México

Mal de altura

O Brasil forçou, forçou, forçou. E conseguiu, no máximo, atrair a antipatia dos vizinhos. Na disputa diplomática por rediscutir os jogos na altitude, os brasileiros perderam novamente. E, desta vez, com algum requintes: desgaste diplomático, “barrigada” jornalística e promessas não cumpridas.

Na última terça, o jornal Lance, em sua edição carioca, colocou na capa “Altitude mata”. Chamada forte, sem dúvida. A base era um fax que o Flamengo teria recebido de médicos bolivianos e mexicanos, que informavam que um jogador havia morrido em uma partida amadora em Potosi, mas o governo da Bolívia teria abafado o caso para evitar que o fato fosse usado como argumento contra os jogos a mais de 3 mil metros de altitude.

A notícia foi dada bombasticamente em 1º de abril, mas não era inventada. O que não significa que seja verdade. As informações tinham fundações frágeis e até a imprensa brasileira foi reticente para aceitar a história. Aliás, mais que isso: nem o Flamengo entrou nesse barco.

De acordo com a denúncia do Lance, o tal jogador defendia um clube de Oruro e morreu em Potosi. Por si só, essa história já é estranha, pois a diferença de altitude das duas cidades é de 265 m (3.967×3.702). Em um caso extremo, essa diferença pode até causar algum desconforto, mas dificilmente levaria um jogador à morte. Além disso, os tais médicos não se identificavam – alegavam medo de perseguições para ocultarem seus nomes – e não informavam o nome do jogador e dos clubes envolvidos na partida.

O Flamengo admitiu que recebeu tal fax, mas o clube sequer colocou essa informação na Agência Fla (agência/site de notícias oficiais do Rubro-Negro). A única menção se deu como reprodução de uma notícia publicada pelo Globo Esporte.com. O clube não bancou oficialmente a informação.

De acordo com Pedro Trengrouse, advogado do Flamengo e responsável pela ação que os clubes brasileiros movem no TAS (Tribunal Arbitral do Esporte) contra os jogos na altitude pela Libertadores, o Rubro-Negro não pôs para frente a denúncia do fax por falta de provas de sua autenticidade. Ele mesmo afirmou que a publicação da tal morte foi precipitada por parte do Lance.

De algum modo, o conteúdo do fax chegou ao jornal, que decidiu dar a bombástica manchete sem averiguar o caso devidamente (caso você não tenha entendido o termo “barrigada” do primeiro parágrafo, esse é o jargão jornalístico usado quando um veículo publica informação incorreta). No dia seguinte, o diário esportivo baixou o tom e não repercutiu demais a notícia.

Ainda que o caso possa ser enquadrado em “erro jornalístico”, foi o suficiente para aumentar a tensão de Bolívia e Peru com o futebol brasileiro. Os bolivianos disseram que o Flamengo inventara a morte do jogador e reiteraram que jamais alguém morreu em campo por torneios amadores de Potosi. Além disso, informaram que o único estrangeiro que participa dos estudos do governo boliviano sobre a atividade esportiva na altitude é equatoriano. Nunca houve mexicanos na comissão.

Em 2 de abril, o próprio Flamengo admitiu a derrota diplomática na tentativa de mudar o local da partida contra o Cienciano, marcada para o próximo dia 9. Mais que isso, as federações nacionais filiadas à Conmebol se uniram e votaram na aprovação dos jogos na altitude. Não apenas na Libertadores e na Sul-Americana, mas também nas Eliminatórias da Copa. A CBF foi a única entidade a ir contra a corrente, alegando “razões internas” para se abster. A Conmebol ainda pediu para os clubes brasileiros retirarem a ação que movem no TAS.

Uma derrota diplomática contundente, e que pode ter resquícios políticos. Ainda que o Flamengo e a CBF não tenham culpa direta da notícia publicada pelo Lance, foi o clima de “causa pessoal” que o Rubro-Negro deu à sua luta contra a altitude que incentivou o jornal a se precipitar. Se o clube e a imprensa tratassem o assunto com mais calma e discrição, talvez tivessem até mais chance de sucesso. No mínimo, não trariam tanta antipatia para si e, com isso, ganhariam mais tempo para trabalhar pela ausência de reações enérgicas.

