México

Um problema esperado

Muito se fala sobre as grandes contratações que mercados emergentes como Brasil, Rússia e México vêm fazendo. O retorno de grandes craques nacionais e a chegada de estrelas estrangeiras e até europeias (caso da Rússia, principalmente) não mais surpreende a mídia esportiva. São países no qual o futebol é de longe o esporte preferido, levam cada vez mais torcedores aos estádios, e estão tornando-se cada vez mais rentáveis, fazendo com que seus clubes consigam pagar salários relativamente altos, atraindo estrelas promissoras e até adiando o sonho europeu de jovens jogadores.

O mercado mexicano sempre se destacou como referência nesse quesito. Em virtude da excelente saúde financeira de seus clubes, brasileiros, argentinos e latino-americanos em geral sempre utilizaram os bons salários pagos em solo azteca como alternativa ao futebol europeu. Muitas vezes até descartando a ida o Velho Mundo.

Essa possibilidade, contudo, sempre esbarrou em dois quesitos inigualáveis na disputa quando os clubes grandes europeus se interessam pelo mesmo atleta: segurança e qualidade de vida. São problemas de difícil resolução, já que independem dos clubes e dirigentes que tentam seduzir os atletas. Boa parte das propostas tem de ser aumentadas significativamente e, em alguns casos, mesmo com elas é impossível trazer as estrelas para esses países. Em alguns casos, somente jogadores em fim de carreira ou já sem expectativa de encontrar vaga em grandes centros chegam por aqui.

Na última semana, o atacante argentino naturalizado mexicano Guillermo Franco, ao ter seu contrato encerrado com o West Ham da Inglaterra, declarou não retornar para o Monterrey, atual campeão mexicano, e clube no qual é ídolo, em virtude da insegurança que reina na região e pelo aumento da violência em todo território azteca. Guille, quarto maior artilheiro da história do clube, sempre disse ter vontade de encerrar sua carreira no time Rayado, mas afirmou que por enquanto prefere não colocar em risco sua família e analisará propostas do Oriente Médio e da MLS, ambientes menos representativos futebolisticamente, mas mais seguros.

A declaração causou revolta em torcedores e governantes, mas não surpreendeu mídia e os jogadores. Com passagens por Espanha (Villarreal) e Inglaterra, Franco residiu em países com qualidade de vida e níveis de segurança muito superiores ao encontrado na Argentina (seu país natal e onde defendeu o San Lorenzo) e México (onde jogou pelo supracitado Monterrey). Naturalizado mexicano em 2005, defendeu durante cinco anos a seleção mexicana (pela qual marcou sete gols), disputando duas Copas.

A chiadeira só se tornou relevante por partir de um jogador vindo de um país emergente e com passagem pelo futebol mexicano. Mas não tomou corpo nas opiniões de jogadores e técnicos. Rubén Romano, treinador do Santos Laguna, foi um dos primeiros a sair em defesa do atacante. Vítima de criminosos mexicanos em duas oportunidades, sequestrado quando treinava o Cruz Azul em 2005 e com sua esposa vítima de um assalto a mão armada nas últimas semanas, o treinador argentino declarou: “Aconteceu com minha mulher e comigo, como acontece com milhões de pessoas. Pode estar acontecendo em qualquer lugar e pode acontecer até mesmo com você. Está insustentável”.

Também para grande parte da imprensa, a atitude de Franco é compreensível. Apesar do sucesso do futebol em território azteca, em poucos países ocorrem tantos casos de pessoas relacionadas ao futebol sofrendo com a violência como no caso do México. Um dos primeiros episódios ocorreu em 1999, com o sequestro do pai do famoso goleiro Jorge Campos, libertado após a entrega de 200 mil dólares de resgate. O caso mais famoso, contudo, foi o tiro na cabeça sofrido em uma boate pelo atacante paraguaio Salvador Cabañas, ídolo do América, no início deste ano.

Em 2010, aliás, a escalada de violência se acelerou no país. Em fevereiro, Juan Carlos Silva, do América, levou um tiro em uma tentativa de assalto na capital do país. Três meses depois, o jovem zagueiro do Pumas Guillermo Meza foi assassinado com um tiro na cabeça também em uma tentativa de assalto. Em novembro, foi noticiado que os paraguaios Fredy Bareiro e Enrique Vera sofreram tentativa de extorsão. Para completar, em dezembro, o treinador José Luis Sánchez Solá, do Estudiantes Tecos, também foi vítima de bandidos.

A região de Monterrey, particularmente, conta com violentos grupos de narcotraficantes e muitos problemas criminais que preocupam não só atletas, como a população em geral. Tendo isso em vista, é possível questionar: com a possibilidade de viver na segura Londres e com passagens por cidades com qualidade de vida extremamente alta e níveis aceitáveis de violência, o atleta (como todo trabalhador) não tem o direito de escolher o melhor para si e para sua família?

O próprio presidente do clube regiomantano expôs seus temores: “Antes você podia ficar à vontade em um semáforo, mas agora temos que ficar de olho no espelho, ser mais atencioso, no sentido de não estar onde você não deve ou não ir às áreas que não têm que visitar. Tome cuidado onde você vai e quem você é. É a principal coisa que você pode fazer”, resumiu Luis Miguel Salvador.

O único equívoco (?) de Guille talvez tenha sido admitir o motivo da não-vinda, ao contrário de outros jogadores que não escancaram o problema. Aliás, esse fator pode ser notado em um simples exercício mental: mesmo com gordos salários, bônus e todos os extras (casa, carro, passagens, etc.) ofertados por que estrelas nascidas na Europa jamais cogitam jogar por aqui? Ou alguém imagina Xavi jogando pelo América ou Terry defendendo o Pachuca.

Apesar de alguns jogadores saírem em defesa das cidades mexicanas, caso de Neri Cardozo, a maior parte convive com o temor de ser vítimas de sequestros e outros crimes, um problema que atinge todos os cidadãos, mas é particularmente problemático para jogadores e celebridades por estarem na mídia com frequência, Além disso é do saber de quem tiver interesse que recebem valores salariais acima da média.

Com menos hipocrisia e melhor bom senso, essa é uma ótima oportunidade para discutir a questão com as autoridades, para buscar novas medidas que melhorem a situação não somente para jogadores, como para a sociedade em geral. Como já dito, a resolução dessas questões dependem muito mais de atitudes de ações políticas efetivas e envolvimento da população do que dos clubes, que, no máximo, podem preparar esquemas especiais e oferecer os mais variados tipos de apoio para jogadores e familiares. Mas mesmos esses clubes, e a classe futebolística podem aproveitar seu peso na sociedade para propor soluções e cobrar medidas.

Enquanto essas questões não forem resolvidas, a partir do momento que os grandes clubes de países desenvolvidos entrarem na disputa por um atleta ou oferecerem a oportunidade de contratos semelhantes, o êxodo dos verdadeiros craques continuará, e pouco poderão fazer esses clubes. Guille já é um veterano, mas a questão que fica é quantos atletas de qualidadde são perdidos para outros mercados em função desses problemas? Afinal, somente salários, premiação e disputas movimentadas nem sempre são as únicas prioridades de um profissional e seus familiares.

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Equipe Trivela

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