Todos vivem

Morumbi, 4 de junho de 2008. O Sport havia acabado de perder para o Corinthians no jogo de ida da finald a Copa do brasil, mas o clima não era ruim no vestiário pernambucano. Os jogadores do Leão não paravam de dizer que Enílton havia feito, aos 47 minutos do segundo tempo, o gol do título. Compreensível: o time perdia por 3 a 0, mas conseguiu o golzinho fora de casa que tornou a virada possível. Foi exatamente o que ocorreu na última quarta, com o gol de Souza no Cruzeiro 3×1 Grêmio.
A cobrança de falta do meia deu nova vida ao Tricolor gaúcho, que tomava de 3 a 0 e parecia concentrar suas chances mais na aura de “imortal” do que na razão. O que seria injusto pelo que ocorreu em campo. O Cruzeiro fez uma grande partida, sobretudo Marquinhos Paraná, Wagner e Kleber. No entanto, também é verdade que o Grêmio não jogou mal a ponto de merecer uma derrota tão contundente.
Na verdade, o grande pecado gremista foi ser perdulário com suas oportunidades ofensivas. A Raposa não começou bem o jogo e deu espaço para os gaúchos. Mais confiantes, os tricolores tiveram três ótimas chances de gol, duas com Alex Mineiro e uma com Maxi López. Não se pode perder tantas oportunidades impunemente.
Na medida em que se assentaram em campo, os mineiros passaram a dominar. Aí, o jogo mais leve e ofensivamente mais preciso dos cruzeirenses acabou se impondo. Wagner e Marquinhos Paraná foram gigantes no meio-campo, com Kleber desestabilizando a defesa sulista mais à frente. O Grêmio ficou apático, como se estivesse sentindo as consequências de seus próprios erros.
O gol de Souza, de falta, recolocou os gremistas na disputa. No próprio Mineirão já se sentiu isso, com os gaúchos ensaiando uma pressão nos minutos finais. O que dá a pista do que deve ocorrer em Porto Alegre. O Grêmio tentará impor seu jogo de grande intensidade, enquanto que o Cruzeiro precisará ser sólido na defesa e quebrar o ritmo de jogo do oponente. Mais ou menos como fez diante do São Paulo nas quartas de final.
A situação não será tão diferente da encontrada no outro confronto das semifinais. O Estudiantes venceu o Nacional por 1 a 0 em La Plata. Como no Mineirão, o time da casa pode lamentar não ter construído uma vantagem mais significativa. Mas, como em Belo Horizonte, o visitante tem motivos para resmungar da oportunidade perdida de fazer um bom resultado.
No geral, o Nacional foi melhor que o Estudiantes. Arismendi não deu espaço a Verón, o que asfixiou o meio-campo argentino. O gol saiu em um contra-ataque isolado e só não teve resposta uruguaia porque faltou mais força ofensiva para os bolsos.
No estádio Centenário sem torcida visitante (os clubes fizeram acordo), o Nacional pode conseguir o resultado de que precisa se tiver um volume de jogo parecido. Porém, o Estudiantes já provou que sabe usar a força de sua camisa em competições internacionais.
Se a coluna tivesse de apostar em uma final, seria em Cruzeiro x Nacional. Mas Estudiantes e Grêmio estão vivos.
Maxi López
Sobre o caso Maxi López, o colunista fica com a posição de Rodrigo Barros Oliveira, em texto publicado no blog de Juca Kfouri (vou colocar o texto na íntegra porque não há um link direto para o post, que seria a solução mais prática):
Injúria, talvez, racismo, não!
Após mais um episódio de preconceito no meio esportivo, o caso da acusação feita por Elicarlos contra Maxi Lopes, vejo se repetirem os equívocos cometidos pelos veículos de informação na abordagem do assunto. Novamente a imprensa veicula a informação de maneira errada, sem esclarecer de maneira técnica o assunto.
O crime cometido pelo jogador argentino, caso a alegação do jogador Elicarlos se confirme verdadeira, não é crime de racismo. A conduta praticada pelo atacante Maxi Lopes configura sim crime de injúria qualificada, previsto no Código Penal.
