México

Meritocracia

“A bola pune”. A frase de Muricy se transformou em slogan da campanha são-paulina no título brasileiro de 2008. Um semestre depois, ela poderia ser ressuscitada, mas para explicar a saída de São Paulo e Palmeiras da Libertadores. Ambos tinham condições para superar Cruzeiro e Nacional nas quartas de final e chegar entre os quatro semifinalistas. Mas o fato é que os paulistas simplesmente não fizeram campanhas que justificassem tal conquista.

O exemplo mais evidente é o Palmeiras. Apesar de tecnicamente melhor que o Nacional, o Alviverde pagou pela dificuldade em mostrar o futebol que tem. No jogo de ida, desperdiçou a oportunidade de vencer por um ou dois gols de vantagem devido a escolhas incompreensíveis de seu técnico. Acabou com um empate por 1 a 1 no Parque Antarctica e se viu obrigado a vencer em Montevidéu.

Com exceção do duelo contra o Real Potosí na Pré-Libertadores, foi assim durante toda a campanha do time na competição. Por erros próprios, a equipe se colocava em situação complicada e conseguia, no sufoco, se manter viva. Na fase de grupo, a vitória sobre o Sport na Ilha do Retiro “salvou” a derrota em casa para o Colo-Colo. O Alviverde se enrolou novamente ao tropeçar em casa com os pernambucanos e se viu obrigado a vencer, com um gol a três minutos do fim, os chilenos em Santiago. Nas oitavas de final, teve de contar com uma atuação espírita de Marcos para passar pelo Sport em Recife.

Essas classificações têm um aspecto heróico, pelo menos na visão do torcedor palmeirense. Também mostra, porém, como o time tem dificuldade para fazer seu jogo. No desespero, quando não há mais alternativas, o Palmeiras junta forças e se mantém na disputa. Deu certo até a última quarta, mas não se pode achar que dá para chegar ao título da Libertadores passando por tantos sufocos. Uma hora, não dá certo.

O São Paulo não sofreu tantos riscos de eliminação, mas parecia conformado com a sua própria falta de futebol. Desde a estreia, contra o Independiente Medellín no Morumbi, o Tricolor não tem uma cara. O time titular é praticamente o mesmo que conquistou o Brasileirão de 2008, mas perdeu a fluidez de jogo. Hernanes não apresentou o poder de dominar o meio-campo, Jorge Wagner tem menor aproveitamento de cruzamentos, Rogério Ceni não vinha em boa fase (mas ainda era mais confiável que os reservas que assumiram após sua contusão) e a defesa foi vítima das seguidas contusões em seus integrantes.

O início de maio foi crucial para quebrar o que havia no São Paulo. A briga por posições no ataque começou a gerar faíscas, Rogério Ceni se contundiu (e, mais que o goleiro, o Tricolor sentiu falta do capitão), a defesa se esfacelou e a confiança do time ruiu depois das derrotas para o Corinthians no Campeonato Paulista.

Nesse aspecto, o duelo com as Chivas nas oitavas de final poderia ajudar a equipe a recuperar a autoestima e o ritmo de jogo. Mas, com a desclassificação do time mexicano, os são-paulinos acabaram prolongando sua má fase. Até porque Muricy parece encontrar dificuldades em desenvolver ainda mais o elenco atual. O jogo parece redundante e conhecido para os adversários. A tentativa de sacar Jorge Wagner e Hernanes para apostar em Marlos tem muito dessa tentativa de dar nova cara ao time. Mas se mostrou infrutífera.

Pela qualidade técnica do time, até daria para o São Paulo seguir na competição. Mas não quando o oponente é um Cruzeiro organizado e inteligente ao extremo. Adílson Batista armou uma equipe que sabia como aproveitar a inconsistência são-paulina. Ao trocar a bola pacientemente, os mineiros expuseram a fragilidade coletiva dos paulistas. Os 2 a 0 vieram com naturalidade (e o jogo só não terminou em goleada por falta de insistência da Raposa).

Desse modo, palmeirenses e são-paulinos podem até chiar, mas estão nas semifinais da Libertadores os clubes que mais mereceram. E que, pela conformação das chaves (duas potências brasileiras de um lado e dois ex-gigantes platinos em busca do renascimento internacional do outro), ensaiam uma reta final emocionante para a competição.

Balanço do Clausura mexicano, parte 2

Concluindo o balanço do Campeonato Mexicano, vamos ao que de melhor e, principalmente, pior, fizeram os times entre o 10º e 18º lugar. A lista contém equipes importantes, como Santos Laguna, Tigres, Chivas e os finalistas da Liga dos Campeões da Concacaf, Atlante e Cruz Azul.

Para ver a primeira parte do balanço, clique aqui.

