Ecos de uma goleada

Imagine que você não tenha uma vida de confortos, mas, com algum esforço, consegue o que precisa. Seus amigos passam por mais dificuldades, o que lhe dá uma sensação de satisfação. Mas, sempre que você acha que conseguiu algo grande (como comprar um carro econômico que ficou anos namorando na vitrine da loja, sair com uma garota bonita ou ser promovido), aparece seu primo que é dono de metade da cidade se exibindo. Ele tem um carro esporte, namora a miss da cidade e é diretor da empresa do pai. Não é uma situação agradável e saber que você é muito melhor que ele no futebol do fim de semana lhe dá um orgulho especial. Mas, e se ele começa a ficar bom no futebol também?
É essa a sensação do mexicano em relação aos Estados Unidos. Não é fácil a vida logo abaixo da maior potência econômica, política e militar do mundo. A sensação de inferioridade é algo sempre presente, e se tornou ainda mais forte depois que os norte-americanos passaram a ser a força dominante no futebol da Concacaf. Ainda que, em clubes, os mexicanos estejam um nível acima, as competições de seleções já viam uma clara superioridade estadunidense.
Por isso, a vitória por 5 a 0 do México na final da Copa Ouro é importante. Ela recoloca, pelo menos por enquanto, os aztecas como seleção hegemônica na região. E devolve a autoestima ao futebol – e aos jogadores – do país. Pode-se até tirar um pouco do valor da conquista mexicana pelo fato de os Estados Unidos estarem com uma equipe reserva, mas o México não contou com boa parte dos atletas que atuam fora do país, o placar foi largo o suficiente para não deixar muita margem a contestação e o jogo foi realizado no Estádio Giants, em East Rutherford (região metropolitana de Nova York).
Com o título, o técnico Javier Aguirre terá muito menos pressão em cima de seu trabalho. A torcida mexicana já ganhou o motivo que precisava para confiar no time, sobretudo em Giovani dos Santos e Carlos Vela, jovens em que se aposta muito, mas ainda precisavam de um grande desempenho na seleção adulta. Além disso, Miguel Sabah pode pintar como o goleador que o México não tem desde a decadência natural de Borgetti.
Se, de fato, El Tri mantiver o futebol solto, deve deslanchar nas Eliminatórias da Concacaf. Tecnicamente, não há motivos para achar que o México seja inferior a Costa Rica ou Honduras. Faltava apenas mais confiança e tranquilidade. Na própria Copa Ouro isso se manifestava. Mas só até a final, que pode ficar como marco da mudança de rumo da seleção mexicana que tenta um lugar na Copa da África do Sul.
Bolívia: mudança de campeão
O futebol boliviano tem um quê de filme de terror. Quando é realizada a última partida, parece que o campeonato acabou. De repente, quando todos caminham serenamente, ele mostra que ainda está vivo e atormenta a vida dos torcedores. Mais ou menos como Jason ou outros personagens que sempre parecem que morreram, mas precisam reaparecer para uns sustos finais.
Foi assim com o Apertura 2009. O Bolívar completou a última rodada na primeira posição e comemorou o título. No entanto, o Real Mamoré entrou na Justiça, pedindo os pontos da derrota para a Academia na última rodada. E, nesta semana, saiu a decisão: os bolivaristas perderam três pontos e, com isso, foram ultrapassados pelo Real Potosí, novo campeão boliviano.
O argentino Augusto Mainguyagüe chegou por empréstimo ao Bolívar. No entanto, seu contrato terminava antes do final do Apertura. Desse modo, o clube boliviano negociou com o Newell’s Old Boys (dono dos direitos do jogador) prorrogou seu vínculo com o zagueiro. Não houve problemas e o novo acordo foi assinado.
Com base nisso, os bolivaristas entraram em campo contra o Real Mamoré com Mainguyagüe em campo. O problema é que o clube de Trinidad alegou que a prorrogação do empréstimo era um novo contrato. Ou seja, o jogador teria de ser reinscrito na federação boliviana. Como o prazo para inscrição no Apertura já estava encerrado, ele só poderia entrar em campo no Clausura.
A Justiça esportiva boliviana deu ganho de causa ao Mamoré. O Bolívar teve desconsiderada sua vitória por 2 a 1 e, sem os três pontos, perdeu a primeira posição. O clube já anunciou que vai recorrer da decisão. O que dá sinais de que o monstro ainda é capaz de reaparecer para dar mais um susto.
Guia do Apertura mexicano – parte 2
Encerrando o Guia do Torneo Apertura do México, vamos aos clubes do Grupo 3. Os grupos 1 e 2 foram publicados na semana passada. Para ver, clique aqui.
