Verde vivo

Jogos de Libertadores têm um estilo próprio. É preciso entrar na partida com outro espírito e usar outras ferramentas para se impor diante do adversário. Isso virou pensamento fixo, mas nem sempre pode ser aplicado. Em duelos de dois times do mesmo país, a realidade se distorce. Ainda que o clima de competição deva ser parecido, o conhecimento mútuo das equipes muda o cenário. O Sport pareceu não entender isso para enfrentar o Palmeiras. Por isso, perdeu.
A estratégia rubro-negra foi pressionar o adversário desde o início, usando a pressão da torcida para empurrar ainda mais os alviverdes para a defesa. No entanto, essa era uma partida que justificava uma postura um pouco diferente. O Palmeiras já enfrentou o Sport dezenas de vezes em sua história, sendo muitas delas nos últimos anos. Assim, não haveria motivos para os paulistas se surpreenderem ou intimidarem em excesso com o que encontrassem na Ilha do Retiro.
Nessas circunstâncias, o clube pernambucano poderia explorar as principais fraquezas palmeirenses antes do pontapé inicial: a queda de rendimento no último mês, a obrigação de vencer para seguir vivo na Libertadores e uma defesa muito lenta. Desse modo, uma blitz inicial se justificaria como modo de testar os nervos do adversário, mas o passo seguinte seria justamente cadenciar o jogo e aumentar a ansiedade dos visitantes. Com o tempo, surgiriam espaços para usar a velocidade que exporia a zaga alviverde.
Ocorreu justamente o contrário. O Sport tentou tomar a iniciativa desde o início e acabou se enervando com a dificuldade de abrir o marcador (algo que, aparentemente, o Leão achou que fosse conseguir na hora que bem entendesse). A defesa do Palmeiras, jogando na espera o adversário chegar, respondeu bem. Aos poucos, o meio-campo alviverde se soltou e os visitantes é que usaram contra-ataques e a tensão do oponente.
Com Diego Souza em dia inspiradíssimo e Keirrison sempre atraindo marcadores, a equipe de Vanderlei Luxemburgo tinha saída de bola e força ofensiva. Além disso, ficou evidente como o Palmeiras teve melhor entendimento das necessidades do duelo, se concentrando o suficiente para levar o jogo a sério, mas sem transformar isso em tensão desnecessária.
O resultado final – surpreendente pelo modo como vinham as duas equipes – acabou se desenhando com naturalidade. Um placar que embolou de vez o Grupo 1, salvou o primeiro semestre do Palmeiras e abalou a convicção rubro-negra na classificação. Pelo menos até o reencontro de ambos na próxima semana.
Nacional x Fabbiani
A vitória do Naional por 3 a 0 sobre o River Plate há duas semanas não terminou depois de 90 minutos – mais os acréscimos. O jogo, que foi tratado como clássico (platino) desde os dias anteriores, valeu muita polêmica, só abafada pela parada para os jogos das Eliminatórias da Copa. Motivo: jogadores bolsos acusaram Fabbiani, atacante riverplatense, de chamarem os uruguaios de “mortos de fome”.
No início desta semana, o clima ficou um pouco pior quando o mesmo Fabbiani disse que os Millonarios passariam por cima do Trico no Monumental de Núñez. Havia um evidente exagero, mas uma vitória argentina era possível e, principalmente, necessária para a luta pelas vagas do Grupo 3 nas oitavas de final. Uma boa oportunidade para testar o time uruguaio, que vinha com 100% de aproveitamento na competição.
Depois da partida, ficou evidente como os Bolsos responderam bem ao desafio. E que aparecem com um time realmente bom. O River Plate pressionou bastante no primeiro tempo, mas não suportou o ritmo e acabou se dobrando à maior organização do Nacional. O segundo tempo foi dos montevideanos, que saíram de campo com motivos para achar o 0 a 0 injusto.
O duelo nem Núñez talvez tenha sido um dos momentos mais altos do Nacional nos últimos anos. De qualquer modo, não dá para ignorar o excelente trabalho que tem sido feito no Parque Central. Em 2006, o Nacional chegou às oitavas de final. Foi eliminado pelo futuro campeão Internacional. Mas deu alguns sustos no Beira-Rio. No ano seguinte, os uruguaios eliminaram o Colorado e chegaram às quartas de final. Em 2008, deram um grande susto no Flamengo na fase de grupos e foi eliminado pelo São Paulo nas oitavas.
Nesse período, o clube chegou a ter jogadores conhecidos ou que vieram a se tornar conhecidos, como Fornaroli, Richard Morales, Bava e Abreu. Todos saíram, o que é normal diante da situação financeira dos clubes do Uruguai. No entanto, o Nacional sempre conseguiu remontar a equipe rapidamente. Aí, fica evidente o mérito do técnico Gerardo Pelusso.
O Tricolor é um time compacto, que usa seu toque de bola fácil e fluido para ditar o ritmo da partida. Como, tecnicamente, o time é formado por jogadores limitados ou inexperientes, não ainda não dá para sonhar com uma grande campanha do Nacional. Mas é um clube que merece ser visto com atenção. Para ele, não se aplica o clichê de que “os clubes uruguaios estão decadentes”.
Pênaltis decisivos
Depois de um início com muitas surpresas, um início de mata-mata privilegiando a tradição e um ensaio de susto nas semifinais, a Concachampions chega a sua final como se esperava: com dois times mexicanos. Nesta semana, Cruz Azul e Atlante asseguraram um lugar na final da principal competição de clubes da Concacaf. Nos dois casos, os times sofreram, tiveram de reverter as derrotas dos jogos de ida e contaram com pênaltis para se classificar.
O Cruz Azul passou pelo Puerto Rico Islanders com dificuldade. Depois de perder por 2 a 0 em Bayamón, os cruzazulinos não conseguiram mais do que devolver o mesmo placar. Na prorrogação, empate por 1 a 1. A classificação veio na disputa de pênaltis: 4 a 2 para os mexicanos.
O Atlante resolveu no tempo normal, mas também com sofrimento. Os Potros haviam perdido por 2 a 1 para o Santos Laguna no jogo de ida, em Torreón. Em Cancun, o time azul-grená vencia pelo mesmo marcador até os 48 minutos do segundo tempo, quando Rafael Márquez Lugo converteu pênalti cometido sobre Gabriel Pereyra.
Pelo modo como as duas equipes conquistaram a classificação, dá para colocar o Atlante como favorito. O time da península de Iucatã mostrou um espírito de competição muito maior. Diante de um adversário mais forte, buscou forças para fazer o resultado de que precisava.
Do outro lado, os Cementeros mostraram uma mistura de arrogância com enfado. Os portorriquenhos estavam exageradamente temerosos e deixaram o Cruz Azul construir sua vitória como bem entendesse. Nem assim os capitalinos conseguiram fazer 3 a 0. Na prorrogação, uma falta de concentração inconcebível permitiu ao Islanders marcar seu gol e obrigou os mexicanos a buscarem o empate.
Pela determinação apresentada e o fato de jogar a segunda partida em casa, o Atlante parece mais preparado para a final.



