México

O homem Libertadores

Cruzeiro e Estudiantes fazem um jogo duro. Mesmo jogando no Mineirão, os argentinos são ligeiramente superiores. Nada que tirasse o placar do 0 a 0. Até que Kleber aparece. O atacante marca dois gols e assegura a vitória mineira por 3 a 0. Em seguida, perde a cabeça e é expulso. Um desempenho digno de Dr. Jeckyl e Mr. Hyde.

Quem tem um pouquinho de memória percebeu que não se tratou de algum exercício de futurologia a respeito de como a Libertadores acabará, mas uma descrição de como ela começou. Cruzeiro e Estudiantes estrearam com um confronto em Belo Horizonte e a figura central foi Kleber, que debutava na Raposa. Curiosamente, há uma boa chance de, no reencontro de celestes e alvirrubros, o Gladiador ser o protagonista.

O resultado da final pode até mudar esse “título”, mas, até o momento, o atacante é o melhor jogador da edição 2009 da Libertadores. Mesmo com alguns momentos de “monstro”, ele tem deixado prevalecer seu lado “médico”. Com isso, se tornou no principal nome da campanha cruzeirense na competição.

Tecnicamente, Kleber é muito acima da média do futebol praticado na América Latina. Movimenta-se em campo com abnegação, briga pela bola como se dela dependesse sua vida, sabe trocar passes quando necessário e ainda faz seus gols. Assim, ele se tornou mais que um atacante que fica na frente e serve de destino final de todas as jogadas do time. Ele é uma figura ativa no sistema tático celeste, trabalhando em conjunto com o meio-campo e ajudando a ditar o ritmo de toda a equipe.

Esse papel ficou escancarado nos duelos brasileiros que teve o Cruzeiro, contra São Paulo e Grêmio. Nessas partidas, Adílson Batista teve a inteligência de aproveitar todas as virtudes de seu atacante. No Mineirão, a presença ofensiva de Kleber ajudou a Raposa a impor um futebol intenso sobre o visitante. Dessa pressão saíram as vitórias que permitiram aos mineiros especularem com a vantagem de empate nas partidas de volta. Aí, a capacidade de estar em todos os cantos, segurar a bola e trocar passes com os meias (sobretudo Wagner) ajudou a quebrar o ritmo do adversário e assegurar classificações mais tranquilas do que o esperado.
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Na partida do Olímpico, nesta quinta, o Gladiador foi ainda mais importante. Ele foi o responsável por mudar os rumos de uma partida que não ia bem para o Cruzeiro. Os mineiros tinham uma atuação apagada e sofriam com o assédio gremista a sua área. Até que o atacante pegou a bola na direita, fez jogada individual e entregou para Wellington Paulista abrir o marcador. Os gaúchos sentiram o golpe e bastou aos celestes administrarem a vantagem.

Em todos esses jogos, o atacante foi largamente provocado pelos marcadores. E, ao contrário do que sua própria história indicaria, o atacante conseguiu evitar o revide. O que apenas ajudou a enervar mais os adversários.

O melhor jeito de o Cruzeiro anular o jogo do Estudiantes é fechar qualquer espaço que Verón possa ter e estar sempre com alguém atento à movimentação de Boselli. Mas o melhor jeito de o Cruzeiro criar seu jogo é contar com seus principais talentos. Sobretudo o versátil e decisivo Kleber.

Os picadores de ratos

A Libertadores não é um torneio para amadores. Mais que ser “apenas” tecnicamente bom, é preciso saber disputá-la, conhecer seus atalhos para superar cada adversário. Dá para dizer que, nesse quesito, o Estudiantes está bem servido. E, por isso, os laplatenses estão na final da competição.

Não é uma questão da mística do time de Bilardo, Pachamé e Zubeldía na década de 1960. É algo mais recente. Depois de décadas alijado da competição por incapacidade técnica (os pincharratas chegaram a cair para a Segundona argentina na década de 1990), o time de La Plata voltou a dar as caras. E foi reaprendendo aos poucos como lidar com as armadilhas da competição.

