México

Tricolor de Ouro

Não foi uma conquista brilhante. A Tricolor sub-23 não precisou nem mesmo superar suas costumeiras asas negras, mas conquistou sua primeira medalha de ouro na história do futebol olímpico e deu mais um passo rumo ao seu objetivo de entrar no grupo das grandes potências.

É preciso primeiro desmistificar algumas “verdades absolutas” dessa conquista. A mais difundida é de que o Brasil perdeu essa medalha para si mesmo. Não foi. A seleção mexicana superou a seleção brasileira utilizando de um jogo coletivo mais incisivo e soube anular as principais armas do adversário. Tecnicamente o Brasil possui um elenco superior. Mas Luis Fernando Tena possui um time (no sentido coletivo da palavra), fruto de uma preparação muito mais completa e adequada. Em suma, o verdadeiro “projeto olímpico” que boa parte da imprensa daqui alardeou durante os Jogos de Londres teve um exemplo muito mais claro do lado azteca.

Apesar da reunião de atletas ter sido feita cerca de um mês antes dos Jogos de Londres, o elenco mexicano atua junto há cerca de um ano, jogando, entre outras competições, Jogos Panamericanos, qualificatório olímpico da Concacaf, Torneio de Toulon e até Copa América de 2011, quando o time mexicano foi derrotado nas três partidas que disputou, mas poucos consideraram que o país foi o único a enviar um time da categoria sub-23. Envolvido na disputa da Copa Ouro da Concacaf, finalizada semanas antes, a federação optou por não enviar o time principal, dando descanso aos jogadores campeões e fortalecendo seu time olímpico.

Além disso, nas semanas que antecederam a estreia em Londres, os aztecas tiveram a oportunidade de competir com adversários de nível semelhantes ao que teriam nos Jogos. Perderam para os mesmo japoneses que eliminariam na semi duas semanas antes de dar o pontapé inicial nas terras da rainha, além de enfrentarem França, Holanda e Turquia. Um dado aponta claramente o motivo do bom desempenho coletivo da seleção mexicana sub-23: dos titulares que entraram em campo na final de sábado, todos tinham pelo menos 10 partidas pelo selecionado da categoria, incluindo os jogadores acima da idade-limite. Alguns deles somaram, apenas pelo time sub-23, mais de 30 partidas. Um entrosamento muito superior ao dos rivais.

Outros apontaram que o México não enfrentou adversários de peso. Um argumento falho em sua própria construção. Se os espanhóis, que eliminaram rivais de peso europeus como Alemanha, Holanda e Itália caíram logo na primeira fase para Honduras e Japão, foram vítimas de sua incompetência. O mesmo exemplo vale para os uruguaios, que deixaram os argentinos de fora dos Jogos. Os mexicanos, que nada têm a ver com isso, eliminaram os algozes de seus tradicionais empecilhos nas grandes competições e chegaram à taça.

Por último, ainda que alguns tenham sido pegos de surpresa com o México derrotando o Brasil, quem acompanha o futebol internacional constantemente e não apenas de maneira sazonal (leia-se durante Olimpíadas e Copa do Mundo) sabe que o retrospecto dos últimos confrontos indica um equilíbrio no confronto. No nível sub-23, o histórico estava rigorosamente igual antes da final, com quatro vitórias para cada lado e três empates. Mais do que os números, contudo, vale dizer que o Brasil já é um rival contra o qual os mexicanos aprenderam a atuar. Os duelos constantes, e até mesmo o intercâmbio de clubes e seleção nas competições continentais, permitiram aos aztecas um conhecimento mais amplo da maneira de atuar e dos esquemas táticos dos rivais. Na prática, “aprenderam” o jeito de jogar do Brasil melhor do que outros rivais.

Acima de todos esses pontos, entretanto, vale destacar o crescimento cada vez mais nítido do futebol mexicano. Um crescimento que vem ocorrendo da maneira mais sustentável possível: vindo da base e subindo ao nível profissional. Com um projeto sério e estável nas categorias menores, coordenado pela FemexFut e com apoio dos principais clubes do país, a Tricolor obteve o bicampeonato mundial na categoria sub-17, além de uma terceira colocação no Mundial sub-20 em 2011. A conquista do ouro nos Jogos de Londres tornou-se mais um passo rumo ao crescimento estruturado também no nível profissional.

