Mundial de Clubes: Saldo zerado é motivo de alarme para o futebol africano?
Nenhuma das equipes africanas conseguiu vaga no mata-mata do torneio
Zero clubes africanos nas oitavas e apenas duas vitórias simbólicas… O balanço é duro. Mas é motivo para alarme? Veja o que ficou das atuações dos representantes do continente na primeira Copa do Mundo de Clubes expandida.
Zero vitórias — mas qual é o contexto?
No papel, o desempenho dos clubes africanos foi decepcionante: todos os quatro representantes — Wydad Casablanca, Al Ahly, Mamelodi Sundowns e Espérance Tunis — foram eliminados ainda na fase de grupos. Além disso, somaram apenas duas vitórias em 12 jogos.
À primeira vista, parece um fracasso coletivo. Mas seria simplista demais resumir dessa forma. O contexto esportivo precisa ser levado em conta: os grupos estavam recheados de gigantes do futebol mundial como Manchester City, Juventus, Borussia Dortmund e Porto, além dos brasileiros Fluminense, Flamengo e Palmeiras. Desde o início, a missão era quase impossível.

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Clubes africanos em má fase
Também não dá para ignorar o momento ruim de várias dessas equipes. O Wydad, por exemplo, vive uma crise há dois anos. Os reforços de última hora não foram suficientes para evitar o fiasco. O Espérance Tunis vem decepcionando nas competições continentais. O Al Ahly, recém-derrotado na final da Liga dos Campeões da África, mostrou cansaço evidente, e o Mamelodi Sundowns entrou no torneio ainda abalado pela surpreendente derrota na final da Champions Africana.
Com esse cenário, seria difícil esperar milagres. Ainda mais levando em conta que, assim como os clubes europeus, os africanos também encerram a temporada nesse período do ano, o que implica em desgaste físico e mental.
Nada tão vergonhoso: sinais de esperança
Apesar dos resultados, nem tudo foi negativo. Houve momentos em que os africanos mostraram que podem competir em alto nível.
O Al Ahly, por exemplo, empatou em um jogo insano contra o Porto (4 a 4), tornando-se o primeiro clube africano a marcar quatro gols contra um time europeu na história da competição. O Wydad chegou a pressionar o Manchester City e quase empatou o jogo no primeiro tempo, que terminou 2 a 0 para os ingleses.
Já o Mamelodi Sundowns, com seu futebol vistoso elogiado internacionalmente, deu trabalho ao Borussia Dortmund e quase buscou o empate, apesar da derrota por 4 a 3. O Espérance Tunis venceu o Los Angeles FC por 1 a 0, garantindo uma das duas vitórias africanas, a outra dos próprios Sundowns contra o Ulsan HD.

No geral, os clubes africanos não fizeram feio em campo. A história poderia ser diferente se o Al Ahly tivesse aproveitado suas chances no empate sem gols contra o Inter Miami, desperdiçando inclusive um pênalti. Isso mostra que o famoso “teto de vidro” pode ser quebrado com mais investimento e estrutura.
Domínio continental ainda está longe
O que preocupa, na verdade, são as limitações estruturais. O potencial dos talentos africanos, principalmente da África Subsaariana, é imenso, mas segue subaproveitado por falta de organização, falhas na formação de atletas, infraestrutura precária e um sistema econômico que não favorece os clubes.
Como destacou o jornalista Osasu Obayiuwana nas redes sociais: “Nossos dirigentes não estão trabalhando seriamente para desenvolver o futebol africano.” O problema não é novo, mas o Mundial de Clubes expôs novamente essas carências.
What the #African teams at the #FIFACWC – @ESTunis1919, @AlAhly, @WACofficiel & @Masandawana – remind us of, sharply, is that we have a lot to do to effectively compete with clubs like @FluminenseFC, @BVB, @realmadrid & @ChelseaFC. No one will develop ⚽️ in #Africa, if we don’t… pic.twitter.com/2hwS6HLABz
— Osasu Obayiuwana (@osasuo) June 26, 2025
Realidade econômica pesa
Além disso, a disparidade financeira é gritante. Dos 32 participantes, os clubes africanos estavam entre os oito elencos com menor valor de mercado:
- Al Ahly: € 49,65 milhões (cerca de R$ 290 milhões)
- Mamelodi Sundowns: € 35,25 milhões (cerca de R$ 205 milhões)
- Espérance Tunis: € 20,35 milhões (cerca de R$ 120 milhões)
- Wydad Casablanca: € 18,29 milhões (cerca de R$ 107 milhões)
Num futebol cada vez mais dominado pelo dinheiro, a África parte em clara desvantagem. Não por falta de talento — isso sobra. Mas sim por falta de estrutura, investimento e gestão eficiente.
O copo meio cheio
O saldo não é positivo, mas também não representa uma catástrofe. É o reflexo de um futebol africano em transição, que ainda sofre com a falta de recursos, de estabilidade e de organização no continente.
O maior problema nem é a eliminação precoce, mas sim a dúvida sobre a capacidade de aprender com os erros. A segunda edição da African Football League, vista como uma possível alavanca de desenvolvimento econômico, segue travada. Sem reformas profundas e vontade política, os clubes africanos continuarão correndo atrás de feitos isolados por muito tempo.

O texto foi originalmente publicado no Afrik-Foot, parceiro da Trivela no continente africano.



