Atlético, Porto, River e Boca: O que explica as eliminações precoces no Mundial?
Europeus e sul-americanos são as grandes decepções desta Copa do Mundo de Clubes, fracassos com motivos além do campo
Enquanto os quatro times brasileiros fizeram campanhas interessantes no Mundial de Clubes e empolgaram os torcedores, outros clubes, por diferentes motivos, decepcionaram na competição. Entre os europeus, seja por desempenho ou resultado, Atlético de Madrid e Porto foram os destaques negativos. Dos sul-americanos, River Plate e Boca Juniors entram nesse recorte.
Todos foram eliminados na fase de grupos por motivos que não se justificam apenas pelo nível abaixo mostrado em campo, mas também por decisões fora dele.
Boca Juniors optou por caminho ‘preguiçoso’ em gestão ruim de Riquelme

Ídolo incontestável dentro de campo, Juan Román Riquelme ingressou na carreira política dentro do time de Buenos Aires e tem manchado sua imagem frente à torcida. Eleito como o presidente com mais votos na história do clube (30.318) em 2023 (mas desde 2019 como vice-presidente de futebol), o ex-jogador tem optado por uma gestão com muita rotação de treinadores.
Desde que assumiu como vice-presidente, a chapa de Riquelme (presidida por Jorge Amor Ameal entre 2019-2023) teve oito treinadores diferentes, sendo que o interino Mariano Herrón assumiu quatro vezes em seis anos e Miguel Ángel Russo teve duas passagens.
Inclusive, Russo, experiente treinador de 69 anos, é o atual comandante, assumindo antes da Copa do Mundo de Clubes, uma aposta que dá para ser chamada de “preguiçosa” pela pouca criatividade e por recorrer ao comandante da maior conquista xeneize em mais de 15 anos, a Libertadores de 2007.
No período com Riquelme na presidência, o Boca caiu nas oitavas de final da Copa Sul-Americana em 2024 e, neste ano, foi eliminado na fase prévia da Libertadores para o Alianza Lima. No futebol local, não alcançou nada expressivo além de duas semifinais, uma da Copa Argentina e outra da Copa da Liga.
Não havia a menor expectativa para um Mundial de Clubes competitivo e foi isso que aconteceu. Mesmo que tenha empatado com o Benfica e marcado um gol na derrota ao Bayern de Munique, o time pareceu “achar” esses gols na mística, aura que carrega na camisa e por causa da torcida empurrando nas arquibancadas.
O empate com os amadores do Auckland City, sofrendo gol de um jogador que se divide com a profissão de professor, mostrou a realidade da gestão Riquelme, sem continuidade e com um elenco envelhecido, lotado de medalhões. Parte desses jogadores mais velhos, acima dos 30 anos, devem sair após a competição, como Sergio Romero, Marcos Rojo, Fabra e Advíncula.
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River Plate vê ‘Gallardo 2’ com pouco resultado