No nível principal, a grande dificuldade enfrentada pelos mexicanos é impor-se nas grandes competições, nos duelos contra as grandes potências do futebol mundial. A Concacaf já conhece o poderio azteca e, salvo algumas poucas exceções, a hegemonia na América do Norte e Central é indiscutível nas últimas décadas. Já são seis Copas Ouro de 1990 para cá, além de inúmeros outros títulos continentais em todas as categorias.

A consolidação dos mexicanos no nível principal ainda carece de algum título ou campanha mais sólida. Ainda que uma Copa das Confederações tenha sido conquistada em 1999, o nível dos adversários derrotados, com exceção do Brasil na final, e o fato de ter sido vencida em casa faz com que falte ao México uma exibição de gala em uma competição de alto nível, talvez uma semi ou final de Copa do Mundo na qual consiga superar um grande rival de forma categórica. Vale lembrar que as duas melhores campanhas aztecas em mundiais foram as quarta de final nos torneios de 1970 e 1986, disputados em casa. Pouco para quem busca estar no grupo dos grandes. O México alcançou as oitavas das últimas cinco Copas do Mundo, mas viu o fim da linha sempre que enfrentou times mais tradicionais, como Argentina ou Alemanha.

Para esse salto, talvez seja necessária uma maior difusão dos jogadores mexicanos mundo afora. Faltam jogadores mexicanos consolidados em grandes clubes do futebol mundial. Uma característica que faz falta aos aztecas na hora de reunir jogadores com experiência, intercâmbio e competitividade em grandes competições. Quando precisam bater de frente com as grandes potências.

O time que esteve em Londres contou com ótimos jogadores, nomes que já brilham em nível nacional. Ainda que o grande destaque entre os sub-23, Marco Fabián, tenha margem de progressão para atuar em bom nível num clube de destaque, não se vê o mesmo em boa parte dos demais jogadores, talvez por esse intercâmbio ainda ser restrito. O México encontra-se hoje na mesma situação que a Rússia enfrentou há poucos anos atrás. Com bons salários em território azteca, os atletas se encontram em uma “zona de conforto” da qual não precisam de uma transferência para outro centro, correndo o risco de perder o status já adquirido no país.

Até por isso, atitudes como a do goleiro Ochoa, que exigiu ser vendido para o futebol europeu, mesmo que atuando em um time que briga contra o descenso numa liga de nível abaixo das principais, precisam ser incentivadas para que o México dê o salto de qualidade final. É preciso um verdadeiro intercâmbio com atletas que possam compor o elenco. Se isso não faz tanta diferença no futebol de base, é crucial no nível principal.

A hora agora é de comemorar. Mais um (grande) passo foi dado. Mais um objetivo foi cumprido. E esses são indicativos de que o projeto adotado pela Femexfut é sério, sólido e está no caminho certo. O México não é apenas uma Cinderela. E falta cada vez menos para os aztecas confirmarem isso.

Curtas

– Seleção da 4ª rodada do site Mediotempo: Óscar Pérez (San Luis), Gerardo Flores (Cruz Azul), Ignacio González (León), Luis Venegas (Atlante) e Carlos Rodríguez (Toluca); Osvaldo Martínez (Atlante), Carlos Peña (León), Fernando Arce (Tijuana) e Rubens Sambueza (América); Carlos Cacho (Toluca) e Esteban Paredes (Atlante). T: Enrique Meza (Toluca);

– O Toluca manteve o 100% de aproveitamento e chegou a sua quarta vitória no Apertura 2012 ao bater o Pumas UNAM por 2×1 em pleno estádio Universitario;

– Quem também vem bem é o León, que venceu de forma categórica (3×0) o atual campeão Santos e assumiu a vice-liderança, com 9 pontos;

– Tigres, Cruz Azul, Tijuana, Santos, Atlas e América completam o grupo dos oito que hoje estariam classificados para a Liguilla;

– No extremo oposto, o Jaguares perdeu mais uma (2×1 para o Atlante) e segue sem somar pontos, na lanterna da competição;

– Confira tudo sobre a seleção mexicana e o futebol mexicano pelo twitter: @renanbarabanov

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