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Espalhar o talento e criar mais atacantes: os planos de Arsène Wenger para o futebol

O diretor de desenvolvimento global da Fifa quer melhorar o nível de educação ao redor do mundo e recuperar especialistas em, entre outras coisas, fazer gols

Ok, aquela história de fazer Copa do Mundo a cada dois anos foi bizarra. Ele estava errado. Mas Arsène Wenger sempre foi um grande pensador do futebol, pioneiro em muitos métodos de preparação e treinamento nos anos noventa, e a tendência a filosofar sobre o jogo apenas se aprofundou desde que ele assumiu o cargo de diretor de desenvolvimento global da Fifa, em 2019, pouco depois de encerrar o seu histórico trabalho à frente do Arsenal.

Em uma longa entrevista com o Independent, explicou algumas das suas ideias, problemas que precisam de atenção, com destaque para a formação de jogadores, sempre cara a um treinador que ficou famoso por contratar garotos franceses – e de outros países também. Não é uma opinião inédita, mas acredita que o futebol precisa se fortalecer além da Europa. E começar a produzir mais centroavantes. Ele sente falta dos centroavantes.

– Quando eu sento aqui e penso que tenho que melhorar o futebol no mundo, eu percebo que isso não é fácil, sabe. Eu preferiria dizer: me dê um time e eu vou lá embaixo mostrar o que posso fazer. Mas uma vez sentado aqui, eu digo: quantos países? 211? Ok, muito obrigado. Eu entendo que quando estava no Arsenal eu não me importava muito com isso porque eu tinha que vencer o próximo jogo. Quando você tem uma visão global do mundo do futebol, percebe que algo não está certo. Eu acredito que o futebol pode mudar o mundo. Não apenas o lado do futebol, mas o lado humano. Esse é o próximo passo – começou Wenger.

Wenger quer espalhar o talento

Wenger disse que analisou 205 países e concluiu que há um déficit de educação. Com isso, ele quer dizer identificação de talentos, programas de treinamento, qualidade do treino, qualidade de competições e integração ao time principal. Na sua visão, isso contribui para concentração de talento, e dinheiro, em alguns poucos clubes e ligas.

– Acredito que a globalização concentrou o dinheiro grande em poucos clubes. Esses poucos clubes têm um potencial imenso e o resto do mundo vê a Premier League. Então o que um cara na China ou na África do Sul faz de manhã? Ele pensa na Premier League. Por quê? Porque os melhores jogadores atuam lá e isso fortalece a Premier League cada vez mais, então isso significa que a concentração de dinheiro em um pequeno número de clubes até inflaciona o mercado.

– E uma vez que você tem todos os melhores jogadores do mundo na mesma liga, isso significa que, se eu tenho um jogador chinês na Premier League, toda a China vê a Premier League. Isso fortalece ainda mais aquela superioridade. O que eu quero criar é que, em Angola, por exemplo, também produzamos jogadores que são bons o bastante para formar qualidade em seu próprio campeonato, que aquele cara tenha uma escola: sim, eu ainda vejo a Premier League, mas algo também está acontecendo na minha liga. Temos alguns bons jogadores aqui também. Criar interesse. É por isso que eu digo que o déficit de educação hoje em dia é prejudicial à qualidade dos campeonatos e também à qualidade das seleções mundialmente.

– O que basicamente descobrimos analisando o mundo inteiro é que há uma correlação enorme entre a qualidade do sistema educacional e os resultados do primeiro time. Essa foi a matemática. Propusemos para cada associação membro ajudá-las a desenvolver a educação. Basicamente, se você não tem educação na vida, você não tem chance, então meu propósito foi obviamente mudar isso. Por exemplo, as audiências de televisão na Índia são muito altas, na China, muito altas, mas os jogadores não são educados no mesmo ritmo. O que queremos é fornecer a eles a capacidade de jogar. Esse é nosso objetivo – completou.

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O importante é a qualidade da educação

Perisic, ao lado de Modric e Kovacic, outros veteranos da Croácia (Foto: JACK GUEZ/AFP via Getty Images/One Football)

Citou como um exemplo a Costa do Marfim, um “país de futebol” que teve jogadores como Yaya Touré, Didier Drogba e Kolo Touré, que não teve um jogo oficial de categorias de base há cinco anos, segundo ouviu do presidente da federação. É importante, porém, que essa educação não seja rígida. Os jogadores ainda precisam de liberdade para se expressar e jogar como se estivessem no parque – ou nas ruas.

– É a qualidade da educação. O que caiu nas últimas gerações é, claro, o futebol de parque desapareceu e agora a tendência em algumas academias é recriar novamente o que aconteceu antes. O próprio jogo é um bom treinador. Por quê? Porque se eu jogo no parque, eu tenho que tomar decisões. Se eu for perspicaz o suficiente para pensar por que algo não deu certo e fazer a avaliação certa, na próxima vez que estiver na mesma situação, estarei correto. Perdemos isso um pouco. E talvez haja um pouco excesso de orientações às vezes e perdemos um pouco daquela liberdade, aquela criatividade, aquele treinamento personalizado individual que acontecia antes – disse.