Em 2006, a equipe foi eliminada nos pênaltis diante do São Paulo. Naquela ocasião, faltou um pouco mais de concentração para segurar o empate no Morumbi em noite particularmente apagada dos são-paulinos. Em 2008, o Estudiantes falhou ao perder em Quito por 2 a 0 e achar que poderia resolver em casa. Sofreu um gol e não teve forças para fazer 4.

A lição final foi a Copa Sul-Americana de 2008. Mesmo sem jogar com sobras, os pinchas passaram por Independiente, Arsenal-ARG, Botafogo e Argentinos Juniors antes de enfrentar o Internacional na final. Perdeu o jogo de ida, em casa, mas buscou a vitória no Beira-Rio. O troféu só escapou na prorrogação.

Vários detalhes deixaram os laplatenses sem o título. No entanto, foi se acumulando experiência. O que pôde ser visto contra o Nacional na semifinal da Libertadores. Mesmo sem jogar bem em casa, os argentinos conquistaram uma vitória apertada na única boa oportunidade que tiveram.

Dava a sensação (inclusive para o colunista) de que os uruguaios se recuperariam no estádio Centenário. No entanto, o Estudiantes sabia como empurrar o jogo até o final. Não deixou os montevideanos jogarem e, sem Verón (um craque, mas que naturalmente cadencia o jogo), usou a velocidade dos contra-ataques. Com mais talento (e poder de decisão), os argentinos controlaram a partida durante os 90 minutos, vencendo por 2 a 1.

A decisão contra o Cruzeiro deve ser muito interessante. Na primeira fase, as duas equipes se enfrentaram e os mandantes tiveram grande vantagem (3 a 0 Cruzeiro no Mineirão e 4 a 0 Estudiantes em La Plata). Depois disso, porém, as duas equipes se notabilizaram por saberem controlar o adversário mesmo fora de casa.

Na hora do mata-mata, Once Caldas

O cenário era favorável ao Atlético Junior. Apesar de ter perdido o jogo de ida da final por 2 a 1, os tiburones jogavam em casa diante de um Once Caldas desfalcado de seus principais jogadores. Depois de 90 minutos, viu-se que o favoritismo do time de Barranquilha era frágil. Com uma atuação impecável, os caldenses venceram por 3 a 1 e ficaram com seu terceiro título nacional.

Com duas vitórias na decisão, é difícil de tirar o mérito da equipe de Manizales. Mas trata-se de mais um exemplo de time de campanha discreta que arranca na fase final de um torneio com mata-mata. Desse modo, o Once Caldas está longe de ser o melhor time da Colômbia (foi o oitavo da fase de classificação). Mas foi o melhor em junho, que era o que importava para ficar com o título.

O principal mérito é do técnico Javier Alvarez. Ainda marcado em seu país por comandar a seleção colombiana no fracasso do Pré-Olímpico de 2000 (quando só seriam eliminados da primeira fase se perdesse por 6 gols do Brasil e tomaram de 9 a 0), o treinador fez um grande trabalho de motivação em um elenco mediano.

O esquema tático não era brilhante, mas funcionava por ter um atacante inspirado na frente (o peruano Fano, vice-artilheiro do Apertura) e uma dupla de volantes (Casanova e Viáfara) que deu solidez ao meio-campo. Com bons resultados no início do quadrangular semifinal, os blancos se enfiaram na briga pela vaga na final. O Grupo foi equilibrado e uma dose de sorte ajudou o clube a superar o favorito Tolima.

Na final, os manizalitas se aproveitaram da soberba do Atlético Junior. Crente que a derrota apertada no jogo de ida seria revertida em Barranquilha, os tiburones não impuseram uma pressão tão intensa. Isso permitiu ao Once Caldas, mesmo sem Casanova, Viáfara e Fano, encontrar espaço para explorar contra-ataques. Como Sinisterra e Dayron Pérez inspirados, os 3 a 1 surgiram com naturalidade inesperada.

Com esse resultado, o Once Caldas assegurou um lugar na Libertadores 2010. Apesar de o time ser dado a surpresas, como na conquista continental de 2004, os blancos precisarão melhorar muito se pretendem fazer novamente uma grande campanha internacional. O título do Apertura foi justo pelo que o regulamento apresentou, mas foi circunstancial.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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