Festa de formatura

Kleber não deixa ninguém esquecer o porquê de ser chamado de “Gladiador”. Ele tem vários defeitos, menos o de se omitir em campo. Ele busca o jogo, cai pela direita, abre na esquerda, volta para o meio-campo, tenta o drible, procura a tabela, toma muitas faltas e, sejamos honestos, também faz as suas. Foi exatamente assim que o atacante jogou o Cruzeiro x Estudiantes que decidiu a Libertadores. Mas quase ninguém o viu em campo, por mais que se movimentasse.
O caso de Kleber não foi isolado. Wellington Paulista, Ramires, Wagner, Gérson Magrão, Jonathan… Todo o Cruzeiro desapareceu no gramado do Mineirão. E isso não foi apenas por falta de inspiração individual dos atletas, mas também uma dificuldade coletiva de encaixar seu jogo contra os argentinos.
O Estudiantes venceu porque teve muito maior domínio sobre suas ações. Sabia o que queria e como queria. Conseguiu impor ao jogo o ritmo que lhe fosse mais conveniente, enquanto que o Cruzeiro ficou claramente desconfortável por não saber como lidar com o cenário desfavorável.
Alejandro Sabella foi inteligente. O técnico estava ciente de que os mineiros tinham um time muito rápido e envolvente, que poderia usar as dimensões do Mineirão para construir a vitória. Assim, era preciso dificultar trocas de bolas rápidas e cadenciar o jogo. Assim, ele tratou de bloquear o time celeste.
O quarteto defensivo foi realmente defensivo – sem que os laterais ousassem avançar. No meio-campo, Braña ficou como primeiro volante, fixo na cabeça da área. No entanto, Benítez e Pérez, que seriam os alas, se preocuparam mais nas funções defensivas. Verón ficou um pouco à frente, mas em posição em que pudesse ajudar na marcação e fazer lançamentos. No ataque, Boselli ficava como referência, enquanto Gata Fernández usava sua velocidade e seu fôlego para ir e voltar o tempo todo.
O Cruzeiro ficou asfixiado. Os laterais Gérson Magrão e Jonathan paravam nos alas. Assim, Wagner (pela esquerda) e Ramires (direita) muitas vezes se viam obrigados a fazer o papel de pontas. Outro problema: ao abrir pelos flancos, trombavam com os laterais argentinos e ainda deixavam o meio sem ninguém para armar. Marquinhos Paraná poderia ajudar, mas era vigiado por Verón (que também cuidava de Ramires quando o volante da Seleção voltava). Kleber tentou ajudar, mas pouco poderia fazer sem a ajuda de Wellington Paulista, perdido na marcação de Desábato e Schiavi.
O primeiro tempo inteiro ficou nesse ritmo e praticamente nenhuma chance de gol foi criada. O segundo tempo ia pelo mesmo caminho até que surgiu um fato novo. Henrique, que vinha fazendo uma partida bastante discreta, saiu de trás e chegou à intermediária com espaço. Sem um marcador definido, o volante avançou livre até acertar um forte chute, que desviou em Desábato e entrou no canto de Andújar.
Não foi uma jogada estruturada taticamente pelos cruzeirenses. Foi uma jogada isolada, mas que quebrou toda a barreira montada pelos argentinos. Aí, o panorama era inteiramente favorável aos brasileiros. Os pincharratas foram obrigados a soltar os alas e laterais, abrindo espaço para contra-ataques (expediente preferido do Cruzeiro).
Os celestes tiveram uma oportunidade de ampliar o marcador, mas eles próprios se empolgaram. Com a mudança de ritmo da partida, o Cruzeiro também se abriu. Verón viu um enorme espaço pela direita e lançou Cellay, que mal havia passado do meio-campo até aquele momento. O lateral cruzou e Fernández empatou.
Imediatamente, o jogo voltou a seu início. O Estudiantes fechando os espaços do Cruzeiro e poucas oportunidades de gol. No entanto, a rápida resposta argentina ao gol brasileiro deixou os pinchas em vantagem psicológica. Os mineiros não digeriram bem o gol sofrido e perderam a confiança. Verón aumentou seu domínio do meio-campo, encarando todas as brigas que fossem necessárias e distribuindo o jogo para transmitir a liderança que seu time precisava.