A qualidade da educação é o segredo do sucesso de países pequenos como Croácia e Uruguai no cenário internacional de seleções, segundo Wenger.

– O que descobrimos que explica países como Croácia e Uruguai, que são pequenos, três milhões de pessoas, é que um certo número de bons jogadores em uma superfície pequena é mais importante que um certo número de bons jogadores em uma superfície grande. Eu percebi 40 anos atrás quando estudei a Holanda. Eu quero colocar o melhor com o melhor porque eles jogam entre si, estimulam um ao outro. Isso explica países como Holanda, Croácia e Uruguai.

– Eles continuam criando times e jogadores porquê tem um nível alto de educação e identificação de talento. A Croácia esteve entre os quatro melhores das últimas duas Copas do Mundo. Isso significa que o sucesso não está limitado aos países grandes. É apenas limitado à qualidade de educação e organização. O futebol internacional está premiando a qualidade do trabalho educacional. O futebol de clubes, e sou um grande fã dos grandes clubes, é sobre o recrutamento dos melhores jogadores do mundo inteiro. É fantástico, mas acho que você precisa dos dois, para dar uma chance a todos.

– Por exemplo, a Croácia não pode competir com seus clubes, no nível mais alto, porque os jogadores vão embora cedo. Eles voltam e competem pelo time nacional, então são recompensados pela qualidade do trabalho. Esse é nosso objetivo. Na África, a mesma coisa. Na Concacaf, a mesma coisa. Eu voltei da Austrália, e o futebol não pode ser parado – completou.

Wenger, porém, alerta para um potencial problema econômico se o desenvolvimento dessa educação chegar a alguns países, como os Estados Unidos, por meio de academias privadas, porque naturalmente nem todo mundo conseguiria bancá-las.

– O que temos em alguns países é a falta de cultura do futebol. A falta às vezes de estruturas e, em alguns países, as academias privadas tomaram conta. Uma criança pobre não pode pagar para entrar em uma escola de futebol. É exatamente o inverso do que queremos fazer. Você pode jogar com uma laranja ou fazer uma bola com papel. É por isso que o futebol é tão popular. Mas hoje em dia, se você quiser criar um bom nível de educação em futebol, em alguns países você não encontra.

– Eu não acho que isso é certo porque, em muitos países, há iniciativas privadas, mas os pais têm que pagar para as crianças entrarem. Para mim, não importa se você é rico ou pobre. Se você for bom, pode entrar. Nossas academias são grátis, abertas apenas ao talento. Você tem que se adaptar e encontrar uma solução em cada país – disse Wenger, cuja empregadora, a Fifa, está financiando 25 academias de excelência para captar jovens talentos ao redor do mundo.

Cadê o centroavante?

Na opinião de Wenger, o desenvolvimento do futebol e o foco em trocas de passes (valeu, Guardiola) levou à criação de jogadores mais completos e, por outro lado, há menos especialistas. Como, por exemplo, centroavantes que pensam apenas em botar a bola nas redes.

– Eu acho que o futebol melhorou dramaticamente no mundo inteiro, mas algumas posições hoje em dia são mais difíceis de encontrar porque talvez a evolução e a qualidade dos treinamentos tenham reprimido qualidades de luta naturais no jogo posicional. A ênfase está mais na qualidade do passe, qualidade do treino. O que você perdeu do futebol mais selvagem é, se você for a uma sessão de treinamento agora, ela será construída para começar com passe, depois disso, qualidade da posse.

– Antes, os campos de treinamento não eram bons, então você tinha que levantar a bola para o centroavante. O centroavante tinha que lutar para ter a bola, então, naturalmente, você desenvolve qualidades que, com o passe, você desenvolve um pouco menos. Se você for jogar no parque, você pensa que tem que fazer gols para ganhar o jogo. Então, tem que lutar. Da mesma forma, a marcação homem a homem desapareceu, então é mais fácil pegar a bola. Você é menos confrontado com a luta. Você vê isso na Alemanha. Desde que eles jogam defesa por zona, eles não produzem mais atacantes.

– Se você olhar para a evolução global, nos afastamos de defensores que apenas defendem, de atacantes que apenas atacam, de alguns meias que defendem e alguns que atacam, para ser mais exigente pelo pacote completo. Tecnicamente, hoje em dia, os jogadores em todas as posições precisam ser melhores porque as exigências são maiores que 30 anos atrás. O ritmo é maior, o lado atlético é maior. Então, hoje em dia, o lateral direito é tecnicamente melhor, o zagueiro é tecnicamente melhor. Claro, você tinha exceções no passado, mas talvez tenha afastado a especificidade. A criatividade de alguns jogadores por causa do ritmo.

