México

Golpes precisos

A expulsão de Guiñazu parecia o fim do Internacional em La Plata. O Colorado não fazia uma boa partida. Ainda que o Estudiantes não criasse tantas jogadas de perigo, a marcação argentina estava bem posicionada. Com mais volume de jogo, os pinchas não deixavam os gaúchos respirarem e a perda de um volante aos 25 minutos do primeiro tempo poderia desequilibrar ainda mais a briga por espaço no meio-campo.

Sim, o cenário era desfavorável ao Inter. Até um lance de individualidade mudar todo o jogo. D’Alessandro encontrou um espaço para lançar Nilmar. O atacante, sempre rápido, ganhou de Desábato na corrida e acabou atropelado pelo pesado zagueiro argentino. Pênalti que Alex converteu.

A partir daí, o Internacional deu um espetáculo de inteligência e dedicação tática. Alex já abandonara o papel de segundo atacante desde a expulsão de Guiñazu. Ele recuou para formar o meio-campo. O time, que entrou em campo com Edinho como volante mais fixo e Magrão e Guiñazu um pouco à frente, dando suporte a D’Alessandro, passou a ter uma linha de quatro no meio. Magrão e Edinho ficavam no meio, D’Alessandro e Alex nas alas. Uma espécie de 4-4-1.

Essa formação tirou espaço que Verón teria para trabalhar. O meia argentino continuou como o protagonista do Estudiantes, mas não conseguia se aproximar tanto da área adversária. La Brujita tentou, correu, lançou os companheiros, distribuiu o jogo. Mas os atacantes estavam todos perdido no meio da defesa colorada.

Quando tomava a bola, o Internacional via Alex e D’Alessandro avançarem até lançar Nilmar em velocidade. Os gaúchos não tiveram tanto sucesso nos contra-ataques, mas a presença de um atacante rápido na frente era suficiente para prender três defensores platenses. Nisso, já se dava a igualdade numérica.

Depois de tanto tentar, Verón cansou. Assim, a única possibilidade do Estudiantes era jogar bola na área. Com dois laterais que sabem marcar (pela direita, Bolívar foi zagueiro por anos e, pela esquerda, Marcão tem experiência como volante), o Inter bloqueava as jogadas pelas pontas. A zaga também estava concentrada ao extremo, disposta a se jogar na frente do pé adversário se isso servisse para desviar um chute perigoso.

O trabalho do time da casa foi prejudicado demais com isso e ficou mais difícil fazer alguma pressão eficiente. Enquanto isso, Alex e, principalmente, D’Alessandro tinham atuações inspiradíssimas em segurar a bola e servirem de desafogo para a defesa. Ambos saíram por cansaço, mas muito da vitória colorada veio da dupla de meias.

Desse modo, o Internacional quebrou uma invencibilidade de 43 jogos do Estudiantes no estádio Ciudad de La Plata. Mais que isso, ficou a um empate em casa do primeiro título do Brasil da Copa Sul-Americana. A vitória da última quarta deve ser lembrada por muito tempo, mesmo que o Inter venha a perder o título.

Um problema do Peru

“Todo mês, a Fifa anuncia que vai excluir algum país das competições internacionais por interferência do governo na federação. No momento, é a vez do Peru.”

Foi assim que esta coluna falou pela primeira vez da briga entre a FPF (federação peruana) e o IPD (Instituto Peruano de Deportes). Era 7 de abril de 2004. O fato de terem se passado mais de um ano e meio até alguma atitude ser realmente tomada mostra como o caso é arrastado e nada garante que não haverá um perdão. Para não obrigar você, leitor, a perder um tempão nos arquivos da Trivela, abaixo segue um apanhado com tudo o que esta coluna já falou sobre o caso, com atualização quando necessário.

A história é antiga e teve seu primeiro capítulo em 2003. Naquele ano, o governo do Peru aprovou a Lei de Promoção e Desenvolvimento do Esporte, que deveria ser implementada pelas federações esportivas do país até 31 de dezembro de 2005.

O item mais polêmico é o que diz respeito à forma das eleições, que foi criado após modificação da lei em 2005. De acordo com a emenda, os presidentes das federações esportivas peruanas deveriam ter mandatos de acordo com o ciclo olímpico. A única exceção era a FPF, que teria de respeitar o ciclo da Copa do Mundo. Em alteração do texto legal de 2006, foi definido que o colégio eleitoral das federações teria de ser composto por ligas regionais e, no caso do futebol, clubes profissionais.

