México

Numa noite inesquecível dentro do Jalisco, o Atlas reconquistou o título mexicano após 70 anos em jejum

O Atlas não era campeão mexicano desde 1950/51 e o bicampeonato contou com uma enorme festa no Jalisco, após a vitória sobre o León nos pênaltis

O Atlas figura entre os clubes mais tradicionais do México por diferentes motivos. Os rojinegros contam com uma das torcidas mais apaixonadas do país, fazem um clássico de peso com o Chivas Guadalajara, possuem 89 temporadas na primeira divisão do Campeonato Mexicano. Os títulos, porém, passavam longe de mensurar a importância dos Zorros à liga local. O Atlas tinha conquistado apenas um título, na longínqua temporada de 1950/51, sem repetir o feito nas sete décadas seguintes. O bicampeonato do clube de Guadalajara, enfim, seria comemorado de forma fantástica neste domingo. Graças a uma vitória por 4 a 3 nos pênaltis, La Furia derrotou o León na decisão do Apertura e comemorou o fim do jejum que durou por 70 anos, diante da torcida que lotou o histórico Estádio Jalisco para testemunhar a façanha.

O Atlas viveu sua época dourada na virada dos anos 1940 para os 1950. Os rojinegros conquistaram o Campeonato Mexicano em 1950/51, dois anos depois de terem ficado com o vice. Além disso, no mesmo período, os Zorros também faturaram duas edições da Copa MX e três troféus da Supercopa do México. Aquela era de bonança até seria interrompida por uma breve passagem pela segunda divisão no meio da década de 1950, mas o time se recuperaria para levar mais uma Copa MX em 1962 e ser vice da liga em 1966. O sucesso justificava a inauguração do Estádio Jalisco em 1954, em tempos nos quais o Chivas também colecionava troféus.

A partir da década de 1970, o Atlas começou a lidar com uma perda de força mais clara. Os rojinegros sofreram dois novos rebaixamentos, mesmo que os retornos à elite tenham sido conquistados de imediato. Além disso, o clube chegou a passar 11 anos sem disputar os mata-matas do Campeonato Mexicano. Os resultados só voltaram a melhorar durante a década de 1990, quando Marcelo Bielsa e Ricardo La Volpe conseguiram reconstruir os Zorros. Os dois treinadores ajudaram a moldar uma das categorias de base mais prolíficas do país e contribuíram também a um jogo mais ofensivo de La Furia. Nomes como Rafa Márquez, Jared Borgetti e Pavel Pardo despontaram na base. Foi quando o clube chegou mais próximo de encerrar o jejum que durava 48 anos. Em 1999, o Atlas perdeu a decisão do Torneio Verão (equivalente ao Apertura) nos pênaltis para o Toluca.

O Atlas chegaria às quartas de final da Libertadores em 2000 e em 2008, mas não repetiria o impacto no Campeonato Mexicano a partir da virada do século. As quartas de final e as semifinais dos mata-matas se tornaram barreiras aos rojinegros, que com o tempo deixaram de frequentar as fases finais e passaram a conviver com a ameaça do rebaixamento. Os problemas econômicos ainda ocasionaram a mudança de donos do Atlas por duas vezes a partir de 2013. Primeiro chegou o Grupo Salinas, dono da TV Azteca, mas os resultados não eram bons e a relação com a torcida logo se deteriorou. Já em 2019 aconteceu a venda para o Grupo Orlegi, mesmo dono do Santos Laguna.

A nova direção do Atlas não garantiu uma ascensão imediata. O primeiro sinal positivo surgiu somente no Torneio Clausura de 2021, disputado no primeiro semestre do ano, quando o time alcançou as quartas de final dos mata-matas. Ainda assim, parecia pouco para indicar uma reviravolta tão grande, considerando que o próprio desempenho no promédio era fraquíssimo e, com a interrupção dos rebaixamentos no país, os rojinegros tiveram que pagar uma multa por terem a segunda pior campanha geral. Isso até que a surpreendente transformação no atual Clausura acontecesse.

O Atlas se beneficiou do bom trabalho de Diego Cocca, lateral do clube naquele vice-campeonato de 1999 e que chegou com uma respaldada carreira de treinador, em especial por ter levado o título argentino em 2014 com o Racing. Os Zorros cresceram com o passar das semanas e terminaram a fase de classificação do Apertura na segunda posição, com bons resultados contra adversários diretos na tabela de classificação. Assim, dava para acreditar também num bom papel dos rojinegros nos mata-matas.