– No geral, cada jogador em cada posição precisa ser um jogador mais completo. Eu diria que, por termos entrado em um jogo mais específico de passes hoje em dia, a exigência para o atacante marcar é menor que antes. Jürgen Klinsmann fez um argumento interessante na Copa do Mundo sobre isso. Ele me disse: ‘eu jogava com apenas uma coisa em mente: tenho que marcar. Eu sinto que os atacantes hoje em dia são julgados pelo próprio jogo por como combinam com outros jogadores. Eu julgava meu jogo apenas em se marquei ou não’ – acrescentou.

Haaland, um ponto fora da curva

Manchester, England, 11th April 2023. Erling Haaland of Manchester City has a shot on goal during the UEFA Champions League match at the Etihad Stadium, Manchester. Picture credit should read: Gary Oakley / Sportimage – Photo by Icon sport

Erling Haaland, quebrando recorde atrás de recorde na Premier League, é naturalmente citado como um exemplo que foge a essa regra.

– No fim do dia, não importa o que você faça, é sempre sobre a qualidade de quem dá a bola e de quem a coloca na rede. É verdade que você encontra mais bons passadores agora que finalizadores. E você pode desenvolver essas qualidades. Eu acho que é algo que será abordado. Agora, depois dos 15 anos, temos que começar especialização e jogo posicional. Finalizar sob pressão, finalizar sendo desafiado e a qualidade do movimento. Colocar a responsabilidade nos ombros deles, que o foco deles todos os dias é marcar, fixar os alvos. Então talvez criemos escolas de atacantes, internamente dentro do clube, ou um trabalho mais específico. Eu acho que isso está em andamento para acontecer no momento.

– Se eu olho para Haaland, ele é, para mim, o verdadeiro atacante típico. Parece que ele está pronto para lugar, pronto para focar em apenas fazer gols. Como Giroud é um atacante de verdade em mentalidade, o que explica por que ainda está jogando aos 36 anos. E Ibrahimovic, Benzema, eles foram educados para a luta, eles foram educados para finalizar também. Na França, agora, você tem alguns bons atacantes novamente. Na Alemanha, que tinha grandes atacantes, eles têm menos. Eles estão pensando em como mudar isso novamente – acrescentou.

Melhorar o nível dos atacantes também significa, por consequência, melhor os zagueiros.

– No fim da minha carreira, você queria zagueiros que jogam a partir da defesa. Hoje, você quer zagueiros que jogam como camisa 10 e também defendem, que sejam durões. Lutar e jogar. É difícil sempre encontrar esse equilíbrio. O futebol é mágico para mim porque temos que ter um bom equilíbrio entre técnica, físico e tática. Então, por exemplo, uma das coisas que somos cautelosos para mudar é a regra de impedimento porque queremos manter o equilíbrio correto.

– Se eu enfrento Mbappé, por exemplo, a única vantagem que eu tenho é deixá-lo em impedimento. Se o impedimento for mais difícil, eu não tenho mais chances. Então, o que posso fazer? Quando o time dele tem a bola, eu posso correr para a área e esperá-lo. De resto, não tenho chance. Haaland é a mesma coisa. Então, quando você pressiona, a defesa tem que subir, e há espaço atrás de mim. Contra jogadores rápidos, fica ainda mais difícil. Esse é um bom exemplo da evolução do jogo. O ataque lhe dá um novo problema. A defesa responde analisando sua superioridade. Então o ataque encontra uma nova solução e cria um novo problema.

– Então o que você pouco a pouco luta contra a pressão? Torna os jogadores melhores tecnicamente. Evolução é criada por oposição – completou.

Todo mundo pensa igual no mercado

O mercado acabou de fechar nas principais ligas europeias, e o diagnóstico de Wenger é que os principais clubes decidiram que contratar jogadores no auge dos seus poderes ficou caro demais. Estão focando em jovens, mas o problema é que todo mundo pensa igual.

– O que eu acho que está acontecendo agora é que os clubes acham que jogadores que já se confirmaram são muito caros. Eles tentam lutar pelos mais jovens. Estão pensando que conseguem contratá-los por um preço menor. O fato de que todo mundo pensa igual faz com os preços dos jogadores jovens subam, na minha opinião. Por quê? Porque é com 19, 20, 21 anos que você vê se o jogador tem capacidade de lidar com a pressão.

– Para os jogadores confirmados, os altos patamares de transferências são acompanhados por altos salários, e mesmo clubes como o Real Madrid não conseguem lidar com os dois. Qual a tendência nos maiores mercados? Eles fazem os jogadores chegarem ao fim dos seus contratos para conseguir dar a eles os salários que eles querem. E agora parece que a competição da Arábia Saudita aumentará isso, então, no geral, eu diria que há mais luta pelos jovens.

– Mas duas questões. O mundo produz bons jogadores o suficiente? Eu acho que não, e acredito também que os preços dependem da identidade do comprador. Se ele (apontando para um assessor de imprensa da Fifa) for presidente do Young Boys amanhã, e eu estou no Arsenal, eu o abordo. ‘Quem você é? Arsenal. Ok. Inglês. Eu tenho um bom jogador’. Na Suíça, ele venderia por £ 5 milhões. Na Inglaterra, por £ 50 milhões. Então a identidade do comprador fixa o preço – encerrou.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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