Santos Laguna

Colocação final: 10º
Técnico: Daniel Guzmán e Sergio Bueno
Maior vitória: Santos Laguna 4×1 Atlas (14ª rodada)
Maior derrota: Santos Laguna 1×2 América (1ª rodada), Morelia 2×1 Santos Laguna (11ª rodada) e Atlante 2×1 Santos Laguna (17ª rodada)
Principal jogador: Christian Benítez (atacante)
Decepção: Daniel Ludueña (meio-campista)
Artilheiro: Christian Benítez, 7 gols
Competição continental: Concachampions (eliminado pelo Atlante nas semifinais)
Nota do semestre: 4,5

Uma campanha discreta. Ainda que a classificação tenha passado perto (apenas um ponto), a equipe de Torreón não passou a impressão de que realmente lutaria por um lugar na Liguilla. Ludueña e Vuoso tiveram um semestre ruim e deixou o ataque fraco, com Benítez ficando sobrecarregado. Isso ficou muito marcante no período em que a equipe ainda estava atarefada com o mata-mata da Concachampions. Depois da eliminação, os Guerreros até reagiram no Campeonato Mexicano, mas já estavam desgastados demais para a reta final.

Morelia

Colocação final: 11º
Técnico: Luis Fernando Tena e Tomás Boy
Maior vitória: Morelia 4×2 Atlas (16ª rodada)
Maior derrota: Atlante 2×0 Morelia (2ª rodada), Indios 2×0 Morelia (6ª rodada) e Necaxa 2×0 Morelia (10ª rodada)
Principal jogador: Miguel Sabah (atacante)
Decepção: Ever Guzmán (atacante)
Artilheiro: Miguel Sabah, 11 gols
Competição continental: nenhuma
Nota do semestre: 5,5

Típica campanha de meio de tabela. O Morelia colecionou alguns bons resultados, mas pecou por um péssimo desempenho fora de casa (apenas uma vitória). Não se esperava muito mais da equipe, mas o time até poderia ir melhor se não dependesse tanto de Sabah. O ex-atacante do Cruz Azul por mais de 60% dos gols dos Monarcas no campeonato. Se Guzmán, por exemplo, tivesse um semestre mais inspirado, talvez o Morelia fizesse pontos suficientes para chegar à Liguilla.

Chivas de Guadalajara

Colocação final: 12º
Técnico: Efraín Flores, Omar Arellano e Francisco Ramírez
Maior vitória: Chivas 5×0 Pachuca (8ª rodada)
Maior derrota: Indios 3×1 Chivas (17ª rodada)
Principal jogador: Sergio Amaury Ponce (defensor)
Decepção: Carlos Ochoa (atacante)
Artilheiro: Javier Hernández, 4 gols
Competição continental: Libertadores (excluído nas oitavas de final)
Nota do semestre: 3,5

No papel, era o segundo melhor time do México (atrás apenas do América). No entanto, o Rebaño pagou pela dificuldade em manter a concentração e disciplina em um elenco cheio de vaidades. Por isso, o time oscilou em demasia, variando grandes atuações (como os 5 a 0 sobre o Pachuca) com desempenhos melancólicos (derrota para o Atlas). Além disso, a dificuldade em passar pela fase de grupos da Libertadores obrigou a equipe a se desgastar mais que o esperado. Faltou fôlego nas rodadas finais do Clausura e a desclassificação provocou um princípio de crise no chiverío.

Atlas

Colocação final: 13º
Técnico: Darío Franco e Ricardo La Volpe
Maior vitória: Atlas 4×1 Necaxa (13ª rodada)
Maior derrota: Atlas 0x5 Pachuca (17ª rodada)
Principal jogador: Edgar Pacheco (meio-campista)
Decepção: Darío Botinelli (meio-campista)
Artilheiro: Bruno Marioni e Gonzalo Vargas, 5 gols
Competição continental: nenhuma
Nota do semestre: 4,5

Uma sequência de nove partidas sem derrota deu esperanças à torcida dos Zorros que o time chegaria à Liguilla. No entanto, o Atlas se perdeu na reta final, com a defesa fazendo água e o time marcando apenas um ponto nas últimas quatro rodadas. Para piorar, coroou a má fase com uma derrota em casa para o Pachuca, sendo que um empate daria a vaga no mata-mata como segundo colocado do grupo C, o mais fraco do Clausura.