O Atlas começou as quartas de final com dois empates contra o Monterrey. Os resultados se tornaram suficientes para avançar, pela melhor campanha dos rojinegros. Já nas semifinais, a vitória por 1 a 0 sobre o Pumas abriu caminho para a classificação, com o empate por 1 a 1 ratificando a presença na decisão após 22 anos. E os Zorros não desperdiçariam a oportunidade, mesmo que o rival na final fosse o León, campeão do Apertura um ano antes e de campanhas mais consistentes na Liga MX.

Por ter a melhor campanha, o Atlas pôde disputar o jogo de volta em casa. Antes disso, passaria por uma provação na visita ao Nou Camp, com a derrota por 3 a 2 para o León na ida. Luis Reyes até abriu o placar para os rojinegros e, depois que Victor Dávila empatou, Julio Furch recolocou os visitantes em vantagem. Porém, o León arrancaria a virada com dois tentos de Ángel Mena, aproveitando-se da noite ruim do goleiro Camilo Vargas. Só o triunfo passaria a interessar os Zorros no reencontro dentro do Jalisco, marcado para este domingo.

Mais de 54 mil torcedores do Atlas lotaram o Jalisco. E o time não decepcionou sua torcida, ainda que o gol tenha levado um tempo a sair. Julián Quiñones quase marcou um golaço por cobertura no primeiro tempo, mas esbarrou na trave. O tento da vitória por 1 a 0 saiu apenas aos dez minutos do segundo tempo, numa cabeçada do capitão Aldo Rocha na sequência de um escanteio. E os Zorros seguiram pressionando pelo segundo gol, que daria o título com bola rolando, mas pararam num lance inacreditável aos 35. Christopher Trejo fez um carnaval na defesa e mandou a pancada no travessão. Quando o rebote ficou limpo a Édgar Zaldívar na pequena área, ele fez o mais difícil e mandou uma cabeçada fraca para defesa do goleiro Rodolfo Cota. Com o placar mantido até a prorrogação, a definição ficou aos pênaltis.

Na marca da cal, cada time acertou sua primeira cobrança. O goleiro Camilo Vargas defendeu o segundo tiro do León, de Fernando Navarro, mas os rojinegros perderam logo na sequência quando Aldo Rocha carimbou a trave. Os cobradores seguiram cumprindo suas missões até a última série. Foi quando Camilo Vargas de novo se agigantou, ao pegar a batida de Luis Montes, e Julio Furch se tornou o responsável por selar o fim do jejum de 70 anos no Jalisco. O gol que confirmou uma ansiada festa pelos Zorros.

Desde 2019 no Atlas, Camilo Vargas sai como um protagonista do Apertura 2021. O colombiano possui uma história respeitável, com títulos importantes em seu país e competições internacionais pela seleção, mas ainda assim o heroísmo no Jalisco guarda um capítulo especial em sua trajetória – até pela forma como se reergueu das críticas no primeiro jogo. Vários sul-americanos, aliás, auxiliaram na quebra do jejum. O peruano Anderson Santamaría e o argentino Hugo Nervo foram peças importantes na zaga, ao lado do mexicano Jesús Angulo no setor, enquanto o ataque contou com a perigosa combinação entre o argentino Julio Furch e o colombiano Julián Quiñones. Já entre os locais, se Aldo Rocha liderou a equipe no meio, garotos como Jairo Torres e Jeremy Márquez renovam a vocação da base rojinegra. Nas laterais, menção honrosa à importância de Luis Reyes e Diego Barbosa no apoio, dentro do 5-3-2 usado por Diego Cocca.

Uma das imagens mais bonitas depois do título foi garantida pelo avô do jornalista Jesús Sánchez. O senhor de 91 anos disse que não ia morrer enquanto não visse o Atlas novamente campeão. A conquista resultou numa alegria genuína do idoso, diante do feito rojinegro. Outro personagem foi José Francisco Loera, torcedor surdo e cego que celebrou com os atletas em campo. É isso que o fim do jejum representa. A espera transformou a comemoração numa festa ainda mais saborosa para os Zorros, que nunca duvidaram de sua grandeza, mas precisaram de muita resiliência para prová-la da melhor forma outra vez. O Jalisco, de tantas e tantas histórias, ofereceu uma de suas maiores neste domingo. Depois, mais de 25 mil pessoas lotaram as ruas de Guadalajara para viver ao máximo a noite que tanto desejaram.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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