Ex-árbitro aponta favorecimento a clubes grandes no México: “Uma telenovela, com scripts e tudo”

Uma entrevista colocou em ebulição o futebol mexicano nesta semana. Em conversa com o jornal Reforma, o ex-árbitro Erim Ramírez afirmou haver uma linha de favorecimento aos clubes grandes na Liga MX, com uma série de instruções passadas pela Comissão de Arbitragem para que os homens do apito facilitem a vida das maiores equipes do país.
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Ramírez não apresentou nenhuma prova e também não citou nenhum nome especificamente, mas não há ambiguidade em sua fala: o ex-árbitro crava que há, sim, favorecimento aos grandes mexicanos. “Pouco a pouco, o torcedor vai se dar conta de que este espetáculo nada mais é do que isso: uma telenovela, com scripts e tudo. Sobre as tendências que existem com algumas equipes do futebol mexicano e a relação de compadres que existe entre os de cima, vou colocar desta maneira: há gente que pesa muito no futebol”, afirmou.
Segundo Ramírez, a orientação da Comissão de arbitragem era para que os árbitros protegessem determinados times e jogadores. “Dizem-nos palavras como: ‘Olha, este jogador é muito rápido, este jogador é muito habilidoso, proteja-o, tenha cuidado com tais jogadores. Ou (dizem) que tem que tratar bem determinada equipe’. Então, é como se te dessem um alerta de como tem que manejar as partidas”, contou.
Mais uma vez sem citar exemplos, Erim Ramírez afirmou que até mesmo as punições por possíveis erros tinham peso diferente, dependendo do patamar da equipe prejudicada: “Ninguém se equivoca por querer se equivocar, mas simplesmente porque não é perfeito. E (mesmo assim) te castigavam com três ou quatro partidas; então, você apitava o jogo de outra equipe que não pesava tanto no futebol mexicano e se dava conta de que o castigo era menor”.
Outro ex-árbitro mexicano, Miguel Ángel Ayala também disse haver favoritismo, mas a determinados árbitros, na hora de designá-los às partidas da Liga MX. “Ultimamente, a arbitragem tem sido tratada com tendência e muito favoritismo, porque é bem sabido que, desde que Edgardo Codesal chegou à Comissão de Arbitragem, ele protegeria seus amigos como fez em épocas anteriores. Então havia de minha parte uma tremenda desconfiança, e a verdade é que nunca ficou claro como eram feitas as designações (para as partidas). Apenas víamos que eram sorteados os (árbitros) internacionais, e os nacionais eram colocados de lado”, contou, em entrevista ao Fox Sports.
Tão importante quanto repercutir as palavras de Erim Ramírez e Miguel Ayala, reforçando a necessidade de uma investigação, é colocar em perspectiva suas declarações. Ambos estão entre os dispensados pela Comissão de Arbitragem e brigam na Justiça contra a entidade, alegando demissão sem justa causa.
Sobre o caso específico de Ramírez, outro ex-árbitro, Marco Antonio Rodríguez, com três Copas do Mundo (2006, 2010, 2014) no currículo, afirmou se tratar de ressentimento pela demissão. “Uma pessoa que se atreve a falar desta maneira tem que comprovar o que diz. É preciso ver a motivação emocional que o Erim Ramírez. Acredito que, no caso do Erim, é um árbitro que teve uma carreira curta na primeira divisão, que lamentavelmente não teve tempo de se consolidar e que, na melhor das hipóteses, o fato de terem-no sacado da arbitragem o deixou magoado. Com o sistema ou com a Comissão de Arbitragem, e agora ele está falando dessa maneira”, opinou.
Ramírez não apresentou evidências de suas denúncias, mas suas declarações deverão repercutir por algum tempo na imprensa mexicana e, esperamos, conduzir os responsáveis a investigar o que foi relatado pelo ex-árbitro. Se a impressão de favorecimento carecia apenas de uma denúncia para que fosse investigada, as aspas de alguém que esteve dentro do círculo dos homens do apito deve ser suficiente para que a averiguação se inicie.