Enquanto isso, o Cruzeiro murchava. Ramires sentia a derrota no duelo pessoal com “La Brujjita”. Wagner sentiu dores e foi substituído. De repente, a Raposa se viu sem criatividade. Assim, os laplatenses acabaram virando o marcador. Foi em uma jogada de bola parada, mas poderia ter sido em uma trama. A sensação é de que o gol sairia de algum modo.
Depois disso, os mineiros só ameaçaram em jogadas desesperadas. Até estiveram perto do gol, mas não havia um mínimo de raciocínio nas ofensivas. Justamente o raciocínio estratégico que tanto sobrava ao Estudiantes.
Os pincharratas provaram que têm, de fato, uma equipe forte. Não transborda talento em muitas posições, mas conta com jogadores-chave, um sistema de jogo muito eficiente e um meia que justifica sua tarja de capitão pela qualidade técnica e pela liderança. Alejandro Sabella mereceu ganhar a Libertadores. Verón mereceu ganhar a Libertadores. E todo o resto do Estudiantes mereceu ganhar a Libertadores.
Strike três, e Nacional campeão
O Defensor Sporting teve a melhor campanha na temporada do futebol uruguaio. No entanto, como o campeonato tem uma final, o título foi para o Nacional. Pode-se falar em injustiças dos mata-mata (o que, de fato, ocorreu no Chile), mas não nesse caso. Simplesmente porque houve cinco partidas decisivas: dois empates e três vitórias tricolores.
O fato de serem disputadas tantas finais (na verdade, eram duas séries melhor-de-três, sendo que o Nacional precisava vencer ambas; os tuertos tinham vantagem de empate nas duas e só precisavam vencer uma) acabou expondo a condição das duas equipes. Em princípio, dois times bem montados e equilibrados. Mas, em longo prazo, o Nacional tem vantagem em tradição, experiência e, principalmente, elenco.
Os bolsos (campeões do Apertura) poderiam ter lutado com o Defensor pelo título do Clausura, mas perderam muitos pontos ao privilegiar a disputa da Libertadores. Os violetas o fizeram com mais parcimônia, e acabaram chegando desgastado ao final da temporada.
Nos dois primeiros encontros, as equipes se respeitaram demais e pareceram pensar mais em levar a decisão para o terceiro jogo. Dois times se anularam em duplo 1 a 1. No jogo que poderia dar o título ao Defensor, o Nacional resolveu se expor. E deu muito certo: dominou completamente o adversário e fez 3 a 0 com uma facilidade constrangedora.
A vitória levou o duelo para a segunda série de três. O Nacional fez uma partida muito fraca, aparentando uma certa soberba com o placar do encontro anterior. Os bolsos estiveram passivos em campo, deixando os tuertos dominarem as ações e abrirem o placar. A vantagem dos violetas só não ficou maior porque Muñoz estava em tarde inspirada e manteve o clube do Parque Central vivo.
Nos 15 minutos finais, Gerardo Pelusso mudou a cara de sua equipe, usando a superioridade de elenco dos tricolores. Colocou o atacante Biscayzacú no lugar do lateral-direito Matías Rodríguez. Ele se aproveitou do fato de, no final do primeiro tempo, o atacante bolso Medina e o goleiro tuerto Martín Silva terem sido expulsos. Assim, um dos atacantes do Defensor teve de sair para a entrada de Fernando Rodríguez, o goleiro reserva, e a pressão sobre a defesa tricolor ficou menor.
No 3-4-2, o Nacional manteve a força no meio-campo e tinha presença forte no ataque. O cenário se reverteu e o Trico passou a dominar. Coates empatou aos 33 minutos e Biscayzacú virou aos 41.
Na segunda partida da segunda série (a quinta no total), um empate já daria o título aos tricolores. Vendo sua enorme vantagem se desmanchar, o clube de Punta Carretas entrou tenso em campo. Assim, o Nacional teve mais tranquilidade nas finalizações em um duelo, no geral, equilibrado. Victorino colocou os bolsilludos na frente, Álvaro Navarro empatou no início do segundo tempo e a quatro minutos do fim, Lodeiro fez o gol do título tricolor.
