México

Lições do passado

Desaparecimento de jogadores, mudanças no regulamento do campeonato nacional, fuga de estrangeiros, cancelamento de amistosos. O futebol, como já era de se esperar, não ficaria imune ao terremoto e a tsunami que atingiram o Chile no dia 27 de fevereiro e voltaram a afligir a população do país nesta quarta-feira. Nessas horas, pouco importa se a preparação de sua seleção, que após 12 anos retorna a uma Copa, fica ou não ameaçada. Ainda assim, há algumas lições que o esporte ensina que podem ser rememoradas nesse momento.

Como se sabe, não é a primeira vez que os chilenos enfrentam uma catástrofe de tal proporção. Uma tragédia ainda maior abalou o seu território em 1960. Milhares morreram e colocou-se em dúvida a realização do Mundial que seria disputado dois anos depois em seu território. A Argentina surgiu como uma possibilidade e a Europa, claro, não foi descartada. Mas o Chile bateu o pé e fez valer o direito conquistado num congresso da Fifa em 1956.

Pode até parecer egoísmo nas atuais circunstâncias. E, de fato, não se pode culpar quem pensa assim. Contudo, o legado que ficou daquela competição acabou justificando tamanho empenho do país em levar adiante o torneio. Personificado na figura do presidente da Conmebol, Carlos Dittburn, o trabalho para deixar tudo pronto uniu os torcedores transandinos em torno de um objetivo comum e aliviou, em parte, a dor de quem perdeu um ente nos tremores.

Brasileiro nascido em Niterói e filho de chilenos, Dittburn disse uma frase que viraria lema daquela Copa e seria gravada em todos os estádios: “já que nada temos, tudo faremos”. Com esse espírito, a população do país arregaçou as mangas nas obras e se esforçou para entregar toda a estrutura da competição em tempo hábil. O empenho de seus compatriotas motivou a seleção de Fernando Riera, que conduziria a equipe a um pra lá de honroso terceiro lugar. Não havia dúvida: nada de Garrincha ou Puskas, o Chile era o maior vencedor de 1962.

Esse mesmo sentimento pode ser mais uma vez evocado nesse momento. O cenário é semelhante e até mesmo um movimento similar àquele desencadeado em 60 começa a tomar conta de sua torcida. O desejo já existia, mas agora virou obsessão a ideia de abrigar a Copa América de 2015. Apontado como o maior favorito nessa briga, o Brasil deve anunciar, após a confirmação do Mundial e da Copa das Confederações, a sua desistência e deixar o torneio com os chilenos.

Com isso, se iniciará um processo que passa também pelo desempenho dos comandados de Bielsa na África do Sul. Suazo demonstrou solidariedade na Espanha, Pinilla na Itália, a mensagem parece já ter sido enviada: mais do que cumprir um bom papel em seu retorno à Copa, os jogadores farão de tudo para amenizar a lacuna que ficou na vida de muitos de seus compatriotas após a tragédia. Pode estar aí o detalhe que faltava para um time que já tem o seu potencial – que não é pequeno – conhecido surpreender mais uma vez no torneio.

Pressão extra

A coisa não andava boa no país. A insatisfação se espalhava por todos os lados, desde o time sub-17 ate o principal. Mas até que, nos últimos meses, os ponteiros estavam, enfim, se acertando. Ainda que contra uma equipe B dos Estados Unidos, a Copa Ouro voltou para as mãos dos mexicanos – com direito a goleada de 5 a 0 na final – e os ânimos se acalmaram. O técnico Javier Aguirre, porém, tratou de relançar o alarme vermelho sobre a Tri. Ele e sua boca.

Na verdade, na verdade, Aguirre não falou nada demais, não fosse por um termo utilizado para caracterizar a situação do país: “fudido”. Isso mesmo, acredite. A declaração, feita em entrevista à emissora espanhola Cadena SER, é claro, não foi bem recebida pelos mexicanos, que se queixaram principalmente do fato de ela ter sido realizada em território estrangeiro. O treinador havia ridicularizado o México e precisava deixar a seleção. Era esse o sentimento de imprensa e torcedores. Algo semelhante àquele episódio envolvendo alguns jogadores brasileiros, Lula e sua afirmação sobre Messi. Em suma, ame-o ou deixei-o.

No papo em Madri, Aguirre já havia se adiantado ao dizer que voltaria para a Espanha ao fim do Mundial. Estava preocupado com o modo como o narcotráfico havia tomado conta do país. O que há de demais nisso? Nada. Mas aparentemente os mexicanos não veem a situação da mesma forma. Se há um ponto que, em meio a tudo isso, poderia ser contestado é o fato de o ex-comandante do Atlético de Madrid ter afirmado que seria muito difícil chegar às semifinais na África do Sul. Falta de ambição? Talvez. É aquele tipo de coisa: você pode até acreditar nisso, mas é melhor não falar. Aguirre pagou por sua sinceridade.

Na liderança da nova safra

Diego Suárez, Carlos Mendonza, Gilberto Alvarez… Ainda hoje dependente da altitude, a Bolívia pode deixar de contar “apenas” com a vantagem geográfica na busca por vitórias num futuro breve. Os três nomes apontados são figuras que devem ganhar destaque na renovação que o técnico Eduardo Villegas vem promovendo no time principal do país, mirando as próximas Eliminatórias. Protagonistas dos últimos Sul-Americanos Sub-17 e 20, eles são encabeçados por Samuel Galindo.

Anunciado nesta semana como reforço do Arsenal, o meio-campista de 17 anos tem tudo para assumir um papel de relevância dentro da equipe. Alto, esguio, habilidoso e dono de uma passada clássica, Galindo conta, inclusive, com essa ascensão para atingir o número mínimo de convocações exigido para atuar na Inglaterra. Enquanto esse dia não chega, deverá seguir treinando no clube londrino até o fim da temporada, quando provavelmente será emprestado ao Salamanca, da Espanha.

Ele repetirá, assim, o mesmo caminho percorrido por Carlos Vela e Fran Mérida. O garoto boliviano é representante de uma geração que parece disposta a abrir novos horizontes para o futebol do país. Sondado por Fiorentina e Everton, ele chegou a um acordo com os Gunners após se sair bem num amistoso em que a estrela foi a revelação do Fluminense, Wellington Silva. Em meio às acusações de uma suposta adulteração de idade, Galindo se defende e sonha com uma nova era para a Bolívia.
 

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Equipe Trivela

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