México

Quão alto vai esse Fluminense?

Quando o judô foi introduzido nos Jogos Olímpicos, havia uma categoria aberta pata todos os pesos. Parece covardia, mas segue um princípio do judô: o uso da força do oponente contra ele mesmo. Ou seja, um lutador pode empregar sua técnica e força mental para compensar a eventual leveza ou fraqueza física e superar o adversário. Se for possível projetar essa filosofia para o futebol sul-americano, pode-se dizer que o Boca Juniors atua como um judoca hábil e experiente. E é como um judoca que o Fluminense terá de jogar para seguir na Libertadores.

O melhor exemplo do ‘modus operandi’ boquense foi o duelo contra o Atlas. Depois do empate por dois gols em Liniers, o Boca Juniors precisava ganhar em Guadalajara. Uma tarefa complicada, considerando que, na fase de grupos, os atlistas haviam vencido os xeneizes por 3 a 1. Mas, aí, o time argentino mostra sua verdadeira força.

Esperava-se que os mexicanos cozinhassem o jogo enquanto o Boca corria atrás de um gol salvador. Isso não aconteceu. Os argentinos mantiveram a calma e tomaram conta das ações, usando a confiança que os tapatíos acumularam nos dias anteriores. Para isso, o atual campeão sul-americano conta com o trio Riquelme-Palacio-Palermo, ideal para essa estratégia. O primeiro cadencia o ritmo e interpreta qual a melhor opção para cada jogada. O segundo, com velocidade e movimentação, abre espaços e prepara tabelas e o terceiro finaliza.

Assim, o Boca deu um ippon no Atlas. Em um golpe, usou o peso do pseudo-favoritismo dos rojinegros para derrubá-lo. Em menos de dez minutos, ainda no primeiro tempo, os argentinos fizeram três gols e mataram as esperanças atlistas.

Na semifinal da Libertadores, o Fluminense precisa estar atento a isso. A vitória sobre o São Paulo mostrou a força do time atual. Até porque ela foi conquistada com muito bom futebol, em um duelo cardíaco e que deve (e merece) ser lembrado por vários anos. Thiago Neves decepcionou, mas Conca tomou a responsabilidade de conduzir a equipe. Thiago Silva, Júnior César e Washington também merecem destaque pelo modo como cresceram em um jogo particularmente nervoso e importante.

O problema é que, ao mesmo tempo que o Tricolor carioca se impôs sobre o paulista e deixou evidente a todos que é candidato ao título, ele “ganhou peso”. O Flu acredita – com razão, diga-se – que pode ganhar a Libertadores. E o Boca adora enfrentar times assim.

Renato Gaúcho precisa usar muito bem as virtudes de seu elenco e trabalhar o lado psicológico dos jogadores para não permitir que tal “peso” seja usado pelos boquenses. O primeiro passo é identificar as fragilidades e montar o time que reduza o risco de os argentinos usarem suas armas.

Por exemplo, Gabriel e Júnior César são bons laterais no apoio, mas deixam espaço na defesa. Como Arouca é um volante técnico e leve, avança para ajudar na armação. Ou seja, a dupla de zaga (uma das melhores do Brasil) Thiago Silva e Luis Alberto pode ficar sobrecarregada no duelo contra um time que trabalha bem a bola, tabelando a partir de sua intermediária ofensiva.

Assim, talvez fosse interessante contar com um volante mais fixo para ajudar, ainda que Ygor ou Fabinho não inspirem tanta confiança. Outro fator importante a considerar é o meio-campo. A formação com Conca e Thiago Neves na armção, Washington de referência no ataque e Cícero no meio-termo soa interessante. Contra times como o Boca, ter uma dupla de ataque como Dodô e Washington pode ser inócuo se o meio-campo não criar um grande volume de jogo.

Antes de tudo, é preciso impedir que o Boca tenha espaço. Isso não significa apenas marcação. Ter a bola em seus pés e fazer os xeneizes se sentirem sob pressão e desconfortáveis com a dinâmica da partida é fundamental. Foi assim que Colo-Colo e Atlas conseguiram vitórias sobre os boquenses na fase de grupos. Ainda que não seja a única alternativa, é uma possibilidade interessante ao Fluminense.