O atleta ofendeu a dignidade do outro e de maneira alguma tal prática configura o crime de racismo. Os crimes de racismo, previstos na Lei 7.716/89, são condutas muito diversas da praticada pelo jogador argentino. Racismo é dar tratamento diverso a alguém em função de sua raça, cor, etnia, ou nacionalidade, em situações em que estes devam ser tratados igualmente aos outros.
O fato de o jogador brasileiro ter acusado erradamente o argentino não deveria ser seguido pela imprensa, que deveria sim informar corretamente, dizendo que NÃO SE TRATA DE RACISMO. Logo, procedeu corretamente a delegada em não deter o argentino, já que a lei não prevê tal hipótese. Além do mais ninguém deve ser preso, a princípio, antes de ser condenado. Seria um absurdo deter o argentino com base na simples alegação de Elicarlos.
Se no “Caso Grafite” houve detenção, foi um ato arbitrário e, aí sim, RACISTA, por dar tratamento diverso do estipulado em lei pelo fato da sua nacionalidade argentina. Resta à imprensa passar a cobrir tais fatos elucidando a verdade e esclarecendo a todos de maneira a evitar esses?desatinos e depoimentos lamentáveis, de pessoas totalmente leigas sobre o assunto.
Tem-se observado é que, nós, brasileiros, somos muito mais racistas com eles, os argentinos, nesses episódios, do que os comportamentos a eles atribuídos, muito embora sejam censuráveis. Porque temos tratado esses casos com tremenda desproporção lhes atribuindo falsos crimes, além de tratamentos severos na condução dos agentes às delegacias coercitivamente após as partidas, algo que é indevido nos casos de ação penal privada como os crimes de injúria.
Rever prioridades
Reclama-se muito dos campeonatos estaduais. Valem títulos esvaziados e, na prática, só servem para deixar algum grande derrotado em crise. É verdade, mas a Recopa Sul-Americana é ainda pior. A competição tem valor quase simbólico, o reconhecimento internacional é mínimo (ou alguém passou a respeitar internacionalmente o Cienciano depois de bater o Boca Juniors em 2004?) e ainda pode criar uma crise. O que está prestes a acontecer com o Internacional.
Os clubes brasileiros (regra geral, não apenas ao Colorado) criaram uma fixação de que título internacional é a coisa mais importante do mundo. Nem sempre. A Libertadores é importante. O Mundial de Clubes, nem se fala. Mas a Recopa Sul-Americana é quase que um jogo festivo que a Conmebol organiza para ganhar um dinheirinho.
Os gaúchos não entenderam isso. Em 2007, fizeram uma enorme festa quando a conquistaram. Como se uma equipe que acabara de vencer a Libertadores e o Mundial precisasse de algum outro título para reafirmar sua grandeza continental. Dois anos depois, o clube incorre no mesmo erro. Só que, ao invés de uma grande goleada sobre o bom Pachuca, a campanha teve uma derrota em casa para uma enfraquecida LDU Quito.
Na última quinta, os colorados entraram com o time titular (exceção a Nilmar e Kleber, que estão com a Seleção) e deixaram claro que tratavam a conquista da Recopa como algo importante no momento. O fato de o jogo contra a Liga de Quito no Beira-Rio ter uma semana de “distância” da partida de volta da final da Copa do Brasil contribuiu, mas havia uma evidente inversão de valores. Até porque Tite colocou um time misto no Brasileirão contra o Flamengo e deve fazer o mesmo contra o Coritiba.
Assim, o duelo com os equatorianos serviu para colocar ainda mais a equipe sob pressão. Ao apresentar um futebol ruim e sem força ofensiva, a equipe expôs seu mau momento. Tudo isso em troca de um título que valeria (ou valerá) pouco.
Menos mal para os torcedores colorados que a derrota para a LDU vale apenas pelo alerta do futebol oscilante do Inter. O título que está para ser perdido não deve ser efetivamente lamentado.



