Fazendo história

Começou com um time tímido, meio sem sal, pouco entrosado e que não empolgava. A derrota na estreia não ajudou. Os 3×0 sobre os desconhecidos norte-coreanos até poderiam ser um alento, se não fossem seguidos de um insosso empate sem gols com os ingleses.
Esse era o panorama dos mexicanos no começo da segunda fase do Mundial sub-20, disputado na Colômbia. Um time com potencial, mas distante dos favoritos e sem aquele talento necessário nos confrontos equilibrados, tão comuns em categorias de base.
Pois os mexicanos capitalizaram. Primeiro, venceram os sempre respeitáveis camaroneses nos pênaltis, nas oitavas, após sofrerem um gol há dez minutos do fim da partida e empatarem dois minutos depois, numa demonstração de frieza e maturidade. Virtudes corroboradas pelas penalidades, onde os aztecas não desperdiçaram nenhuma cobrança e saíram com vitória por 3×0.
O ápice, contudo, veio nas quartas. No último domingo, a Tri não tomou conhecimento da Colômbia e venceu com sobras os donos da casa, mesmo atuando num estádio lotado, contra a única seleção com 100% de aproveitamento até então. Um adversário que havia imposto uma impiedosa goleada aos franceses (semifinalistas) na estreia, por 4×1. Equipe do destaque da competição, o insinuante atacante da Udinese (ITA) Luis Muriel. Ou do meia/atacante Jaime Rodríguez, do campeão Porto (POR).
Numa jornada inspirada do arqueiro José Rodríguez, os comandados de Juan Carlos Chávez venceram, convenceram e agora estão nas semifinais da competição. Após abrir o placar com um gol de pênalti de Erick Torres na primeira etapa, La Tri sofreu o empate com gol de Duván Zapata, aos 15 do segundo tempo, mas com dois gols de Edson Rivera, aos 24 e aos 43, conseguiu a vaga.
O elenco azteca é bom, e feito em casa. Com apenas um jogador atuando fora do país, destaques como Néstor Araujo (Cruz Azul), Diego De Buen (UNAM), Diego Reyes (América), Alan Pulido (Tigres), Carlos Orrantia (UNAM), Erick Torres (Guadalajara) e o já citado goleiro Rodríguez (Veracruz) encontram desde cedo muitas oportunidades de atuar nos principais times mexicanos. Algo que favorece o desenvolvimento de seu futebol, diferente de boa parte dos jogadores nas outras seleções.
Campeões mundiais da categoria sub-17 esse ano, em competição realizada em casa, os aztecas sonham repetir o feito da seleção brasileira. Em 2003, após conquistar o pentacampeonato na categoria principal, o Brasil, derrotando a Espanha nas duas finais, conquistou os títulos Mundiais sub-17 (na Finlândia) e sub-20 (nos Emirados Árabes Unidos).
O sonho azteca é possivel. E a situação já muito melhor do que em 2005, quando, após conquistar a Copa do Mundo sub-17 pela primeira vez, os aztecas nem sonharam com a dobradinha, já que a Tricolor da categoria sub-20 foi eliminada ainda na primeira fase do qualificatório da Concacaf, ficando atrás de Canadá e Honduras no grupo.
Agora, faltam apenas dois jogos. E a maior dificulade deve ser encarada já no próximo desafio. Os aztecas pegam os brasileiros, favoritos ao título, que derrotaram a Espanha nas quartas. Na final, o vencedor pega ou França ou Portugal, duas equipes que oscilaram muito durante a competição, mas possuem elencos promissores.
Independente do resultado, os jovens azteas já demonstram desde cedo, com as ótimas campanhas nas categorias de base, um perfil que os mexicanos necessitam trazer para o time principal: um time técnico, bem preparado, de bom jogo coletivo e táticamente evoluído, mas, principalmente, que demonstre frieza e tranquilidade contra seleções de maior nome e “peso” no futebol mundial.
No fim, o maior benefício das boas exibições do jovens mexicanos pode não ser a hegemonia na base, mas o fim do “complexo de vira-lata” azteca, que tanto prejudica a Tricolor nos principais torneios internacionais. Uma lição que os mais jovens podem, enfim, ensinar aos mais velhos. Será?