GRUPO 3
Atlante
Estádio: Andrés Quintana Roo (20.000 lugares)
Principal jogador: Federico Vilar (goleiro)
Fique de olho: Ever Guzmán (meia)
Competição continental que disputa: Mundial de Clubes
Quem chegou: Clemente Ovalle (Monterrey), José Joel González (Monterrey), Ever Guzmán (Morelia), Santiago Solari (San Lorenzo-ARG) e Diego Cervantes (América)
Quem saiu: Omar Ortiz (Monterrey), Luis Gabriel Rey (Morelia), Gerardo Espinoza (Atlas) e Ismael Valadez (León)
Técnico: José Guadalupe Cruz
Objetivo na temporada: montar o time para o Mundial
O Atlante não tem um time espetacular, mas é bastante competitivo. Tanto que é o atual campeão da Concachampions e representará a Concacaf no Mundial de Clubes. E, justamente por isso, não deve fazer um grande papel no Apertura. O time de José Guadalupe Cruz não tem um elenco dos mais vastos e deve guardar forças para chegar bem aos Emirados Árabes em dezembro. De qualquer modo, os destaques individuais continuam sendo o goleiro Federico Vilar (que já foi citado por Maradona como selecionável da Argentina) e o atacante venezuelano Maldonado. A eles se soma Santiago Solari, meia com longa passagem pela Europa que já anda um pouco em baixa, mas acrescentará experiência internacional ao elenco.
Cruz Azul
Estádio: Azul (35.161 lugares)
Principal jogador: José de Jesús Corona (goleiro)
Fique de olho: Pablo Zeballos (atacante)
Competição continental que disputa: Concachampions
Quem chegou: Emanuel Villa (Derby County-ING), Adrián Cortés (Estudiantes Tecos), Mario Virginio Ortiz (Estudiantes Tecos), Ramón Núñez (Puebla), José ed Jesús Corona (Estudiantes Tecos), Melvin Brown (Estudiantes Tecos), Emilio Hernández (Universidad de Chile-CHI) e Horacio Cervantes (Morelia)
Quem saiu: Joaquín Beltrán (Gallos Blancos), Tomás Campos (Indios), Óscar Pérez (Jaguares), Roberto Carlos Juárez (Puebla), Roberto Ovelar (sem clube), Marcelo Carrusca (sem clube), Alfonso Blanco (Irapuato), Emilio Hassan Viades (Veracruz), Ronald Raldes (sem clube) e Carlos Bonet (Olímpia-PAR)
Técnico: Benjamin Galindo
Objetivo na temporada: chegar ao mata-mata
Depois do fracasso do primeiro semestre (até chegou à final da Concachampions, mas apresentando um futebol patético, e terminou em último no Clausura), o Cruz Azul mudou tudo. Saíram jogadores como Bonet e Óscar Pérez, que estavam há anos no clube, e chegou uma baciada de promessas do Estudiantes Tecos (clube surpresa do Clausura). O inexperiente técnico Benjamin Galindo terá a missão de comandar a reformulação dessa equipe, que não deve aspirar grandes conquistas no Apertura – ainda que a pressão na Máquina Cementera seja sempre por títulos.
Estudiantes Tecos
Estádio: Tres de Marzo (25.000 lugares)
Principal jogador: Bruno Marioni (atacante)
Fique de olho: José Ramón Partida (meia)
Competição continental que disputa: nenhuma
Quem chegou: Rubens Sambueza (River Plate-ARG), Mauro Cejas (Universidad San Martín), Bruno Marioni (Atlas), Elgabry Rangel (Santos Laguna), Fabián Villaseñor (Jaguares) e Joel Sánchez (Gallos Blancos)
Quem saiu: Adrián Cortés (Cruz Azul), Mario Virginio Ortiz (Cruz Azul), Marcelo Fabián Sosa (sem clube), Nelson Pinto (sem clube), Cláudio Graf (LDU Quito-EQU), Arnhold Rivas (América), José de Jesús Corona (Cruz Azul), Melvin Brown (Cruz Azul), Mario Ortiz (Cruz Azul) e José Guadalupe Martinez (Gallos Blancos)
Técnico: Miguel Herrera
Objetivo na temporada: escapar do rebaixamento
Um caçula na primeira divisão mexicana? Nada disso. O Estudiantes Tecos nada mais é do que o Tecos de la UAG, só que de distintivo, camisa e, claro, nome novo. O clube mudou de direção e a ordem é ampliar a torcida. Julgaram que o nome antigo vinculava demais o clube da Universidad Autónoma de Guadalajara. Com o genérico “Estudiantes”, o objetivo é conquistar simpatizantes em outras universidades. De qualquer modo, a sede do clube ainda é em Zapopán, cidade na região metropolitana de Guadalajara. Para esse começo de empreitada, o Estudiantes terá uma tarefa difícil. A base da última temporada foi desfeita – com destaque para a saída do goleiro Corona, terceiro da seleção mexicana – e Miguel Herrera se vê obrigado a usar o Apertura para montar uma nova equipe para, no Clausura, estar forte o suficiente para a luta contra o rebaixamento.