A FPF não gostou do que viu. Na verdade, seu presidente, Manuel Burga, é que torceu o nariz. Afinal, a lei tiraria parte de sua autonomia no comando da entidade e, pior, o obrigaria a antecipar em um ano sua sucessão. Outro problema seria dar mais força política aos clubes profissionais, já que a base eleitoral do dirigente são equipes e ligas amadoras. Por isso, o cartola anunciou que a federação não teria tempo para se adaptar às mudanças da lei e não promoveu eleições ao final da Copa da Alemanha.

O Conselho Superior de Justiça Esportiva e Honra do Esporte (STJD peruano, ligado ao poder judiciário) não aceitou as explicações e decidiu suspender Burga por cinco anos de qualquer função diretiva no esporte, tirando-lhe o direito de tentar a reeleição em votação marcada para o primeiro semestre 2007. Foi a vez de a Fifa aparecer. Como sempre, a entidade internacional defendeu a autonomia das instituições futebolísticas do Estado e ameaçou punir a FPF se o governo tirasse Burga do poder. A federação peruana alegou que se filiou à Fifa em 1924 assinando uma cláusula em que assegurava sua independência do governo local.

Para aumentar a instabilidade no futebol peruano, Sport Ancash e José Galvez se envolveram em uma confusão judicial para decidir como ficaria o rebaixamento do Campeonato Peruano. No Peru, a temporada é dividida em Apertura e Clausura, mas há um campeonato nacional por ano. O título é decidido pelos vencedores dos dois torneios e o rebaixamento recai sobre as duas piores campanhas de toda a temporada. Em 2006, Sport Boys e Galvez estavam empatados na antepenúltima posição. No jogo-extra, o time de Chimbote foi derrotado e teve de fazer companhia ao Unión Huaral na Segundona.

O José Galvez não se conformou e entrou na Justiça, alegando que o Ancash havia inscrito jogadores profissionais como se fossem amadores. A ADFP (liga de clubes) demorou, mas decidiu tirar quatro pontos dos huaracinos, que seriam rebaixados no lugar do Galvez. O problema é que o campeonato de 2007 já estava na oitava rodada.

No final das contas, foi anunciado um acordo em que o Ancash estava perdoado e o Galvez teria um lugar na elite em 2008, mesmo sem disputar a Segundona de 2007. No entanto, até se encontrar ao consenso, as discussões também atingiram a FPF. Alianza Lima, Cienciano, Coronel Bolognesi, Melgar, San Martín e Sporting Cristal (alguns dos maiores clubes do país) chegaram a pedir a demissão de Burga pela falta de comando na situação.

Semanas antes da eleição à presidência da FPF, os clubes – liderados pelo Sporting Cristal – apresentaram um candidato de oposição. Mesmo sem apoio do governo e dos clubes, Manuel Burga contou com a aliança de clubes e ligas amadoras para ser reeleito. O IPD não reconheceu o resultado, pois o dirigente seria inelegível e o pleito estaria irregular. A FPF deveria ser assumida por uma junta transitória antes de ser escolhido seu novo mandatário.

A Fifa manteve-se do lado do cartola e, mais uma vez, ameaçou retirar o Peru de competições oficiais. No caso, das Eliminatórias da Copa 2010, que estavam para começar. Isso já faz um ano, mas Manuel Burga continua no comando da FPF, fazendo questão de mostrar alguma força. O dirigente tem apoio de colegas presidentes de federações de futebol da América do Sul e de Nicolás Leoz, manda-chuva da Conmebol.

Para mostrar força, o presidente da FPF chegou a protagonizar cenas ridículas. Em outubro deste ano, no Paraguai 1×0 Peru pelas Eliminatórias da Copa, Burga ficou posado ao lado do time paraguaio na hora de cantar os hinos (foto no alto da página). Uma atitude que os peruanos viram, no mínimo, como falta de patriotismo e desafio às autoridades.

Até por isso, o governo mantém sua posição contra o dirigente. Ainda mais porque Alan García, presidente desde 2006, se notabiliza por ter um discurso razoavelmente populista e quer passar uma imagem de austeridade e respeito às leis em seu segundo governo (o primeiro, na década de 1980, foi marcado por profunda crise econômica e corrupção).

Como o IPD não desistiu de destituir Burga do poder, a Fifa mantém a ameaça. Mas, como nenhuma ação foi feita por parte do governo, a entidade internacional não tinha tanto argumento para suspender a FPF. Até que se cansou e definiu o último dia 24 como prazo final para o Estado liberar a federação. Acabou se tornando o prazo da Conmebol para definir se o Peru terá representantes na Libertadores 2009.