Esse Boca Juniors x Fluminense pode ser mais um grande duelo dessa Libertadores. Os argentinos, pela experiência e histórico, são levemente favoritos. Mas os cariocas mostraram que, no momento, também estão na elite sul-americana. Nesse cenário, vencer ou perder é questão de saber aproveitar melhor sua capacidade técnica e mental e, eventualmente, a força do adversário. Não como um jogo de xadrez, mas como uma luta de judô.

Os outros

A expectativa criada pelo Boca x Flu faz que muitos considerem esse confronto como “final antecipada” da Libertadores. Na teoria, até faz sentido. Mas tratar LDU Quito e América como um duelo desimportante é ignorar a própria história da competição.

O curioso dessa semifinal é que uma das armas das duas equipes, a altitude, não terá efeito. A Cidade do México está a 2.235 m de altitude, 615 m a menos que Quito. Os equatorianos até levam alguma vantagem, mas não é nada relevante. De qualquer modo, as duas equipes não chegaram às semifinais porque suas sedes estão na montanha.

O América parece deixar evidente que a má fase se devia a alguma incompatibilidade entre o elenco e os técnicos Daniel Brailovsky e Rubén Romano. Só isso explica como o lanterna do Clausura mexicano se transformou em uma força continental. E, depois de eliminar Flamengo e Santos, até pode pleitear a condição de favorito contra os blancos.

A LDU Quito já foi analisada por esta coluna na semana passada (clique aqui). O importante é que o time se mostra cada vez mais confiante e consciente de suas possibilidades. O trabalho do técnico Edgardo Bauza é muito bom e não seria surpreendente se os universitários levassem o Equador a sua terceira final de Libertadores (as duas anteriores foram com o Barcelona, em 1990 e 1998).

Qualquer que seja a decisão da Libertadores, o favoritismo estará com o vencedor de Boca Juniors x Fluminense. De qualquer modo, é bom respeitar América e LDU. As duas equipes não chegaram tão longe sem motivo.

México: Sem favoritos

Depois de perder por 4 a 1 para o Monterrey no jogo de ida, as Chivas de Guadalajara teriam muita dificuldade para devolver o placar e evitar a desclassificação nas quartas-de-final. Que, no final as contas, foi o que ocorreu. Com o apoio de sua torcida, o Rebaño teve muita determinação para sufocar o adversário, mas se expôs aos contra-ataques. Uma atitude temerária contra uma linha ofensiva rápida e oportunista, com Carlos Ochoa, Humberto Suazo e Borgetti. Foi um festival de gols: um 4 a 4 animado, que deixou pouca expectativa de classificação dos tapatíos.

A queda das Chivas, superlíderes da fase de classificação, deixou um vácuo no posto de favorito. Pela campanha na primeira fase, San Luis, Santos Laguna e Cruz Azul são muito equilibrados. E o Monterrey vem em grande fase, desde as últimas rodadas da primeira fase até a vitória sobre as Chivas.

Por terem a vantagem de empate no placar somado (não há critério de gols fora de casa) e decidem em casa, Santos Laguna e Cruz Azul estão ligeiramente à frente. A Máquina Cementera ainda tem a seu favor a tradição, que pode pesar diante de um time como o San Luis. Isso ficou evidente no jogo de ida, em que os capitalinos venceram por 1 a 0 em San Luis Potosí. A outra semifinal, em Monterrey, ficou em 1 a 1, deixando o duelo em aberto para a partida de volta, em Torreón.

SELEÇÃO DA RODADA
Veja a seleção do site Medio Tiempo para as quartas-de-final do Clausura mexicano: Adrián Martinez (San Luis); Jorge Iván Estrada (Santos Laguna), Adrián García Arias (San Luis), Alfredo Tahuilán (San Luis) e Mario Pérez (San Luis); Gerardo Torrado (Cruz Azul), Jesús Arellano (Monterrey), Luis Ernesto Pérez (Monterrey) e Walter Erviti (Monterrey); Carlos Ochoa (Monterrey) e Jared Borgetti (Monterrey). Técnico: Ricardo La Volpe (Monterrey).