A torcida festeja, mas já se preocupa. No dia seguinte, o Parque Central já via as primeiras despedidas. O técnico Gerardo Pelusso, ciente de que dificilmente conseguiria repetir o sucesso dessa temporada (campeão uruguaio e semifinalista da Libertadores), pediu demissão. Além do treinador, também deixou o clube Adrián Romero, vendido ao Gallos Blancos de Querétaro.
Mais gente, porém, pode sair. Matías Rodríguez, Muñoz, Moralez, Dominguez e Medina interessariam a clubes latino-americanos e europeus. Sinal evidente de que o Nacional terá uma temporada de reconstrução. E que, provavelmente, o sucesso (inclusive internacional) dos últimos anos levará um tempo para se repetir.
Cerro Porteño 1×0
Depois de um susto, o Cerro Porteño pôde comemorar o título do Apertura com relativa tranquilidade. O time poderia assegurar a vaga na final da temporada na penúltima rodada, com um empate em casa com o vice-líder Libertad. No entanto, os gumarelos venceram por 3 a 0 e a decisão ficou para a última rodada. Mas não foi difícil.
Jogando contra o 12 de Octubre no Defensores del Chaco, o Cerro pôde impor sua força diante do adversário. O placar de 1 a 0 sugere uma agonia maior do que a real. Não que o Ciclón tenha jogado futebol para golear, mas porque administrar vantagens magras virou um costume no Barrio Obrero.
Os azulgranas sofreram apenas 11 gols em 22 partidas, impressionante média de 0,5 gol por jogo. A eficiência defensiva contrata com a improdutividade ofensiva. Foram 24 gols, índice de time que, em situação normal, lutaria contra o rebaixamento. Apenas 12 de Octubre, 3 de Febrero, 2 de Mayo, Sol de América e Guaraní tiveram ataques piores. No total, dez partidas (quase 50%) terminaram em 1 a 0 para o Cerro.
Isso evidencia a importância dos jogadores mais experientes, que gerenciaram bem partidas que estiveram sempre perto do limite do tropeço. E se destacaram Brítez e César “El Tigre” Ramírez. O primeiro, artilheiro da equipe mesmo sendo volante. O segundo, por preparar muitas jogadas para os companheiros.
Desse modo, o time do técnico argentino Pedro Troglio conseguiu liderar desde as primeiras rodadas. Não dá para achar que é uma equipe realmente forte, como o Libertad era nos últimos anos. Mas é o início de um trabalho, que pode ficar mais consistente com o tempo.
Chile: ah, o mata-mata…
Trinta e oito pontos em 17 jogos. Apenas três derrotas. Segundo melhor ataque e melhor defesa. Sete pontos de vantagem sobre o segundo colocado. A campanha da Unión Española na primeira fase do Apertura chileno foi passível de poucas críticas. Fosse um campeonato convencional, os hispanos ficariam com o título com bastante folga.
No entanto, o Campeonato Chileno tem mata-mata. Aí, faltou forças para suportar a pressão de duelos contra equipes mais tradicionais e de investimentos mais pesados. Nas quartas de final, a Unión passou pelo O’Higgins com facilidade (empate por 1 a 1 e vitória por 6 a 1). Os problemas começaram nas semifinais: duplo 0 a 0 com a Universidad Católica e classificação apenas nos pênaltis.
Essa tendência de queda ficou mais clara na final, contra a Universidad de Chile. Os rojos tiveram bons momentos, mas faltou capacidade de definição. Isso ficou mais evidente no jogo de ida, no estádio Nacional. La U não esteve bem no primeiro tempo e saiu atrás no marcador. Os hispanos poderiam ter ampliado a vantagem, mas deram espaço para os universitarios – comandados pelo experiente Sergio Markarián – se reorganizarem e buscarem o empate.
No jogo de volta, a Unión Española preferiu ficar atrás para avaliar a postura da Universidad de Chile. Erro fatal. Os azuis abriram o marcador com uma cabeçada de Olivera e, depois, se plantaram na defesa para segurar o placar. Os rojos até pressionaram, mas pararam no goleiro Pinto. Pagaram por achar que dava para especular na final.
Pelo futebol apresentado na final, a Universidad de Chile mereceu ficar com seu 13º título chileno. Mas á justo dizer que o melhor time da competição foi a Unión Española. Coisas de mata-mata.