Libertadores: Reta final

Faltam uma ou duas rodadas (ou uma e meia, depende do grupo) para o final da primeira fase da Libertadores. É hora de analisar as possibilidades de cada chave na reta decisiva.

GRUPO 1
Falta uma rodada. O Cruzeiro já está classificado e o Real Potosí já está eliminado. A disputa fica entre San Lorenzo e Caracas. Ambos se enfrentam no Nuevo Gasómetro e só a vitória classifica os argentinos. Pela superioridade técnica e a queda de rendimento dos venezuelanos (um ponto nos últimos três jogos), dá para considerar o Ciclón favorito.

Palpite: San Lorenzo.

GRUPO 2
Também falta uma rodada, mas o cenário está incerto. Ninguém está classificado e ninguém está eliminado. O Estudiantes joga em casa com o Deportivo Cuenca e precisa do empate. Se perder, depende de derrota do Lanús para o Danubio em Montevidéu. O Lanús precisa vencer. Se empatar, só passa se o Cuenca não vencer. Se perder, o atual campeão argentinos depende de derrota cuencana e de o placar negativo ser magro. O Cuenca só passa com uma vitória em La Plata. Um empate não basta. O Danubio precisa vencer o Lanús por três gols de diferença e torcer para o Deportivo Cuenca não ganhar do Estudiantes.

Palpite: Estudiantes e Lanús.

GRUPO 3
Faltam duas rodadas e, logicamente, a combinação de resultados possíveis é maior. Atlas, Colo-Colo e Boca Juniors lutam pela classificação, enquanto que o Unión Maracaibo tem chances tão remotas que pode ser considerado fora da briga (teria de vencer, fora de casa, Boca e Cacique e torcer por combinação de resultados). O empate do Atlas foi providencial ao Boca, que precisa segurar o empate contra os mexicanos em Guadalajara para garantirem a classificação contra o UAM em casa. Se perder no México, a situação dos argentinos fica delicada, porque teriam de torcer por tropeço do Colo-Colo em casa contra Atlas ou UAM. O Colo-Colo está em terceiro lugar, mas em situação controlável. Duas vitórias em casa dão a classificação. Se o Atlas tropeçar em casa com o Boca, os colocolinos precisam apenas da vitória contra o Maracaibo e de um empate com os Zorros. O Atlas precisa da vitória contra o Boca. Neste caso, uma derrota por pequena margem em Santiago pode dar a classificação. Tropeço no Jalisco contra os xeneizes obrigam os mexicanos a vencerem no Chile.

Palpite: Boca Juniors e Colo-Colo.

GRUPO 4
Cenário parecido com o do Grupo 3, mas falta uma rodada e meia. O Nacional tem apenas um jogo restando e precisa vencer o Cienciano em casa. Se vencer, está classificado. Caso empate, só cai fora se o Cienciano vencer o Flamengo em Cuzco e, depois, os brasileiros golearem o Coronel Bolognesi no Maracanã. Uma derrota pode bastar os uruguaios, mas na improvável situação de o Fla perder os dois jogos que restam. O Cienciano precisa vencer o Nacional. Se perder ou empatar, só passa se já tiver vencido o Flamengo (e, dependendo do caso, a situação pode ir ao saldo de gols). O Flamengo passa se vencer o Cienciano. Se empatar, classifica-se com vitória simples contra o eliminado Coronel Bolognesi. Se perder em Cuzco, precisa golear o Bolo na última rodada (a diferença de gols da eventual derrota para os imperiales influencia a vantagem necessária na última rodada).

Palpite: Flamengo e Nacional.

GRUPO 5
América-MEX e River Plate jogam em casa contra, respectivamente, Universidad Católica e Deportivo San Martín nos jogos que faltam. Se os times da casa vencerem ou empatarem, estão classificados. Se algum visitante vencer, a definição se dá no saldo de gols. América tem 2, River tem 1, San Martín tem -1 e Católica tem -2.