Burga chegou a acenar com a possibilidade de acordo com o IPD, mas nada aconteceu. O Universitario, clube mais popular do Peru e já classificado para a Libertadores, ameaça processar a federação pelo eventual prejuízo de não disputar o torneio continental. A liga de clubes sugeriu que Burga reduzisse a duração do atual mandato como solução de consenso. O dirigente está propenso a aceitar a idéia.

Por isso, o fato de a Conmebol não ter retirado os times peruanos do sorteio da Libertadores, apenas adiando a confirmação em mais algumas semanas, dá a indicação de que haverá um acordo. Para a Fifa, o Peru já está suspenso. Mas isso também já ocorreu com Grécia e Polônia e, em ambos casos, as federações foram perdoadas depois de acordos. Nada impede que ocorra de novo.

Salas parou?

Sem alarde, sem aviso prévio, os torcedores que foram ao estádio Nacional de Santiago ver a Universidad de Chile bater o Cobreloa por 3 a 2 podem ter assistindo à última partida do ídolo Marcelo Salas. A vitória magra acabou eliminando La U do Clausura. Dias depois, o atacante afirmou que não renovará seu contrato com o clube. E que sua intenção, ainda que passível de mudança, é se dedicar a seus negócios.

Por acordo com a diretoria azul, Salas anunciaria sua saída oficial nos próximos dias. “El Matador” tem convite para jogar no Oriente Médio, mas a idéia inicial é se concentrar em uma empresa de promoção de eventos e ajudar mais efetivamente o Unión Temuco, clube da terceira divisão que foi comprado pelo atacante no início do ano.

Outro motivo para o eventual fim da carreira seriam os problemas crônicos no joelho direito. Aos 34 anos, o jogador – considerado um dos maiores da história da Universidad de Chile – tem cada vez mais dificuldades para atuar com constância.

México: deu Blanco em Torreón

Três empates e uma vitória do mandante. Os jogos de ida das quartas-de-final do Apertura mexicano não tiveram grandes surpresas. De qualquer modo, a única partida com vencedor teve elementos suficientes para merecer destaque. Primeiro, porque colocou o superlider San Luis em sérias dificuldades. Segundo, porque marcou o retorno de Cuauhtémoc Blanco ao futebol mexicano.

O atacante foi contratado por empréstimo pelo Santos Laguna, aproveitando as férias de seu Chicago Fire na MLS. E sua chegada teve impacto imediato. Jogando como um segundo atacante que, no fundo, voltava para ser um meia de armação, Cuau desequilibrou pelo toque de experiência e técnica que deu aos Guerreros.

A sorte da partida foi selada aos 17 minutos de jogo, quando Mascorro colocou os laguneros em vantagem ao marcar um gol contra. A partir daí, o jogo ficou ao feitio do Santos. O San Luis se viu obrigado a buscar o empate, permitindo que o time da casa usasse o contra-ataque.

Nesse momento, a consistência que Fernando Arce e Daniel Ludueña dão ao meio-campo lagunero encontrou em Blanco uma figura fundamental para distribuir assistências a Vuoso, que trabalhou mais fixo na frente. As oportunidades de gol foram se repetindo e a vitória por 3 a 1 surgiu com naturalidade.

O placar obriga o San Luis a vencer por dois gols de diferença em San Luis Potosí. Não é impossível, até porque os Gladiatores têm um time consistente e com força ofensiva. De qualquer modo, o futebol apresentado pelo Santos convenceu. E deixou claro que, mesmo com a campanha titubeante na fase de classificação, a equipe de Torreón está brigando pelo bicampeonato.

SELEÇÃO DA RODADA
Veja a seleção da rodada de ida das quartas-de-final do Apertura mexicano do site Medio Tiempo: Hernán Cristante (Toluca); Iván Estrada (Santos Laguna), Melvin Brown (Tecos de la UAG), Darío Verón (Pumas de la Unam) e Daniel Alcántar (Tecos de la UAG); Marcelo Sosa (Tecos de la UAG), Lucas Lobos (Tigres de la UANL), Daniel Ludueña (Santos Laguna) e Cuauhtémoc Blanco (Santos Laguna); Matias Vuoso (Santos Laguna) e Luis Alonso Sandoval (Tecos de la UAG). Técnico: Daniel Guzmán (Santos Laguna).

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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