Toda a expectativa para o retorno de Marcelo Gallardo, em agosto do ano passado, ainda não se cumpriu. Mesmo com altos investimentos, repatriando campeões do mundo e outros bons nomes da América Latina, o River só decepciona na segunda passagem do técnico mais vencedor de sua história.
A final da Libertadores 2024 acontecer em sua casa, o Monumental de Núñez, não foi suficiente para os jogadores e o treinador fazerem um jogo competitivo contra o Atlético Mineiro na semifinal, vendo o Galo avançar para perder o título para o Botafogo.
A eliminação marcou como Gallardo não conseguiu tirar o melhor de uma dupla que tem tudo para ser a melhor da Argentina em alguns anos. Claudio Echeverri e Franco Mastantuono foram reservas na ida e volta com o Atlético. O primeiro está no Manchester City desde janeiro deste ano e o segundo a caminho do Real Madrid.
O comandante aprendeu que deveria usar a joia Mastantuono apenas em 2025, mas não foi o suficiente para fazê-lo campeão do Apertura do Campeonato Argentino, caindo para o Platense nas oitavas.
No Mundial, o jovem já estava consolidado, porém, novamente, não conseguiu carregar os Millonarios, que, mesmo só confirmando sua eliminação com a derrota para a Internazionale, deveriam ter garantido a vaga no mata-mata no duelo anterior com o Monterrey, finalizado em 0 a 0.
A despedida de Mastantuono é outra parte negativa que não só o River Plate enfrenta, mas toda América do Sul. O time perderá sua joia assim que completar 18 anos, como aconteceu com Endrick e acontecerá com Estêvão, ambos do Palmeiras.
O futebol brasileiro, cada vez mais rico frente aos concorrentes argentinos, também é algo que justifica a fase da dupla argentina, que não vence um título continental desde 2018. Isso, porém, não quer dizer que os Millonarios e o Boca Juniors não tenham dinheiro.
Com alto número de sócios torcedores, estádios lotados, venda de promessas à Europa e capacidade financeira acima que os demais times da liga argentina, eles podem gastar muito. O lado azul e amarelo vem de 42,6 milhões de euros (R$ 270 milhões) investidos no último ano, enquanto o River trouxe Kevin Castaño e Sebastián Driussi, dupla de mais de 23 milhões de dólares (R$ 126,2 milhões).
Em crise financeira, Porto vive relação conturbada com torcida

A troca na presidência do Porto após 42 anos de mandato de Jorge Nuno Pinto da Costa não veio por acaso. André Villas-Boas venceu a eleição contra o histórico presidente (falecido em fevereiro de 2025) para mudar a realidade de um clube extremamente endividado.
Assumindo em maio do ano passado, o ex-técnico ainda não conseguiu mudar a realidade dos Dragões, que somavam dívida financeira líquida de 251 milhões de euros (R$ 1,6 bilhão) em 31 de dezembro de 2024.
Junto de um passivo pesado, os Dragões pararam de ter resultados em campo. São duas temporadas seguidas sem ao menos lutar pelo título português. No primeiro ano com Villas-Boas, o técnico Vítor Bruno durou sete meses no cargo, sucedido por Martín Anselmi (mais técnicos do que nas últimas sete temporadas, todas sob comando de Sergio Conceição).
A chegada do argentino foi uma aposta ousada do novo presidente, visto que o técnico que nunca tinha trabalhado na Europa e, até agora, se mostra sem resultados, especialmente com a disputa da Copa do Mundo de Clubes.
Com potencial para ser primeiro colocado do grupo A do torneio, o Porto acabou como o terceiro, com campanha igual ao egípcio Al Ahly. Em três jogos, empatou com o Palmeiras e os africanos e perdeu para o Inter Miami.
O protesto da torcida no retorno a Portugal é a prova que o Mundial importava, assim como a pressão para uma nova troca na comissão técnica. A relação da torcida portuguesa com o clube tem estado quente nos últimos meses, até com perseguição a jogadores em festa.
Distante de Real e Barça, Atlético de Madrid aceita ser coadjuvante em tudo

Os 188 milhões de euros (R$ 1,2 bilhão) investidos na última janela de transferências pareciam um recado do Atlético de Madrid a Real Madrid e Barcelona que o “primo pobre” ia voltar a disputar o título de LaLiga, não conquistado desde 2021, e um novo ânimo para Diego Simeone. Mas não aconteceu.
Mesmo com tanto dinheiro gasto, o elenco colchonero manteve lacunas claras, especialmente na defesa e meio-campo, alguns dos novos nomes não corresponderam e acabou que o time não competiu por nenhum título, um cenário que também se explica pela disparidade financeira contra os dois gigantes locais.
O “cholismo”, há mais de uma década como a alma do Atleti, também parece desgastado e sem muito de onde extrair. O Mundial de Clubes foi uma continuação disso. Vencer Seattle Sounders e Botafogo, mesmo sem controlar os jogos, ficou ofuscado pela derrota acachapante para o PSG, responsável pela eliminação na fase de grupos.
A tendência é que os Colchoneros mantenham sua assinatura de coadjuvante na Espanha nos próximo anos. Não há qualquer indício de mudança no comando técnico, com Simeone tendo vínculo até o meio de 2027.



