O cara que disse “não” a Bielsa

Marcelo Bielsa é algo como um Deus no Chile. Todos param para ouvi-lo. Desde a presidente até o mais alto executivo da principal companhia do país. O prestígio do treinador é justificado. Com um trabalho consistente, ele conseguiu não só reconduzir os chilenos a uma Copa depois de 12 anos, como também restaurar o orgulho dos torcedores com sua seleção. A equipe é hoje respeitada por onde passa, tem um futebol agradável de se assistir – talvez o mais interessante no continente -, e tudo isso se deve a Bielsa.
Tantas credenciais fazem do argentino alguém a quem se imagina complicado dizer “não”. É estar negando algo a um dos caras, exageros à parte, mais poderosos do Chile. Mas, acredite, há quem faça isso. E, claro, se arrependa. Depois obviamente de ver que a sua atitude repercutiu em cada ponto do território transandino. Ninguém poderia crer que um jovem de carreira ainda pouco consolidada poderia dizer “não” a Bielsa.
O detalhe em meio a essa discussão é que o que mais se comenta nos jornais, ao invés da negativa do jogador em defender o país, é a recusa em atender ao chamado de Bielsa. São nessas pequenas coisas, se é que nesse caso podemos assim nos referir a ela, que vemos o tamanho do peso do treinador à frente da Roja. Não por acaso, querem mantê-lo no cargo até a Copa América de 2015.
Só não se sabe se até lá Edson Puch voltará a ter chances na seleção principal chilena. É um cidadão de coragem, convenhamos. Convocado para o amistoso contra a Venezuela, não só desdenhou o chamado, como ainda não se deu sequer ao trabalho de justificar a sua ausência. Na hora que bateu o arrependimento, disse que o faria após o jogo, que terminou empatado em 0 a 0. A comissão técnica estaria muita ocupada com outros assuntos, disse.
Claro, claro. Puch é o que podemos chamar de garoto ingênuo. Ou não. Tem 23 primaveras nas costas e 3 milhões no brilho de seu olhar. Ao menos, era essa quantia que estaria por trás de tal atitude polêmica. Uma das revelações do último Torneio Apertura, o jovem da Universidad de Chile vem mantendo a forma neste semestre e é um dos adversários do Flamengo na Libertadores. Seu futebol já havia despertado o interesse do San Lorenzo e agora parece ter captado a atenção dos donos dos petrodólares árabes.
O Catar seria o seu destino. Ex-time de figuras como Mauro Zárate e Romário, o Al Saad estaria no seu encalce. Algo que, segundo se especula, já pertenceria ao passado, já que a negociação não teria dado certo. Pior para o meia, que pode agora ficar sem aquela graninha que cairia bem no fim da temporada e ainda a viagem para a África do Sul. Até porque se o Chile fizer uma campanha ruim na Copa não será por sua ausência na delegação.
Bielsa se mostra ponderado em seus comentários. Não ameaça, não faz nada. O presidente da federação chilena, Harold Mayne-Nicholls, por outro lado, custa a entender a decisão de um jogador como Puch. Para ele, a seleção deveria ser a prioridade na vida de qualquer atleta do país. Rodrigo Tello, lateral esquerdo do Besiktas, da Turquia, parte pela mesma linha, criticando a falta de compromisso do garoto, conhecido por ser chegado a um reggaeton – no que faz bem, vá lá.
A três meses do Mundial, Puch pode ter sepultado qualquer chance que lhe restava. Ainda mais depois dos comentários de que o próprio jogador acha que uma ida para a seleção não lhe faria bem, já que valorizaria os seus direitos e complicaria a liberação para o Oriente Médio. Ah, o Catar. Desde sempre, mexendo com a cabeça dos jovens jogadores.
Aguirre e a polêmica com os goleiros
Duas falhas numa mesma semana. Uma em amistoso contra a Coreia do Norte e outra em jogo com o Puebla. O suficiente para se colocar em dúvida o posto de Guilhermo Ochoa como titular do México. Em comum entre elas, o fato de ambas terem sido originadas de chutes de longa distância. Diante da dificuldade do goleiro em cortar a bola, logo se sugeriu que talvez ele sofresse com algum problema de visão. E lá se foi Ochoa fazer uma bateria de testes.
O resultado acabou sendo aquele mesmo que já havia sido indicado nos exames de pré-temporada. Ou seja, não há nada de anormal com o arqueiro do América. Nem astigmatismo, nem miopia. “Memo” Ochoa está enxergando muito bem. As falhas são resultantes apenas de uma má fase que o jogador atravessa. Simples assim? Aparentemente, não. Com tal diagnóstico, cresce a pressão por uma mudança no arco mexicano.
Desde que assumiu o comando da Tri, Javier Aguirre sempre privilegiou Ochoa. Nunca deu muito boa para aqueles que pediam uma chance Oswaldo Sanchez e José de Jesús Corona. Contra eles, pesava o histórico recente de indisciplinas fora de campo. Ninguém no país jamais engoliu essa explicação. Não julgam ser suficiente para se afastar um jogador do grupo. Talvez eles tenham razão.
Aguirre exagera no excesso de preciosismo. Ochoa vive um momento difícil, porém, não tem ninguém que lhe faça sombra. Neste domingo, enfrenta um de seus supostos rivais, Luis Ernesto Michel, em jogo contra o Chivas. Candidato a número 2 no gol, não parece ser capaz de fazer frente a “Memo”. Para completar o cenário de conforto, como terceira opção para a posição, Aguirre deverá recorrer a alguém com experiência, que lhe auxilie na África do Sul: o experiente Óscar Pérez. Com tal decisão, o técnico tira de Sanchez e Corona um direito conquistado em campo. Mais uma polêmica em sua passagem pelo time tricolor.
O legado de Autuori
Há quem veja Paulo Autuori como alguém supervalorizado, que vive de uma glória aqui, outra ali, todas intercaladas por um intervalo de tempo que seria suficiente para relegar alguém ao esquecimento. Não Autuori. Em que se pese a forma equivocada que aparenta estar conduzindo a sua carreira ao fim de sua passagem pelo São Paulo, o treinador segue na moda por aí. Prova disso é o seu legado no futebol peruano, cada vez mais evocado nos dias atuais.
A temporada ainda se encontra longe do fim no país. Só foram disputadas sete rodadas até aqui no campeonato nacional. Porém, chama a atenção a adoção por boa parte das equipes de um esquema que surgia como novidade lá pelo início da década. O 4-2-3-1 lançado por Autuori e que fez do Alianza Lima campeão nacional naquela altura ainda hoje é lembrado com certo saudosismo. Não por acaso. Era a base de um estilo de jogo bonito, de um time que sustentava uma média de mais de gols por partida.
Mais do que isso: a solução para se comportar tantos craques em campo – cada país com os seus parâmetros de julgamento, OK. O Alianza tinha dois atacantes canhotos, de características parecidas e não sabia o que fazer com eles. A solução foi escalar um deles, Esidio, na frente, seguido de trás por uma dessas peças, Waldir Sáenz. Ele teve ao seu lado a companhia de outros dois meias, o brasileiro Palhinha e Henry Quinteros.
Juntos, formaram um quarteto que seria copiado pelo mesmo Autuori na seleção peruana e agora, passados quase dez anos, volta à tona no Torneio Descentralizado. Sporting Cristal, Sport Boys, Juan Aurich… Todos eles, mais seis clubes, já provaram a fórmula de Autuori nesse início de temporada. O treinador brasileiro está muito longe, no Catar, mas, como se vê, continua influenciando os rumos do desorganizado, mas sempre promissor futebol inca.