Pumas de la Unam
Estádio: Olímpico Universitario (66.000 lugares)
Principal jogador: Sergio Bernal (goleiro)
Fique de olho: Martín Bravo (atacante)
Competição continental que disputa: Concachampions
Quem chegou: ninguém
Quem saiu: Juan Carlos Cacho (Pachuca) e David Toledo (Tigres)
Técnico: Ricardo Ferretti
Objetivo na temporada: título
No começo do ano, o Pumas não negociou ninguém para o Clausura. Ninguém chegou, ninguém saiu. E o time foi campeão. Pelo visto, a diretoria parece ter gostado do resultado e teve atitude parecida na pré-temporada. Cacho – que chegou como destaque do Pachuca e pouco fez na Ciudad Universitaria – e Toledo saíram. E só. Assim, o Pumas continuam com uma equipe muito forte, contando com jogadores experientes como Palencia e Bernal e jovens formados nas “canteras” do clube. Se os compromissos na Concachampions não atrapalharem, deve brigar pelo título.
Santos Laguna
Estádio: Corona (16.000 lugares)
Principal jogador: Fernando Arce (meia)
Fique de olho: Darwin Quintero (atacante)
Competição continental que disputa: nenhuma
Quem chegou: Carlos Ochoa (Monterrey), José María Cárdenas (Pachuca), Christian Sánchez (Atlas) e Milton Michell Aguilar (América)
Quem saiu: Miguel Zepeda (Atlas), Gerardo Espinoza (Atlas), Elgabry Rangel (Estudiantes Tecos), Joaquín Reyes (Puebla), Gregorio Isidro Torres (Pachuca), Francisco Javier González (León) e Christian Benítez (Birmingham City-ING)
Técnico: Sergio Bueno
Objetivo na temporada: chegar ao mata-mata
A equipe que fez grandes campanhas por duas temporadas parece estar acabando. O Santos Laguna já não tem mais o técnico Daniel Guzmán e perdeu um jogador fundamental – o equatoriano Benítez. De qualquer modo, a base continua intacta. Oswaldo Sánchez é a segurança no gol, Fernando Arce e Ludueña dão muita solidez ao meio campo e Vuoso é o homem de mais força física no ataque. Carlos Ochoa chegou para substituir Benítez no papel de atacante mais móvel, ainda que o equatoriano seja mais forte e goleador.
Tigres de la UANL
Estádio: Universitario (43.000 lugares)
Principal jogador: Lucas Lobos (meia)
Fique de olho: Armando Pulido (atacante)
Competição continental que disputa: nenhuma
Quem chegou: Alfredo González Tahuilán (San Luis), Gastón Fernández (Estudiantes-ARG), David Toledo (Pumas), Fernando Ortiz (América), Edgar Castillo (América), Itamar (Jaguares), Lucas Ayala (Atlas), Javier Saavedra (Indios), Cirilo Saucedo (Indios) e Alejandro Villalobos (Puebla)
Quem saiu: Sindey Balderas (Indios), Hugo Sánchez Guerrero (Jaguares), Luis Enrique Muñoz (Puebla), Óscar Pérez (Jaguares), Alfredo Talavera (Toluca), Ariel Bogado (sem clube), Omar Bravo (Deportivo de La Coruña-ESP), Mauricio Romero (Necaxa), Julio Ramón Aguilar (sem clube) e Pedro Juan Benítez (sem clube)
Técnico: Daniel Guzmán
Objetivo na temporada: chegar ao mata-mata
Pense em um clube de alguma tradição, torcida fanática em sua cidade, recursos financeiros razoáveis e, por isso, altos investimentos em reforços, mas sempre sem muito planejamento e com excesso de pressão, o que leva ao fracasso ao final de cada campeonato. O Betis é assim. O Atlético de Madrid também. Pode-se dizer isso do Tottenham. E também do Tigres. Depois de mais uma decepção, o clube regiomontano voltou a investir em reforços. Trouxe os bons Villalobos, Itamar (aquele mesmo, ex-Palmeiras e São Paulo), Edgar Castillo e Gastón Fernández (autor do primeiro gol do Estudiantes na final da Libertadores contra o Cruzeiro). Assim, já imagina chegar à Liguilla, ainda que exista um risco razoável de rebaixamento. Cheiro de nova temporada melancólica.



