além de banheiro e cozinha) que contava com energia elétrica.
Douglas e Éderson eram dois atletas do JAC que dividiam um dos quartos. Numa noite, às 3h, Éderson acordou e viu um vulto branco ao lado do colchão do amigo. Se assustou, forçou a visão e trocou olhares com a mulher, que deixou o quarto imediatamente.

O episódio só virou assunto entre os dois dias depois, quando Douglas confessou que tivera pesadelos e sentira o corpo pesado durante à noite. Éderson, então, contou o que viu e perguntou sobre a mulher. Douglas imediatamente lembrou da ex-noiva, que havia falecido. E as características da moça bateram com as do fantasma.
— Para mim, essa coisa de espíritos não faz diferença. Mas, na hora que você vê, fica receoso porque não sabe o que é. Quando cheguei aqui, sempre conversava com meus pais no telefone que fica na beira do campo. Era mais de meia-noite, e eu sentia que tinha gente atrás de mim, me observando. Olhava e nada. Meu corpo inteiro se arrepiava. Quando você vê essas coisas, fica meio assim. Não estamos acostumados a ver isso, mas pude comprovar que é verdade — afirmou Éderson em entrevista ao “ge”.
São inúmeros os relatos sobrenaturais no estádio que leva o nome de um empresário grego, que administrou o time da cidade a 90 quilômetros de São Paulo, no início dos anos 2000. Há quem tenha ouvido barulhos nos corredores vazios, gritos nas arquibancadas e vultos correndo pelo campo à noite.
O que também assusta são oferendas encontradas atrás de moitas nos arredores do estádio que, segundo os locais, seriam para magia negra. A explicação dada por Benedicto Sérgio Lencioni, historiador, ex-prefeito da cidade e autor de oito livros sobre o município, é que o estádio de Jacareí está numa região onde existia um sítio arqueológico indígena. Só podia ser…
7. O goleiro fantasma da Ferroviária de Araraquara
Ainda no interior de São Paulo, viajamos para Araraquara, a 276 quilômetros da capital. Foi lá que um goleiro uruguaio se tornou lenda do futebol local durante a década de 50.
Antonio Sandro, nascido em 1919, chegou para reforçar a Ferroviária depois de passagens marcantes por Nacional, Sanjoanense, Olaria, Rio Pardo, Taubaté e América de Rio Preto. Com a fama de “goleiro voador” pela imponência na meta, Sandro se tornou o primeiro jogador com contrato profissional da história da Ferroviária, em 1951 — o clube tinha um ano de vida.
O uruguaio fincou raízes em Araraquara, mas virou vilão dois anos depois. Isso porque, na segunda divisão do Paulista de 1953, Sandro foi o culpado pela derrota por 2 a 0 para o Noroeste, que fez com que o time de Bauru subisse à primeira divisão e a Ferroviária ficasse na série de acesso. O goleiro foi perseguido pelas falhas e se aposentou naquele mesmo ano, apesar de continuar morando na cidade. Ele morreu em 1988, vítima de um AVC, ainda em Araraquara.

Mas só em 2013 fomos descobrir que sua alma não descansou. Naquele ano, a Ferroviária novamente estava na divisão de acesso e, dessa vez, escapou de um novo rebaixamento graças apenas a uma combinação improvável de resultados na última rodada. Era o 18º ano seguido longe da elite, o que motivou alguns torcedores e funcionários a buscar ajuda em outra dimensão para quebrar a maldição.
Em junho daquele ano, o casal de caça-fantasmas brasileiro, Rosa Maria Jacques e João Tocchetto de Oliveira, foi convidado a entrar na Arena Fonte Luminosa para encontrar uma resposta aos seguidos anos de fracasso. Com um aparelho medidor de campo eletromagnético, duas câmeras e uma dose de sensibilidade, adivinha quem eles encontraram? Ele mesmo: Antonio Sandro.
Ao lado dos espíritos de um massagista e de um jornalista, o goleiro, magoado com o que aconteceu 60 anos antes, foi apontado como responsável sobrenatural por impedir o sucesso da Locomotiva dentro de campo. Rosa Maria conversou, se emocionou e, segundo disse ao “ge”, convenceu o trio a deixar o estádio e enfim descansar.
— Não é possível dizer que o time vai conseguir o objetivo no ano que vem, como todos desejam. Mas tenho certeza que o peso em cima dos jogadores, da diretoria, será menor, o caminho estará mais livre. Espero que dê tudo certo e o time consiga voltar à primeira divisão — afirmou a caçadora ao “ge”.
A Ferroviária não conquistou o acesso em 2014, mas sim em 2015 — e só voltaria a ser rebaixada em 2023. Desde então, a Locomotiva não voltou mais à elite estadual e, apesar de conseguir disputar o Campeonato Brasileiro da Série B, caiu imediatamente depois. Pode ser que valha outra visitinha paranormal.