Venezuela: Táchira de volta

Com uma rodada de antecipação, o Deportivo Táchira conquistou o Clausura venezuelano. Um título muito importante para o futebol venezuelano. Não pelo valor esportivo em si, mas pelo que pode representar para o futuro próximo da modalidade na Venezuela.

Os aurinegros têm sede em San Cristóbal, capital do estado de Táchira. Quase na fronteira com a Colômbia, a região tem forte influência cultural do país vizinho. Tanto que é uma das poucas áreas da Venezuela em que o futebol é realmente mais popular que o beisebol.

Não precisa ser um gênio para concluir que o Deportivo Táchira (conhecido como Unión Táchira na época do semi-profissionalismo) é o clube com torcida mais fanática do país. A relação dos sancristobalenses com o futebol é tão grande que o estádio Pueblo Nuevo de Táchira é chamado de “Templo do Futebol Venezuelano”.

Nos últimos anos, o futebol venezuelano se estruturou, mas o Táchira ficou para trás. Com uma estrutura muito mais sólida e organização mais atenta, o Caracas tomou a frente em um esporte que já era profissional de verdade. Ao seu lado esteve o Unión Maracaibo, time que tem apoio da prefeitura de Maracaibo (segunda maior cidade do país e “capital do petróleo”) e contou com dinheiro em caixa para montar equipes fortes.

Os tachirenses até tentaram acompanhar, mas sofriam pela própria pressão da torcida. Atitude precipitadas e impaciência para esperar os reforços vingarem minavam o time aurinegro, que não conquista o título nacional desde a temporada 1999/2000. Até que, no Clausura, tudo pareceu caminhar. Aliás, o Apertura já deu boas indicações, com um projeto de time aparecendo, um futebol levemente convincente e estável. Tudo com uma base quase toda nativa, sem contar com investimentos pesados para trazer estrangeiros.

No Clausura, o Deportivo Táchira atropelou. O time foi muito equilibrado, com uma defesa forte e um ataque decente. As principais figuras foram o goleiro Sanhouse, o meia uruguaio Bobadilla e o atacante Torrealba (já negociado com o Kaizer Chiefs, da África do Sul). Os sancristobalenses perderam apenas uma partida, empataram duas e não deram chances para o Caracas tentar fechar a temporada antes da final.

Com a vitória no Clausura, o Deportivo Táchira conseguiu a segunda vaga na decisão da temporada, contra o Caracas. Os dois jogos definem quem é, de fato, o campeão venezuelano 2007/8. Como fazem a segunda partida em casa e vive um momento incomparavelmente mais feliz, os aurinegros são favoritos. E podem consolidar mais uma força no futebol venezuelano, que ainda precisa de referências.

Colômbia: Começam as semifinais

Final da primeira fase, hora dos quadrangulares semifinais do Apertura colombiano. As oito equipes se dividiram em dois grupos, que jogam em turno e returno dentro das chaves. O melhor de cada quadrangular vai para a final do campeonato. A surpresa ficou por conta da desclassificação de Millonarios e, principalmente, o bicampeão colombiano Atlético Nacional. Os verdolagas ainda têm a desculpa de estar se dedicando à Libertadores, mas os bogotanos, novamente, sucumbiram diante da pressão de torcida e imprensa.

No Grupo A, um duelo de potências que tentam se reerguer contra pequenos incômodos. O Independiente Santa Fe vive uma onda de investimentos e ficou entre os primeiros desde o começo da temporada. Relaxou na reta final e caiu para a terceira posição, o que não lhe tira a condição de candidato ao título. O América de Cali é a outra equipe tradicional da chave. Com um time jovem, os escarlatas não inspiram tanta confiança, mas estão em crescimento e podem desenvolver ainda mais seu futebol pensando no Finalización.

Os pequenos são La Equidad e Envigado. Os bogotanos estrearam na elite no Apertura 2007 e ficaram na lanterna. Desde então, surpreendem com um futebol ofensivo. Ficaram com o vice-campeonato no Finalización e terminaram a primeira fase do Apertura 2008 na liderança. O problema é que falta tradição e, principalmente, torcida. Os aseguradores sentem falta de apoio nos jogos decisivos, sobretudo contra os grandes do país. O Envigado é um azarão. Fez uma campanha regular, mas conseguiu vitórias importantes – como na última rodada sobre o Millonarios – para conquistar um lugar na segunda fase.

