O império contra-ataca

Grandes clubes são cheios de idiossincrasias. Quando entram em má fase, a pressão de torcedores e imprensa chegam a níveis insuportáveis, e logo a crise se instala para piorar ainda mais os resultados. Quando chega a boa fase, a empolgação toma conta de todos e fica difícil segurar. É na mudança do primeiro para o segundo cenário que vive o América do México.
No último domingo, as Águilas completaram sua quarta vitória seguida do Clausura. Mais que isso, a segunda bastante convincente. Primeiro, haviam vencido o clássico capitalino contra o Cruz Azul, 3 a 2 fora de casa. Depois, enfiaram sonoríssimos 7 a 2 no Toluca, clube que ocupava a segunda posição na classificação geral. Foi a maior goleada da história do confronto, que não tinha uma vitória americanista havia três anos em jogos pelo Campeonato Mexicano.
O América mostrou uma volúpia que parecia sumida nos últimos tempos. Desde o início da partida, teve confiança para aplicar um futebol ofensivo e envolvente, que não desse ao adversário a oportunidade de respirar. Logo aos 2 minutos, Pardo abriu o marcador com um chute de longa distância.
O modo intenso com que os americanistas jogavam derrubaram o moral dos mexiquenses. Durante todo o primeiro tempo, os Diablos deram apenas um tiro ao gol adversário, com Dueñas. Enquanto isso, as Águilas faziam gols. Aos 26 minutos do primeiro tempo, o placar já estava em 3 a 0, com gols de Esqueda e Cabañas. Mais dez minutos e Romagnoli, contra, deixou o placar em 4 a 0. E, pouco antes do intervalo, Cabañas foi às redes pela segunda vez: 5 a 0.
Na segunda metade da partida, o ritmo diminuiu. O América relaxou e permitiu ao Toluca dar sinal de vida, com dois gols. No final, o time da Cidade do México voltou à carga e fechou a goleada com mais dois tentos.
Apesar do segundo tempo “empatado”, o importante foi o que as Águilas mostraram no primeiro. Após duas temporadas em que acumulou vexames e transformou o ato de escolher mal seus reforços em uma forma de arte, o América finalmente mostrou um futebol poderoso como imaginam seus dirigentes e torcedores. Um clube que acha que o dinheiro compra tudo (ou seja, que basta gastar milhões em jogadores de nome para ser um esquadrão), mais ou menos como o Real Madrid quando Florentino Pérez está no comando.
Em uma equipe tão bipolar quanto o América, é difícil prever se um futebol tão espetacular será uma exceção na temporada ou o padrão. O Chivas, que tem perfil parecido, ganhou de 5 a 0 do Pachuca, mas sequer passou para a Liguilla no último Clausura. De qualquer modo, o técnico Jesús Ramírez e o elenco já sabem o que o time de Coapa é capaz de fazer. Resta descobrirem um modo de manterem esse ritmo.
O inimigo do meu inimigo…
O Peñarol apresentou um comunicado à imprensa, condenando a arbitragem de Carlos Aguirregaray na rodada do fim de semana. O clube carbonero ainda solicitou uma audiência com a Comissão de Arbitragem e uma “geladeira” ao árbitro e o auxiliar Marcelo Gadea. Detalhe: o motivo da revolta foi um jogo em que os manyas não estiveram envolvidos.
A dupla causou polêmica depois de Nacional x Tacuarembó. O jogo, disputado no Parque Central, se arrastou supreendentemente ao 0 a 0. Aos 45 minutos do segundo tempo, o zagueiro Matías Rodríguez, do Tricolor, deu uma entrada maldosa em Álvaro García, goleiro dos rojos del Norte. O camisa 1 se irritou e foi reclamar com o defensor, que fingiu ter sido agredido.
Aguirregaray perguntou a Gadea o que havia ocorrido. O bandeirinha apenas apontou a suposta agressão de García, que foi expulso. Tendo feito as três substituições, o Tacuarembó teve de se defender nos minutos finais com o volante Nicolás Pereira improvisado no gol. Pior: aos quatro minutos de acréscimo inicialmente apontados, o árbitro acrescentou seis. Foi o suficiente para Vera, aos 55 minutos do segundo tempo, dar a magra vitória aos bolsos.
