Caneta de Marcelo habilita sonho do Fluminense: o melhor lugar do mundo é um coração tricolor
Foi na linda jogada de Marcelo que surgiu o gol que abriu o placar e deu ao Fluminense o direito de viver o sonho: a final do Mundial é logo ali
Eu era adolescente quando ouvi o Fiori Gigliotti, o do “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, dizer que os grandes jogos são as semifinais. É que a partir dali você entra nos mais intensos dias da campanha, aqueles tomados pela expectativa do grande momento, uma emoção prévia que preenche o tempo por si própria até a bola rolar adiante.
É como se as finais fossem ótimas de jogar, ainda mais de vencer, mas uma maravilha de se imaginar. Direto da Arábia Saudita, no Mundial de Clubes, nessa mistura de alegria com alívio, o torcedor do Fluminense foi convidado a viver a melhor semana de suas vidas, e isso basta, num 2 a 0 cuja função principal foi habilitar o sonho tricolor.
Não foi fácil para o Fluminense, como nunca é para times brasileiros
Não foi fácil, e quase nunca é, porque podemos pegar a frase do Fiori e acrescentar todo o pacote do Mundial de Clubes. Atravessar o mundo no final da temporada para enfrentar um rival de bom nível, vindo de um país com menos tradição futebolística que a nossa, jogando a sorte numa partida única longe de casa, com toda a obrigação do planeta de chegar à segunda partida e vislumbrando, ainda que meio às escondidas, o sonhado duelo contra a potência europeia.
Foi difícil, como sempre, mas a vitória veio ao estilo deste Fluminense, convicto em seu talento e capacidade coletiva ainda que superando as intempéries do caminho de um jogo aberto e cheio de chances para o rival.
É um privilégio jogar contra o Al Ahly, um clube enorme e popular, uma camisa pesada que mais uma vez paquerou um inédito lugar na final do torneio, mas ficou fora mesmo deixando boa impressão. O campeão da América não conseguiu fluir no primeiro tempo, e nem as duas bolas que carimbaram a trave fizeram parecer que o quadro brasileiro merecia ter vencido parcialmente o adversário do Egito.
Houve chances na frente do ótimo Fábio, o goleiro do ano no Brasil, e transições defensivas preocupantes. O jogo foi daquele jeito, muito vivo, à moda dum Fluminense que não teme deixar espaços enquanto se esforça para fazer o seu jogo.
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Marcelo, quando nada estava ganhou para o Fluminense, foi lá e ganhou
As espetadas africanas não cessaram, mas a qualidade brasileira foi encontrando sua melhor confiança, até que surgiu Marcelo para destravar a aflição e indignar os secadores. O menino (de 35 anos) da casa chacoalhou a tensão achando uma caneta definitiva: a bola passou por entre as pernas do marcador e a cobra criada, meia vida de Rio de Janeiro, meia vida de cabeça erguida no Real Madrid, deu seu último respiro numa passada forçada à frente que encontrou o inevitável contato com o defensor.
Um pênalti mínimo, uma cavada bem-sucedida, num jogo de corpos que também é de enganar e arriscar em cada pedacinho de campo. Jhon Arias caprichou para abrir o placar no já distante minuto 71, ufa.
O time ficou mais à vontade, o que nesse caso não quer dizer necessariamente mais seguro. Apareceram buracos na defesa que não viraram empate porque faltou precisão e sobrou um goleiro iluminado – tem os que chamam gol, mas Fábio é o oposto, numa fase em que a bola o procura. E apareceu o lance definidor desse elenco.
John Kennedy, o heroi de novo, imagem e semelhança do Fluminense de Diniz
A saída de bola que se insiste em dizer que é arriscada vira um toque de letra de André, 22, debochando dos suspiros; a posse que poderia ser controlada e burocrática dá numa arrancada por dentro de Martinelli, 22, no jogo de sua vida; o peso dos grandes momentos se acalma nos pés de John Kennedy, 21, o herói mais do que provável, o menino que guarda, guarda e guarda. Gol.
À imagem e semelhança deste Fluminense, tão formado em Xerém quanto forjado pela confiança de Fernando Diniz, numa jogada que viverá como síntese de um time histórico.
Comecei falando que os grandes jogos são as semifinais e aqui tenho ainda mais certeza, porque essa turma garantiu, independentemente do que acontecer na final de sexta-feira, a temporada ideal. Um título estadual com goleada sobre o arquirrival local, a Copa Libertadores e agora a vitória naquele jogo que não se pode perder, e que deixou tanta gente graúda recentemente (Atlético-MG, Internacional, Palmeiras, Flamengo) precisando responder sobre vexame, vergonha e outros carimbos dessa partida traiçoeira que vem atrapalhar a vida depois da glória eterna.
Daqui até a decisão o melhor lugar do mundo é num coração tricolor, e os próximos 90 minutos não são mais capazes de abalar tamanha euforia.