No Grupo B, o Boyacá Chicó surge como favorito. Apesar da falta de tradição, é uma equipe muito mais consistente e confiável que os adversários. Seu principal adversário deve ser o Independiente Medellín, que oscilou muito na temporada, mas mostrou, nos bons momentos (basicamente, nas primeiras rodadas), capacidade para lutar pelas primeiras posições. Quindío e Deportivo Cali não passam confiança. Podem até surpreender em uma maré de bom futebol, mas não é essa a tendência.

Convocações

Veja os convocados de Jesús Ramírez para os amistosos do México contra Argentina e Peru e o duelo nas eliminatórias contra Belize: goleiros: Oswaldo Sánchez (Santos Laguna), José de Jesús Corona (Tecos de la UAG) e Guillermo Ochoa (América); defensores: Jonny Magallón (Chivas de Guadalajara), Ricardo Osorio (Stuttgart/ALE), Carlos Salcido (PSV/HOL), Aarón Galindo (Eintracht Frankfurt/ALE), Patricio Araujo (Chivas de Guadalajara), Héctor Moreno (AZ/HOL), Sergio Ponce (Toluca), Adrián Aldrete (Morelia), Óscar Rojas (América) e Julio César Domínguez (Cruz Azul); meio-campistas: Gerardo Torrado (Cruz Azul), Luis Ernesto Pérez (Monterrey), Fernando Arce (Santos Laguna), Gonzalo Pineda (Chivas de Guadalajara), Andrés Guardado (Deportivo de La Coruña/ESP) e Sinha (Toluca); César Villaluz (Cruz Azul), Sergio Santana (Chivas de Guadalajara), Carlos Vela (Osasuna/ESP), Edgar Andrade (Cruz Azul) e Jared Borgetti (Monterrey).

Veja os convocados de Jorge Luis Pinto para os amistosos da Colômbia contra Irlanda e França: goleiros: Agustín Julio (Independiente Santa Fe) e Robinson Zapata (Steaua Bucareste/ROM); defensores: Darío Bustos (Internacional/BRA), Camilo Zuñiga (Atlético Nacional), Amaranto Perea (Atlético de Madrid/ESP), Walter Moreno (Atlético Nacional), Cristian Zapata (Udinese/ITA), Elvis González (Cúcuta) e Pablo Armero (América de Cali); meio-campistas: Freddy Guarín (Saint-Etienne/FRA), José Amaya (Atlético Nacional), Yulián Anchico (Independiente Santa Fe), Fabián Vargas (Boca Juniors/ARG), Carlos Sánchez (Valenciennes/FRA), Freddy Grisales (Independiente/ARG), Macnelly Torres (Cúcuta) Giovanny Hernández (Atlético Júnior) e Juan Carlos Escobar (Krylia Sovetov/RUS); atacantes: Edixon Perea (Grêmio/BRA), Radamel Falcao García (River Plate/ARG), Hugo Rodallega (Necaxa/MEX), Roberto Polo (La Equidad) e Dayro Moreno (Steaua Bucareste/ROM).

Veja os convocados de Sixto Vizuete para o amistoso do Equador com a França: goleiros: Marcelo Elizaga (Emelec) e Máximo Banguera (Espoli); defensores: Iván Hurtado (Barcelona), Carlos Castro (Barcelona), Omar de Jesús (Barcelona), Isaac Mina (Deportivo Quito) e Gabriel Achilier (Deportivo Azogues); meio-campistas: José Luis Cortez (Deportivo Quito), Luis Saritama (Deportivo Quito), David Quiroz (Barcelona), Cristian Lara (Barcelona), Pedro Quiñónez (El Nacional), Wálter Ayoví (El Nacional), Segundo Castillo (Estrela Vermelha/SER) e Luis Antonio Valencia (Wigan/ING); atacantes: Carlos Tenorio (Al Saad/QAT), Felipe Caicedo (Manchester City/ING) e Félix Borja (Mainz/ALE).

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Equipe Trivela

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