Mundial de Clubes

O Marcelismo no Fluminense do Mundial de Clubes é pura arte!

Veterano craque do Fluminense tirou da cartola um lance de brasilidade para desenrolar a semifinal do Mundial. Time de Diniz continua se expondo demais para jogar. Mais equilíbrio será fundamental na decisão.

Respeito todas as explicações para a vitória do Fluminense sobre o Al Ahly que garantiu a vaga na final do Mundial de Clubes. Respeito quem credite ao estilo de jogo batizado de Dinizismo, à estrela de John Kennedy, à segurança de Fábio e até a uma certa ingenuidade dos atacantes do bom time egípcio na cara do gol.

Peço que respeitem a minha explicação: a vitória do Flu nasceu do Marcelismo. Essa arte em extinção do jogador de bola brasileiro. Marcelo tirou da cartola uma jogada de puro improviso, num momento especialmente difícil da partida. A caneta, o drible e a criatividade que obrigaram o sul-africano Percy Tau a cometer o pênalti que Arias converteu. Como escreve o mestre Alberto Helena Júnior: “fiat lux”.

Marcelo pertence a uma espécie ameaçada de extinção: o craque genuinamente brasileiro. É uma delícia ver o lateral do Flu em campo. Antes do lance em que sofreu o pênalti, ele quase havia marcado em outra grande jogada, pelo lado direito, trazendo para o meio e batendo de pé esquerdo. Os toques na bola de Marcelo nunca são óbvios. Assim como suas declarações. Admitir que a execução do lance genial da caneta saiu sem querer é coisa de gente fina, elegante e sincera. Ele tentou algo naquela hora, um drible, uma jogada para criar o lance do gol. Saiu daquele jeito porque ele ousou tentar e pensar fora da casinha.

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Mais famoso, Marcelo também foi dos melhores em campo

Aos 35 anos, Marcelo era o jogador mais famoso em campo na semifinal entre Flu e Al Ahly. Passou 15 temporadas no Real Madrid, onde foi ídolo e venceu, entre outras, cinco vezes a Champions League e quatro o Mundial de Clubes. Um olhar frio sobre as estatísticas de Marcelo no jogo de Jedá pintaria um quadro pouco atraente. Mas para quem vê no futebol além das planilhas, Marcelo foi pura arte e definiu o confronto na única falta que sofreu na partida.

Sobre o jogo, antes do triunfo do Marcelismo, o Fluminense escapou de boa na primeira etapa. Sofreu 13 conclusões, deixou o adversário dominar e quase sucumbiu à entusiasmada estratégia do time egípcio. Mandou duas bolas na trave, mas viu Fábio fazer defesas importantes, e Samuel Xavier praticar uma “defesa” decisiva. Na segunda etapa, passado o nervosismo tradicional dos times brasileiros nas semifinais de Mundial, o Flu se assentou em campo e foi superior.

Números não contam toda a história de Fluminense x Al Ahly

Mas os números, se não contam toda a história do jogo, trazem informações importantes para a final (provavelmente contra o City). A equipe brasileira teve 65% de posse de bola e finalizou 14 vezes, contra 20 do rival. A turma de Diniz ofereceu seis contragolpes ao time egípcio, que joga assim desde o tempo dos faraós. Além disso, permitiu ao Al Ahly 13 finalizações de dentro da área! Diante de um adversário com a qualidade do City, números como esses são um convite à catástrofe.

O Dinizismo carece de boa dose de equilíbrio. Embora seja bonito de ver, como o jogo de Marcelo, esse estilo expõe demasiadamente a defesa e frequentemente se vê em situações de dois, três e até quatro contra um. Nino e André se desdobram para salvar o time nesse tipo de jogada.

Há uma situação em especial que provoca arrepios até no espírito imortal de Nélson Rodrigues: os escanteios a favor do Flu. Na busca pela recuperação da bola perto do gol num eventual rebote, o time posiciona seus dez atletas de linha dentro e em volta da área adversária. Quase sempre deixa na sobra jogadores lentos, exceção feita a André, que também está à espera de um rebote. Geralmente é um Deus nos acuda, uma profusão de contra-ataques que testam a frieza do goleiro Fábio e os corações tricolores das Laranjeiras.

Diniz não renunciará a suas convicções se fizer algumas concessões ao equilíbrio do time. Nem com tanta fome ao prato, nem com tanta sede ao pote, ensina o ditado popular.  

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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