Palpite: América-MEX e River Plate.

GRUPO 6
Faltam duas rodadas. O Cúcuta lidera e ainda não sofreu gol, mas joga as partidas que faltam fora de casa. O Santos é segundo e tem difícil jogo fora de casa contra as Chivas, mas pega o Cúcuta na Vila Belmiro. As Chivas jogam em casa contra o Santos e fora contra o San José. Os bolivianos jogam em casa – e na altitude – contra colombianos e mexicanos. O Cúcuta precisa vencer uma partida. Com um empate e uma derrota, pode passar no saldo de gols. O Santos só precisa da vitória sobre o Cúcuta. Um empate em Guadalajara deixa o time em situação muito confortável para a decisão com os colombianos. Se perder os dois jogos, está virtualmente eliminado. O San José se classifica se vencer os dois jogos em casa e o Santos não vencer as Chivas. A equipe mexicana precisa vencer os dois jogos que restam e torcerem para o San José não perder para o Cúcuta.

Palpite: Santos e Chivas.

GRUPO 7
Faltam duas rodadas e o São Paulo apresentou um futebol fraco, mas só uma série improvável de resultados tira uma vaga do Tricolor. Dois empates já são suficientes para dar a classificação. A outra vaga está bastante difícil de visualizar. O Atlético Nacional têm dois jogos fora de casa, sendo um no Morumbi. Tem de fazer 4 pontos para não depender de combinações extravagantes. O Sportivo Luqueño joga as duas em casa e passa com vitórias, mas o time não inspira muita confiança. O Audax Italiano recebe o São Paulo e visita o Luqueño e precisa vencer os paraguaios e, na pior das hipóteses, empatar com os paulistas.

Palpite: São Paulo e Sportivo Luqueño

GRUPO 8
Fatura definida. Faltam duas rodadas, mas Fluminense e LDU Quito já estão classificados às custas de Arsenal e Libertad. A única definição é de quem será o primeiro da chave. Detalhe: quem vencer o duelo Flu x LDU no Maracanã tem grandes chances de ser o time de melhor campanha da primeira fase, o que dá a vantagem de decidir em casa todos os duelos do mata-mata.

México: Até o Veracruz se aproveita

A emocionante vitória sobre o River Plate foi muito importante para o América. Não apenas por praticamente assegurar a classificação à segunda fase da Libertadores, mas também porque dá novo ânimo a um time que se arrasta no Campeonato Mexicano. No último domingo, os americanistas protagonizaram um papelão. Perderam de 4 a 0 para o fragilíssimo Veracruz, forte candidato ao rebaixamento. O destaque foi o atacante Cláudio Graf, autor de três gols.

Os Tiburones Rojos abriram o marcador logo aos 5 minutos. Esse gol prematuro acabou com o moral das águilas, que passaram a assistir o adversário construir sua primeira vitória em casa no campeonato. No intervalo, o placar já era de 3 a 0.

Com o resultado, o América completou 8 partidas sem vitória. Pior: se isolam ainda mais na lanterna do Clausura. Ainda que não exista risco de rebaixamento (que é feito pela média de pontos por partida nas últimas três temporadas), a classificação para a Liguilla se torna cada vê menos provável. Talvez isso motive o clube a priorizar a Libertadores, mas o cenário dá indicações de que haverá crise profunda e reformulação no verão.

SELEÇÃO DA RODADA
– Veja a seleção da 12ª rodada do Clausura do site Medio Tiempo: Yosgart Gutiérrez (Cruz Azul); Jorge Estrada (Santos Laguna), Pablo Quatrocchi (Necaxa), Daniel Hernández (Jaguares de Chiapas) e Miguel Layún (Veracruz); Luis Robles (Atlas), Hugo García (Veracruz), César Villaluz (Cruz Azul) e Francisco Arce (Santos Laguna); Itamar (Jaguares de Chiapas) e Cláudio Graf (Veracruz). Técnico: Sergio Almaguer (Jaguares de Chiapas).

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Equipe Trivela

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