Atlante

Colocação final: 14º
Técnico: José Guadalupe Cruz
Maior vitória: Atlante 3×1 América (9ª rodada)
Maior derrota: Pumas 3×1 Atlante (10ª rodada)
Principal jogador: Gabriel Pereyra (meio-campista)
Decepção: Giancarlo Maldonado (atacante)
Artilheiro: Luis Gabriel Rey, 5 gols
Competição continental: Concachampions (campeão)
Nota do semestre: 7

A campanha do Atlante foi bastante decepcionante para uma equipe com razoável nível de competitividade. No entanto, é justo dizer que a prioridade dos Potros no semestre foi a reta final da Liga dos Campeões da Concacaf. Como o torneio continental acabou com título (e vaga no Mundial de Clubes), o fato de o time de Cancun ter vencido apenas três partidas e ficado com o terceiro pior ataque do Clausura é secundário.

San Luis

Colocação final: 15º
Técnico: Luis Américo Scatolaro
Maior vitória: San Luis 4×1 Indios (11ª rodada)
Maior derrota: San Luis 1×5 Toluca (17ª rodada)
Principal jogador: Bráulio Luna (meio-campista)
Decepção: Tressor Moreno (atacante)
Artilheiro: Tressor Moreno e José Rodolfo Reyes e Victor Hugo Lojero, 3 gols
Competição continental: Libertadores (excluído nas oitavas de final)
Nota do semestre: 6,5

Como motivar um grupo de trabalho quando o chefe diz que a empresa é pouco importante e coloca alguns de seus melhores funcionários na concorrente? Foi isso o que passou o San Luis, que teve seu excelente time desmanchado para reforçar o Necaxa (ameaçado de rebaixamento e também controlado pela Televisa). Com uma equipe montada às pressas e sem motivação, não seria justo exigir mais que os 17 pontos conquistados. O fato de eliminar o San Lorenzo para ficar com uma vaga nas oitavas de final da Libertadores representaram um enorme lucro diante da situação.

Tigres de la Unam

Colocação final: 16º
Técnico: Manuel Lapuente e José Pekerman
Maior vitória: Tigres 1×0 San Luis (5ª rodada) e Tigres 1×0 Chivas (11ª rodada)
Maior derrota: Pachuca 4×1 Tigres (1ª rodada) e Toluca 4×1 Tigres (16ª rodada)
Principal jogador: Lucas Lobos (meio-campista)
Decepção: José Pekerman (técnico)
Artilheiro: Lucas Lobos, 5 gols
Competição continental: nenhuma
Nota do semestre: 4

É inadmissível que uma equipe com o nível de investimento do Tigres termine o Clausura com o pior ataque e a terceira pior pontuação. A dupla de ataque Kikín Fonseca e Bogado foi ineficiente e o reforço de Omar Bravo, na segunda metade do torneio, não ajudou muito. A esperança dos felinos foi que José Pekerman arrumasse a casa, mas o técnico argentino conduziu o Tigres a apenas uma vitória em dez jogos. Com isso, o time já entra na próxima temporada pressionado pelo rebaixamento.

Necaxa

Colocação final: 17º
Técnico: Raúl Arias
Maior vitória: Necaxa 2×0 Morelia (10ª rodada)
Maior derrota: Atlas 4×1 Necaxa (13ª rodada)
Principal jogador: Alfredo Moreno (atacante)
Decepção: Victor Piríz (atacante)
Artilheiro: Alfredo Moreno, 7 gols
Competição continental: nenhuma
Nota do semestre: 0,5

A Televisa desfez o bom San Luis para poder salvar o Necaxa do rebaixamento. Pelo time montado, como o técnico Raúl Arias, Alfredo Moreno, Piríz, Insúa, Coudet, Villa, Bernal e Quatrocchi, esperava-se que os Hidrorrayos pudessem até lutar pelo título. Pois a equipe jamais se encontrou no novo ambiente. O troca-troca com o San Luis causou desgastes internos e os hidrocálidos acabaram se afundando ainda mais na rabeira. A primeira das três vitórias veio apenas na 10ª rodada. O rebaixamento foi melancólico, com derrota para o América.

Cruz Azul

Colocação final: 18º
Técnico: Benjamín Galindo e Robert Siboldi
Maior vitória: Cruz Azul 4×0 Atlas (2ª rodada)
Maior derrota: Pachuca 3×0 Cruz Azul (15ª rodada)
Principal jogador: Christian Riveros (meio-campista)
Decepção: Yosgart Gutiérrez (goleiro)
Artilheiro: Luis Ángel Landín, 7 gols
Competição continental: Concachampions (perdeu a final para o Atlante)
Nota do semestre: 1,5

O semestre tenebroso na Máquina Cementera. O ataque nem foi dos piores, ainda que tenha faltado alguma companhia melhor para Landín. O problema foi a defesa, a mais vazada do Clausura. Insegura, a equipe se arrastou na esperança de salvar o ano com um título na Liga dos Campeões da Concacaf. Mas perder a competição com derrota em casa no jogo de ida deixou bem evidente que o Cruz Azul precisa de muitas mudanças para o segundo semestre.

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Equipe Trivela

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