Houve muita chiadeira. Jorge Alonso, presidente do Tacuarembó, ameaçou tirar seu clube do futebol profissional. O Peñarol, por ter mais peso político, tomou as dores do time do interior e se meteu na briga. Segundo o clube aurinegro, “a arbitragem incide de modo contundente nos resultados das partidas e tornam a competição artificial”. O Nacional reagiu e acusou o rival de esconder seus erros por meio dessas reclamações.
Os bolsos não estão errados ao dizer que a direção peñarolista lance mão desses artifícios para tirar o foco de seus problemas. Mas também é verdade que há um clima no Uruguai de que o Nacional é mais favorecido pelas arbitragens do que as outras equipes.
O caso mais grave teria sido na partida contra o Rocha, pela última rodada do Campeonato Uruguaio de 2005. Os tricolores venceram por 3 a 2 com um gol de pênalti duvidoso aos 52 minutos do segundo tempo, forçando um jogo-desempate com o Defensor Sporting. Os Tuertos se negaram a entrar em campo como protesto e o Nacional acabou ficando com o título.
Pelo lado do Nacional, é justo lembrar que, na temporada passada, o clube perdeu por WO para o Villa Española porque entrou no gramado dois minutos atrasado. Os bolsos precisaram ir à Justiça para assegurar que o jogo fosse disputado.
A sensação é de que, como é comum na América Latina, nada de prático será feito. As partes entrarão em algum acordo político e os árbitros acusados ficarão um tempo de fora até o caso ser esquecido. E a vida segue.
Regulamento do Peru
Terminou a primeira fase do Campeonato Peruano. Todas as 16 equipes jogaram em turno e returno e… nada foi decidido. Ou na verdade, muita coisa. Porque o modo como a competição foi montada faz a segunda fase ser a decisiva na teoria, mas parece que há pouca coisa em aberto.
Na Liguilla (segunda fase, que de “Liguilla” só tem o nome), os 16 times foram separados em dois grupos de 8. A divisão se deu pela tabela da primeira fase, com as equipes em posições pares indo para um lado e as de classificação ímpar, para o outro. Ou seja, ninguém foi eliminado. No entanto, os pontos da primeira fase são “carregados” para a segunda. O que já deixa meio desenhado como ficará o campeonato.
Basta ver como está a classificação. Na Liguilla A, o Juan Aurich já começa como líder, com 55 pontos, seguido por Alianza Lima (51) e César Vallejo (48). Na parte de baixo, o José Galvez tem 39 pontos, contra 31 do CNI e 27 do Sport Ancash. Na Liguilla B, o Universitario lidera com 54 pontos, seis a mais que Sport Huancayo e sete à frente da Universidad San Martín. Os três últimos são Total Chalaco (37), Alianza Atlético (30) e Coronel Bolognesi (20).
Considerando que os times se enfrentarão dentro de seus grupos em jogos de ida apenas para sair um finalista, fica evidente que há pouco terreno para uma disputa real pelas vagas na decisão. O Alianza Lima ainda pode atrapalhar o Juan Aurich, mas dificilmente o Universitario terá algum concorrente real. Na briga contra o rebaixamento (caem os dois piores, independentemente das chaves), o Coronel Bolognesi (20 pontos) parece condenado, com CNI, Sport Ancash e Alianza Atlético tentando fugir da outra.
O regulamento é tão esdrúxulo que dá inveja a muita federação estadual no Brasil. Mas ficou pior. A FPF (federação peruana) havia prometido sortear a tabela da segunda fase em uma assembleia com todos os participantes, o que não ocorreu. Cada presidente de clube recebeu a relação de jogos já pronta, o que provocou mais protestos.
Manuel Burga, contestadíssimo presidente da FPF, tenta negar o inegável. Ele afirma que o campeonato é um êxito e o público tem aprovado o novo regulamento. O que parece pouco provável na Liguilla, em que poucas partidas terão real interesse.



